Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

VIRTUDE

VIRTUDE

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 10, 07 de Abril de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.04.06.008

“… mentir é uma necessidade das nossas circunstâncias – a dedução, então, de que ela é uma virtude, nem precisaria ser dita.” – Mark Twain

Caio deixou a padaria com o bolo de sorvete na sacola. Aquele era o preferido de Fernanda, ele tinha certeza. Assim como tinha certeza de que ela adorava essa camisa rosa que ele estava usando: ano passado, quando ela havia pedido a ele que a acompanhasse ao shopping para comprar o presente do Léo, a moça disse que essa era a cor que mais gostava de ver no namorado. Léo, o namorado, se foi num final de tarde de sexta, mas a camisa que Caio comprou no dia seguinte ainda servia muito bem.

Eram oito e meia e ele estava atrasado, já que acabou sendo obrigado a comprar o bolo na padaria mais próxima à casa de Fernanda e, já no caixa, cedeu o seu lugar a um senhor queparecia ter dificuldades para segurar as compras. Caio estava apressado, mas nem por isso abandonou os bons modos, mesmo quando o senhor levou uma eternidade para contar suas moedas, decidir que iria usar o cartão, depois voltar atrás e pedir para colocar na conta para que ele pagasse no dia dez, embalar cada produto em duas sacolas e elogiar os olhos da atendente. O jovem acompanhou tudo isso sem perder o sorriso simpático no rosto.

Depois disso tudo, era melhor apertar o passo. Começou a apressar a caminhada, com uma das mãos equilibrando o bolo e a outra na lateral da calça, segurando o bolso em que estava a caixa com o par de alianças.

Enquanto isso, Fernanda terminava o café da manhã. Como em todos os outros dias, a pia estava cheia de louça suja e ela seria a encarregada de tudo, já que todas as outras moças já tinham saído há algum tempo, cada uma com sua desculpa para fugir da cozinha. Depois da reclamação habitual, decidiu enfrentar os pratos, copos e talheres.

A primeira batalha do dia fora vencida: o escorredor estava abarrotado de metal e porcelana limpos e a pia quase seca. Faltava ainda colocar o lixo para fora, o que Fernanda fez com facilidade, lançando o saco cheio e amarrado dentro da lixeira do quintal pela janela da cozinha. Como em todos os dias, aproveitou para acenar para a vizinha dos fundos, uma senhora, que da sua varanda, não deixou de cumprimentá-la pelo arremesso:

– Bom dia para você, Hortência!

Subiu as escadas e correu até seu quarto, o último do corredor, onde terminou de guardar a carteira e o telefone na bolsa. Pegou as chaves da casa e, enquanto se dirigia à porta, conferiu se todas as meninas, assim como ela, haviam trancado seus quartos. Tudo certo, hora de sair.

Caio já estava sentado nos degraus da frente da casa há cinco minutos quando ouviu o barulho das maçanetas sendo viradas no segundo andar, seguido dos passos da moça descendo as escadas. Levantou-se, arrumou a camisa e retirou a caixa com as joias do bolso. Quando Fernanda abriu a porta, lá estava ele sorrindo, com um par de alianças na mão esquerda e um bolo de sorvete começando a derreter na direita.

Espantada, ela bateu a porta o mais forte possível, girou a chave e começou a gritar:

– Ah não, Caio, eu não acredito! O que você está fazendo aqui?

– Ora, como assim, Fê? Você sabe muito bem!

– Caio, é a oitava vez que você faz isso! Oitava! Não é possível que você não vai parar com essa palhaçada!

– Não é palhaçada, Fê, é sério! Você não quer se casar comigo?

– Caio, eu nem sou sua namorada! Caramba, você é doente?

– Mas eu amo você, Fê! Já te falei…

– Chega! Caio, você não pode continuar com isso!

– Isso quer dizer que você não vai aceitar?

– É claro que não! Caio, cansei! Não aguento mais você perto de mim! É claro que não tem casamento, não tem namoro, não tem amizade, não tem nada! Pode sumir!

Caio ficou em silêncio. Fernanda então aproximou a orelha da porta e não ouviu nada além da respiração do rapaz, que ficava cada vez mais curta e rápida. Depois de alguns segundos tentando abafar sua raiva, ele disse:

– Fernanda, abre a porta?

