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ZMapp: a esperança mundial contra o vírus Ebola?

ZMapp: a esperança mundial contra o vírus Ebola?

Fernanda Maria Policarpo Tonelli, Rodrigo R Resende

Vol. 1, N. 16, 26 de Agosto de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.08.26.006

Recentemente se tem vivido um período de insegurança quanto à saúde pública mundial devido à epidemia do vírus mortal Ebola, que assola a África Ocidental (em países como Guiné, Serra Leoa, Libéria, República Democrática do Congo e Nigéria). Esta é considerada a mais severa epidemia da doença, em número de casos e de mortes, desde a descoberta do vírus na década de 1970 (1).

A reação de medo se justifica pelo fato de não existir tratamento específico contra o vírus Ebola, seja na forma de fármaco disponível no mercado, ou vacina contra a doença. Assim sendo, o temor é de que se vivencie situações de pânico e contaminação em massa como as apresentadas no filme Epidemia (de 1995), estrelado por Dustin Hoffman.

No entanto, uma droga experimental chamada ZMapp tem sido usada na tentativa de conter a febre hemorrágica do Ebola (2).

O vírus Ebola e a febre hemorrágica

No geral, o indivíduo infectado pelo vírus começa a apresentar sintomas de duas a três semanas após ter sido contaminado. Dentre os sintomas, os mais comuns são: febre, vômito, diarreia, e podem também surgir complicações hemorrágicas (3).

A transmissão inicial do vírus Ebola aos humanos se dá por contato com fluidos/secreções de animais contaminados (alguns primatas – como chimpanzés e gorilas, por exemplo – e morcegos de fruta). A partir de então, é transmitida de pessoa para pessoa, sendo altamente contagiosa: obrigando o uso de vestimenta que ofereça isolamento completo do ambiente externo para profissionais da saúde que trabalham em área de epidemia (Figura 1).

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Figura 1: Equipe médica com trajes de proteção para prestar atendimento aos infectados (Cellou Binani/AFP/Getty Images).

ZMapp: em que consiste e breve hsitórico

O ZMapp é um fármaco experimental desenvolvido pela Mapp Biopharmaceutical Inc. e instituições colaboradoras. Este consiste em um “coquetel” de três anticorpos, cujos estudos para seu desenvolvimento se iniciaram a mais de uma década (4).

Dos três anticorpos presentes no ZMapp, um deles é oriundo de uma formulação experimental chamada MB-003; esta formulação foi capaz de salvar macaco Rhesus infectados com o vírus Ebola no ano de 2012 (5). Os outros dois anticorpos provem da formulação experimental ZMAb; que também permitiu, em 2013, a sobrevivência de macacos infectados com o vírus (6). As drogas experimentais reduziram ou eliminaram os sintomas e a concentração de vírus circulante no sangue dos animais.

Assim sendo, como a epidemia do vírus este ano já causou mais de 1.350 mortes além de mais de 2.473 casos suspeitos em vários países diferentes (7), veio a possibilidade de testar em humanos, em caráter de extrema urgência, a droga experimental. Os primeiros a receberem o ZMapp foram dois missionários norte-americanos e a resposta de ambos parece satisfatória (2). O Comitê de Ética da organização Mundial da Saúde (OMS) resolveu então liberar o uso deste para se tratar pacientes infectados com o vírus Ebola (8).

Em uma situação gerada pela falta de tratamentos viáveis e possível morte de um paciente, este assina um termo de consentimento que se responsabiliza por quaisquer efeitos e sintomas que o tratamento possa acometê-lo. Para se liberar um medicamento no mercado só o é possível após anos de pesquisa, primeiro com células e depois com animais de pequeno porte, como camundongos e ratos. Depois se avança para animais maiores como cachorros e primatas. Somente se, os efeitos forem satisfatórios e seguros é que se passa para testes em humanos. Em sua primeira fase em um pequeno grupo de pessoas com risco de morte. Se os testes iniciais forem bem sucedidos passa-se para a segunda e terceira fases, em que se aumenta o número de pacientes. A medicação pode ser liberada na quarta fase para comercialização, tendo que necessariamente ser acompanhada pela vigilância sanitária. O fato do ZMapp ter pulado várias dessas fases de estudo é dado pela sua rápida disseminação e alta mortandade. O medo gerado pelas altas taxas de infectividade e mortalidade do vírus gera preocupação dos países da Europa e dos EUA, pois a ameaça em um mundo globalizado pode chegar ao quintal de nossa casa. Essa é a real preocupação na liberação do uso do ZMapp, ao que simplesmente as nações desenvolvidas ajudarem países subdesenvolvidos. Outro fator é que o tratamento de uma doença que, mesmo descoberta nos anos 70, não importa às grandes indústrias farmacêuticas, pois o retorno financeiro para investimento de milhões de dólares para uma população restrita (africana) e sem condições para pagar pelo medicamento não é satisfatório para as indústrias farmacêuticas.

Como se produziu o ZMapp?

