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VETERANO

VETERANO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 06, 12 de Janeiro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.01.14.001

A sexta-feira foi horrível. A equipe perdeu as duas primeiras partidas do confronto e precisaria ganhar todas as três seguintes para poder ficar com o troféu. Durante a noite, o capitão (que não é jogador, mas é quem tem a incumbência de formar a equipe) abriu a porta do quarto de Jonas após o jantar:

– Velho, amanhã eu vou escalar você.

– Isso quer dizer que você já desistiu, não é? – respondeu Jonas.

A brincadeira do atleta era compreensível, já que nem ele entendia o motivo de estar no time. Jonas tinha sido um excelente jogador em outros tempos, mas já estava bem distante de jogar o seu melhor tênis. Agora tudo se resumia a dores e cansaço para ele, enquanto seu país estava cheio de jovens promissores para preencher a equipe.

Um desses jovens seria o seu parceiro no dia seguinte. David era um fenômeno: nem sequer tinha terminado o ensino médio e já integrava a equipe principal do seu país. Segundo a imprensa local, possuía golpes violentíssimos, saques poderosíssimos, voleios belíssimos e todos os outros clichês desse tipo. O garoto, assim como qualquer jovem atleta que começa a brilhar, era um superlativo ambulante.

– David, amanhã você vai com o Velho. – disse o capitão ao entrar no seu quarto.

– Sério?

– Sério. Vocês vão nos trazer de volta para o confronto, eu tenho certeza.

– É você quem manda, Chefe.

A manhã de sábado chegou e a arena estava lotada. A torcida ocupava todos os lugares disponíveis e cantava sem parar para incentivar os locais. Era a primeira vez que eles tinham a chance de ver a final ser disputada em sua casa e as derrotas do dia anterior não foram suficientes para diminuir a sua disposição. Quando perceberam que a dupla que saía para o aquecimento tinha Jonas como parceiro de David, os gritos foram substituídos por um burburinho.

– Acho que eles não gostaram muito, Chefe! – disse Jonas ao capitão, que acompanhava os tenistas na entrada da quadra.

– Relaxe, Velho… Vai dar tudo certo! – respondeu o Chefe. – É só você fazer o que sabe.

E a partida começou com Jonas fazendo a sua parte. Os adversários acreditavam que ele seria o tenista menos ameaçador de sua dupla e direcionaram seus ataques ao veterano sempre que possível. Ele, por sua vez, escolhia sempre a jogada mais segura e prolongava os pontos até que os adversários cometessem o erro ou deixassem alguma bola um pouco mais fácil para David. O garoto então aproveitava essas bolas fáceis para desfilar seus golpes superlativos e ganhar confiança.

Jonas e David venceram o primeiro set sem muitas dificuldades. Neste momento tudo corria de forma perfeita: o veterano estava jogando bem o suficiente para não prejudicar a equipe, o garoto estava cheio de confiança, desferindo golpes virtuosos sempre que a bola sobrava para ele e a torcida local estava inflamada, empurrando seus atletas e atormentando os adversários. Tudo o que eles precisavam era manter esse ritmo e vencer apenas mais dois sets para que a equipe se mantivesse viva no confronto.

Os bons ventos, no entanto, não duraram muito tempo. Os adversários resolveram trocar a estratégia e começaram a direcionar seus ataques para David. O garoto, envolvido pela confiança adquirida no primeiro set, não jogava com a mesma segurança de Jonas: ele arriscava em momentos errados e errava demais. Desta forma o segundo set foi perdido em menos de meia hora e a partida estava empatada.

O terceiro set caminhava para o mesmo destino quando, em uma das trocas de lado na quadra, Jonas colocou a mão no ombro do seu parceiro:

– Garoto, tenta colocar a bola na quadra um pouquinho… Não seja egoísta, deixa um pouco dos erros pra eles também!

– Eu estou tentando! – gritou David. – Mas as coisas não dão certo! Eu não acerto nada, dá tudo errado!

– Calma, rapaz! Ainda tem uma vida inteira nesse jogo! Tenta se divertir um pouco, vamos relaxar!

– Relaxar? Você enlouqueceu, Velho? Isso aqui vale muito! Não tem como “relaxar”!

Jonas sabia do valor da partida. Mas também sabia do valor de uma atitude positiva num momento desses:

– David, qual é a cor mais barulhenta?

O garoto parou onde estava e olhou para o seu parceiro. Jonas continuou:

– Vamos lá, qual a cor mais barulhenta?

– Você realmente pirou, Velho. – disse o garoto antes de caminhar até a linha para sacar.

Alguns pontos depois, Jonas tentou novamente:

– David, o que o tomate foi fazer no banco?

O garoto olhou para o capitão e abriu os braços:

– Ele é louco, Chefe!

O Chefe apenas deu de ombros, já que entendia o que Jonas estava fazendo. E o restante do terceiro set seguiu assim, com Jonas fazendo piadas sem graça, perguntas sobre as matérias da escola de David e comentários sobre algum torcedor esquisito nas cadeiras. Tudo era válido para tentar desviar os pensamentos do garoto para longe da pressão da importância da partida.