– Não, Caio, melhor não. É melhor você ir para casa.

Ele aumentou o tom de voz:

– Fernanda, abre essa porta!

Ela não respondeu e alguns segundos depois ele gritou:

– Fernanda, abre essa… abre essa porta! Agora!

A moça mais uma vez não respondeu, mas começou a chorar quando viu e ouviu a porta balançar com os chutes e socos de Caio. Ele continuou gritando:

– Eu vou entrar, Fernanda! Eu vou entrar! Você querendo ou não, eu vou entrar!

Os chutes, socos e trancos continuaram e ela temeu que a porta pudesse ser vencida pelo rapaz. Depois de gritar várias vezes para que ele parasse com aquilo, a moça decidiu que era melhor se esconder num outro cômodo, colocou suas chaves no bolso da calça e correu para longe da entrada da casa.

Enquanto corria, Fernanda parou de ouvir os golpes contra a porta. Mesmo assim, insistiu em se esconder e ligar para a polícia. Ainda carregando sua bolsa, correu para a cozinha onde se sentou embaixo de um dos armários, com as costas ao lado da porta do cômodo e de frente para a pia. Pegou o celular e discou para a polícia.

O telefone ainda chamava quando a moça ouviu um barulho de vidro sendo quebrado e de passos pela sala. Seu choro aumentou, mas ela sabia que não poderia fazer barulho algum. A violência da entrada de Caio na casa também alertou a vizinha dos fundos, que voltou à sua varanda. De lá ela viu Fernanda acuada e em prantos em um canto, tremendo enquanto segurava o celular na orelha.

Fernanda também a viu e colocou o dedo indicador sobre a boca. Depois que a vizinha assentiu com a cabeça, a moça apontou para o celular e moveu os lábios dizendo “Polícia, Polícia”. A senhora concordou, saiu com pressa da sacada e retornou discando o telefone. Quando ela levantou a cabeça para olhar para Fernanda, arregalou seus olhos e colocou a mão na boca antes de correr de volta para dentro de casa.

O que a vizinha viu foi Caio se aproximando da cozinha. Mesmo não sendo muito alto e forte, quando comparado à figura de Fernanda sentada e espremida embaixo do armário, ele tomava o tamanho de um gigante de pedra, com seus passos pesados e respiração monstruosa.

Ele ainda estava na sala, mas Fernanda já percebia que Caio se aproximava. Ela tentou segurar sua própria respiração e seu choro, na esperança de que ele apenas olhasse para a cozinha e desistisse de entrar no cômodo, mas ele estava cada vez mais próximo da porta. Ela já podia sentir o cheiro do seu suor.

– Vagabundo! Deixa a menina em paz! – gritou a vizinha de dentro de sua casa, sem aparecer na sacada.

Caio atravessou a cozinha correndo atrás da voz e foi até a pia para olhar pela janela. A senhora continuou gritando:

– E já chamei a polícia, seu animal!

Enquanto ele se distraía, Fernanda aproveitou o espaço atrás de Caio para escapar de onde estava. Levantou-se e saiu correndo desesperada em direção às escadas. Ao ver que ela tinha escapado do cômodo, ele berrou o nome dela por diversas vezes enquanto derrubava o escorredor, a louça e tudo mais que via em sua frente.

Depois de destruir tudo o que podia na cozinha, Caio correu para fora do recinto em direção às mesmas escadas que Fernanda acabara de subir, não sem antes pegar a maior faca das que estavam espalhadas pelo chão. Enquanto isso, Fernanda acabava de subir as escadas e atravessava o corredor em direção ao seu quarto.

Ela chegou à porta do cômodo, guardou seu celular no bolso e puxou o chaveiro do outro. As mãos trêmulas e os olhos cheios de lágrimas tornavam heroica a tarefa de encontrar a chave certa, enquanto Caio corria berrando seu nome pelas escadas. Quando ele chegou ao corredor do segundo andar, ainda conseguiu ver a porta do quarto de Fernanda sendo fechada com força.

A moça havia trancado a porta e sentado ao pé da cama, enquanto ligava novamente para a polícia. Caio já estava chutando e dando trancos na porta do quarto, quando a atendente disse a Fernanda:

– Senhora, a viatura já está a caminho.

– Mas ele vai me matar! Ele vai me matar agora!

