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VIRA-LATA

VIRA-LATA

Márcio Bambirra Santos

Professor CEFET-MG* mb@mbambirra.com.br

Edição Vol. 3, N. 11, 06 de Junho de 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.06.06.005

É assim denominada a raça de cães sem raça. Aqueles animais abandonados pela sorte de terem um lar com comidinha e aconchego, e que viram as latas de lixo (hoje o termo mais condizente, talvez, seria Fura-saco?) à procura da própria sobrevivência. Sempre sujos, rotos, feios e desprezados, carregam na aparência a desconfiança e a distância para não serem mais humilhados, embora se saiba que são exemplos de lealdade e coragem. Vira lata é o bicho!

Já o complexo de vira-lata, bem desenvolvido pelo jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues há décadas passadas, refere-se ao sentimento de inferioridade que o brasileiro passou a carregar, a partir da primeira copa do mundo de futebol que o Brasil foi sede em 1950. A geração da época não gosta nem de lembrar, ou não consegue, decorridos 66 anos. O jogo era a final do campeonato contra o Uruguai, e o Brasil perdeu de 2×1. A mídia dos jornais tradicionais afirmara que o estádio Maracanã ficou em silêncio sepulcral, os radialistas mudos e eu acredito que se tivéssemos uma tecnologia de comunicações televisivas como temos hoje, as imagens seriam de total humilhação e desconsolo. A perda do título já consagrado, empurrou a emergente nação ao patamar mais baixo da desilusão e abandono, qual um cachorro vira-lata, e, recentemente repetida em parte, na segunda copa do mundo que organizamos em 2014, com a absurda derrota de 7×1 sofrida contra a Alemanha. Era a semifinal do campeonato em pleno estádio do Mineirão, e essa derrota descabida de uma equipe que se achava, e se perdeu em campo. Muita gente também prefere não se lembrar disso, afinal seria um dos poucos trunfos de orgulho que o povo teria se a seleção se despedisse, senão vitoriosa, ao menos de forma digna.

O rescaldo do evento foi uma herança cruel que expôs mais ainda a humilhação que a nação sofria nas mãos de políticos e empresários corruptos: valores superfaturados nas construções e reformas das arenas, obras que caíam e matavam as pessoas, projetos viários urbanos abandonados, aeroportos estrangulados e com tecnologias ultrapassadas; ou seja, a lata de lixo estava exposta.

Agora é o momento das Olimpíadas! Nem ao menos começou e já temos uma obra banal na cidade sede do Rio de Janeiro, a ciclovia construída com fins de entretenimento turístico, que mata pessoas novamente e ridiculariza o nosso povo. Associada a isso, há vídeos (holandês, chinês) que são viralizados na Internet, além de editoriais de jornais e programas de TV estrangeiros, recomendando seus cidadãos não viajarem ao Brasil pelas péssimas condições de higiene, poluição, saúde pública e segurança. Até mesmo residentes estrangeiros de posição pública afirmam que: “O Brasil não é atípico, é uma aberração”. (Gregory Michener, Professor FGV Rio) (Figura 1).

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Figura 1: Qual padrão queremos ser para nossos filhos?

É uma avalanche de informações que só vai minando a nossa autoestima, como se fossemos sentenciados perpetuamente à marginalidade de outras sociedades mundiais. E o pior: por alguma coisa que não pedimos! Mais um evento que importa muito aos bajuladores do poder oficial, e pouco às necessidades de uma nação sofrida em suas necessidades básicas. Comemorar o quê?  Torcer para quem? Confraternizarmos com quem nos menospreza? Será que, assim como aconteceu na Copa quando oferecemos vantagens à FIFA, uma entidade dominada pela arrogância e contaminada pela corrupção, repetiremos essa simploriedade ao COI (Comitê Olímpico Internacional)? Já é patético ver esse desfile de tocha para atrair a atenção de pessoas para o evento, quanto mais pensar no custo das competições para verem os jogos da elite: golfe, hipismo, vela, dentre outros.

Os europeus, chineses, japoneses, ingleses ou norte-americanos fazem blague aos nossos erros e falhas, e que são temporais e serão superados. Mas, nessa crítica se esquecem das guerras, perseguições, racismo, colonialismo que eles mesmos afligiram em seus povos e no mundo. Como comparar o sofrimento das pessoas injustiçadas ou massacradas em uma escala de 1 para milhares? Ou de milhões? O sofrimento pode ser o mesmo, mas na intensidade ainda estamos na superfície dessas “mentes evoluídas” que se atolam em profundidades abissais.

Temos que resgatar o nosso orgulho como nação! Se somos “sem raça definida” (SRD) pela miscigenação e na condição de acolhida, que nos orgulhemos dela e de nossa lealdade e coragem com que enfrentamos o ataque insano de bandidos que, durante décadas, se escondiam nas hostes do poder. Já sabemos como enfrentá-los com a Justiça, e se vivemos uma fase obscura, estamos mudando essa situação. Ser patriota agora não é opção ou ufanismo, é uma redenção! E se hoje nos sentimos meio que abandonados sem encontrar uma mão amiga de apoio, amanhã ao fortalecermos nossa identidade mundial, teremos a experiência para ajudar outros povos que sonham com essa liberdade.

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