O primeiro passo do desenvolvimento se deu em camundongos, para originar um hibridoma. Este processo consiste em injetar nos animais antígenos (substâncias capazes de iniciar uma resposta imune) do Ebola, e posteriormente coletar, após a produção de anticorpos, o baço destes. As células do baço são então isoladas e fundidas a células imortalizadas de mieloma (linhagem cancerígena) – gerando o hibridoma. Os anticorpos são então secretados no meio de cultura e os mais anticorpos específicos são selecionados (Figura 2).

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Figura 2: Hibridoma e seleção de anticorpo mais específico – injetam-se nos camundongos antígenos do Ebola vírus, coleta-se as células do baço destes animais, funde-se estas às células imortalizadas de mieloma gerando o hibridoma. Os anticorpos secretados no meio por estas células podem então ser selecionados.

Em seguida, descobriu-se a sequência de DNA responsável por determinar a produção daquele anticorpo, e faz-se ajustes nesta sequência para se acomodar ao perfil de anticorpos humanos. É o que chamamos de humanização dos anticorpos que, primeiro feitos em camundongos são agora modificados para se parecerem com os anticorpos de humanos. Para a produção em larga escala, a empresa desenvolveu plantas de tabaco transgênicas, por meio de Agrobacteriumtumefasciens (técnica já abordada previamente no Nanocell News – http://nanocell.org.br/plantas-de-tabaco-transgenicas-para-producao-de-anticorpo-funcional-contra-o-virus-da-raiva/) (Figura 3).

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Figura 3: Plantas de tabaco transgênicas para produção de anticorpos – por meio de Agrobacteriumtumefasciens as sequências codificantes dos anticorpos desejados podem ser inseridas no genoma da planta, para que esta passe a produzi-los.

Apesar de ainda não se saber detalhes sobre o mecanismo de ação, estes anticorpos foram desenvolvidos para agirem i>mpedindo que o vírus penetre e infecte novas células (2).

ZMapp: a solução?

Como não há estudos sobre o ZMapp em humanos, nada pode ainda ser afirmado sobre sua segurança para a utilização. O que se sabe sobre ele é que seu uso foi bem sucedido em animais e recentemente em missionários norte-americanos. Mais recentemente três médicos africanos também receberam o medicamento experimental, tendo um falecido devido aos efeitos causados pelo vírus. Os outros dois têm respondido positivamente ao tratamento (9).

No entanto, ao ser administrado em um padre espanhol de 75 anos, este não foi capaz de oferecer a cura. O espanhol faleceu em decorrência da febre hemorrágica (10).

Logo, não é possível ainda se tirar conclusões a respeito de o ZMapp poder ser a solução salvadora de que o mundo necessita no momento. Todavia, espera-se que para esta situação de epidemia possamos alcançar o mesmo sucesso alcançado na ficção, no filme Epidemia.

Referências

1. Outbreaks Chronology: Ebola Hemorrhagic Fever – Known Cases and Outbreaks of Ebola Hemorrhagic Fever, in Chronological Order. Disponível através do link <http://www.cdc.gov/vhf/ebola/resources/outbreak-table.html>.

2. ZMapp, o medicamento experimental que pode ser a cura para o Ébola. Disponível através do link <http://visao.sapo.pt/zmapp-o-medicamento-experimental-que-pode-ser-a-cura-para-o-ebola=f792170>.

3. Ebola virus disease. Disponível através do link <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/>.

4.Ebola Drug Made From Tobacco Plant Saves U.S. Aid Workers. Disponível através do link <http://www.businessweek.com/news/2014-08-04/ebola-drug-made-from-tobacco-plant-saves-u-dot-s-dot-aid-workers >.

5. Olinger Jr, G.G., Pettitt, J., Kim, D., Working, C., Bohorov, O., Bratcher, B., Hiatt, E., Hume, S.D., Johnson, A.K., Morton, J., Pauly, M., Whaley, K.J., Lear, C.M., Biggins, J.E., Scully, C., Hensley, L., Zeitlin, L. Delayed treatment of Ebola virus infection with plant-derived monoclonal antibodies provides protection in rhesus macaques. PNAS, 2012. doi:10.1073/pnas.1213709109.

6. Qiu, X., Audet, J., Wong, G., Fernando, L., Bello, A., Pillet, S., Alimonti, J.B., Kobinger, G.P. Sustained protection against Ebola virus infection following treatment of infected nonhuman primates with ZMAb. Scientific Reports, 3, 2013. doi: 10.1038/srep03365.

7. 2014 Ebola Outbreak in West Africa. Disponível através do link <http://www.cdc.gov/vhf/ebola/outbreaks/guinea/>.

8. >Saiba mais: OMS aprova uso da droga experimental ZMapp. Disponível através do link <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/08/1499757-saiba-mais-oms-aprova-uso-da-droga-experimental-zmapp.shtml>.

9. Los médicos africanos tratados con ZMapp responden favorablemente. Disponível através do link <http://www.elmundo.es/internacional/2014/08/17/53f0ea23ca474130568b4587.html>.

10. Morreu padre espanhol que estava a receber tratamento experimental contra o Ébola. Disponível através do link <http://observador.pt/2014/08/12/ebola-morreu-padre-espanhol-repatriado-da-liberia/>.

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