– Senhora, tente ganhar tempo, os policiais já estão chegando…

Fernanda desligou o telefone. Continuou sentada com as costas na cama esperando pelo inevitável enquanto a porta parecia se mexer mais com cada chute que recebia. No meio de todo o desespero, pensou que jamais conseguiria vencê-lo numa eventual luta e que estava perdida. Não havia o que fazer.

Quando a porta cedeu, Fernanda olhou para cima e viu Caio de pé, apontando a faca para ela. Ele tremia e suava enquanto caminhava até a moça, que via sua figura crescer sobre ela. Foi então que ela teve a ideia de usar seu último recurso, talvez a menos nobre e mais usual das virtudes humanas:

– Caio, espera! – gritou.

– Esperar o quê?

– Espera, deixa eu me levantar? Posso chegar perto de você?

Ele não respondeu, apenas continuou com a faca apontada para a moça. Ela, por sua vez, apoiou a mão e um dos joelhos no chão. Ao ver que ele não se mexeu, ela concluiu o movimento de se levantar.

– Caio, calma, por favor! – disse Fernanda em meio ao choro dos dois. – Calma… Eu também amo você.

– E agora você vem me dizer isso? Agora? Tá bom, viu!

Ela aproveitou para se aproximar.

– Desculpa, Caio… senta aqui, vem… – pediu a moça enquanto acariciava o rosto do rapaz e apontava para a cama.

Ele não se moveu, mas também não disse nada. Apenas abaixou a cabeça e lutou contra seu próprio choro. Fernanda ainda conseguiu forças para uma brincadeira:

– Mas na minha cama ninguém senta com faca na mão, viu? – enquanto descia a mão trêmula pelo braço de Caio até chegar à faca. Ele abriu sua própria mão e deixou que a arma escorregasse e caísse.

– Você só quer me enganar, Fernanda! – disse ele, agora desarmado. – Como você sempre fez! Sempre!

– Eu nunca te enganei, Caio… Sempre gostei de você…

– Você sempre me enganou, Fernanda! Eu sempre te amei e você sempre ficou com os outros! E eu sempre aqui! Sempre! Vendo você com todos os seus namorados, todos aqueles idiotas, enquanto eu ficava aqui, esperando o dia em que você fosse ver que eu que tenho que ficar do seu lado! Eu! Eu é que te conheço, eu é que cuido de você!

– Eu sei, Caio… agora eu sei… – ela então se sentou na cama e puxou a mão do rapaz até que ele ficasse sentado ao seu lado. Ele ainda continuou:

– Quantos anos eu fiquei esperando? Quantos? E a cada um que te largava, que te fazia de palhaça, eu estava lá, do seu lado, esperando para poder ter a minha vez! E você nunca olhou pra mim! Nunca!

A expressão de Caio passava de ódio e violência para tristeza e carência.

– Vem, deita aqui… – disse a moça enquanto colocava a mão na nuca de Caio e o puxava lentamente para junto ao seu corpo. – Deita aqui, se acalma…

Ele então deitou no colo de Fernanda e chorou mais. Chorou como uma criança enquanto ela apoiava sua cabeça e acariciava sua nuca. Ele não mais era aquela figura monstruosa que a afugentou na cozinha. Agora era ele quem parecia ter metade do tamanho da mulher que o envolvia. Fernanda também chorava, silenciosa, enquanto continuava tentando fazer com que ele ficasse cada vez mais calmo, cada vez mais lento. Cada vez mais desligado…

E assim Caio, drogado pelo carinho e pela atenção de Fernanda, acordou já algemado.

Print Friendly
  • VIRTUDE
  • 3
  1. Ariana disse:

    Ignóbil virtude.

    07/abril/2015 ás 22:10
  2. eliana mara disse:

    Flávio, à medida que lia o texto me identificava, a cada vez, com as atitudes da Fernanda para se defender do “mal”, (alias essa é marca registrada (rs) dos seus contos: são envolventes do inicio ao fim).
    Nessa situação a mentira foi mais do que uma grande virtude foi a melhor forma ética usada para prevenir um mal.

    08/abril/2015 ás 15:06
  3. Flávio,
    É incrível como você descreve a cena da perseguição.
    Mais incrível ainda foi o final descrito de forma sutil e exemplar.

    22/abril/2015 ás 23:53

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>