A tentativa deu certo e David começou a acertar um pouco mais no final do terceiro set. No entanto, os adversários já tinham uma vantagem considerável e conseguiram preservá-la até o fim da parcial. Para os locais, a sobrevivência no confronto estava bem distante nesse momento.

Apesar de estarem perdendo o jogo e precisarem vencer os dois últimos sets, Jonas e David já haviam equilibrado novamente a disputa e a quarta parcial seguia apertada, com as duplas mantendo seus serviços. O garoto havia recuperado um pouco da confiança e tinha voltado a jogar bem. A oportunidade para que a dupla local retomasse o controle da partida surgiu no último game do set.

Com os adversários sacando, Jonas e David precisavam ganhar apenas mais um ponto para vencerem a parcial. Após um potente serviço do antagonista, o Velho devolveu uma bola alta e sem muita força. O rival tinha uma bola fácil nas mãos e poderia escolher qualquer espaço da quadra dos locais para concluir o ponto, mas optou por desferir o golpe mais violento possível contra o peito do garoto.

Jonas viu seu parceiro cair e correu para ver como o jovem se encontrava. David estava assustado e com o peito dolorido, mas nada de mais grave – a bolada havia tido muito mais uma agressão moral do que uma violência física. E o Velho sabia disso.

Ele então cruzou seu olhar com o capitão e os dois fizerem sinal de positivo com a cabeça. Jonas então disse ao garoto:

– Fique aí! Quieto! Imagine que você levou um tiro no peito!

Enquanto David ficava deitado na quadra, com os olhos fechados e fazendo caretas como se estivesse com muitas dores, Jonas e o capitão correram até a rede e começaram o tumulto. O Chefe gritava com o capitão adversário, enquanto o Velho fazia gestos enormes ameaçando a dupla adversária. Depois dirigiram sua raiva ao árbitro, e de volta à parceria rival, e ao capitão… os dois não paravam de berrar e de apontar dedos para todos do outro lado. Entretanto, ninguém podia ouvir nada: a torcida já havia despertado e fazia barulho demais.

A partida ficou interrompida por mais de quinze minutos e, quando finalmente Jonas e o capitão resolveram permitir que tudo fosse retomado, ainda restava apenas um ponto para que o set fosse vencido pelos locais. O adversário, que já tinha o corpo frio da parada e a cabeça quente do tumulto, sucumbiu à pressão e errou seus dois saques. O jogo estava novamente empatado.

Antes do último set, Jonas falou para o seu parceiro:

– Você sabe que nós já ganhamos, não sabe?

– Por quê? Ainda tem um set inteiro, muita coisa pode acontecer!

– De jeito nenhum, garoto! Olha ali, eles estão acabados! Sabe por que eles te deram essa bolada? Porque você é bom demais para eles! Eles já sabem que você é o melhor daqui e que a única chance é tentar fazer você perder a cabeça!

David não disse nada, apenas olhou para o Velho. Jonas prosseguiu:

– Você é melhor que todo mundo aqui! Pode jogar tranquilo!

O incentivo fez bem ao jovem, que voltou a ser superlativo. Nos próximos games David foi espetacular e os locais abriram vantagem. O cenário agora era perfeito, com a dupla adversária acuada e a torcida em êxtase.

– Agora é só jogar seguro, garoto! – disse Jonas em uma das viradas. – De agora em diante, só saques no meio, ok?

David agora obedecia a qualquer coisa que seu parceiro dissesse e seguiu cegamente o conselho: todos os saques seguintes foram em direção ao meio da quadra, facilitando a atuação do Velho e forçando seus adversários a correrem mais riscos.

Os locais mantiveram a vantagem até o último game. David tinha o saque e continuava jogando com segurança, o que deu à sua dupla o match point. Só mais um ponto bem jogado e sua equipe estaria viva no confronto. Jonas tinha apenas mais uma instrução para seu parceiro:

– Garoto, você já sabe, não é?

David confirmou com a cabeça e disse:

– Sei! Seguro. No meio.

– Agora não! – disse Jonas. – Pode esquecer aquilo! Seu último saque aberto foi há quase meia hora, eles com certeza estão esperando a bola no meio.

O garoto assentiu com a cabeça, se dirigiu à linha e sacou onde seu parceiro havia sugerido. Pouco antes de ouvir o barulho do golpe, Jonas observou o quadril e os pés do seu adversário apontarem para o lado errado e se preparou para comemorar. Alguns segundos depois a quadra estava tomada pelos seus companheiros festejando a sobrevida no confronto final.

Depois dos cumprimentos protocolares aos adversários e aos árbitros, os companheiros colocaram David em seus ombros e o carregaram em volta da quadra, enquanto a imprensa corria atrás de suas imagens e entrevistas. Jonas ainda estava sentado ao lado do capitão, que colocou o braço em volta dos seus ombros:

– Ainda bem que você me salvou, Velho! Já imaginou se vocês perdem? Eu estaria demitido antes de chegar ao vestiário!

– Você é louco, Chefe!

– Eu não poderia deixar esses meninos sozinhos, você sabe! – disse o capitão, enquanto apontava para o grupo que agora carregava David em direção ao vestiário. – Vamos lá! Vamos comemorar um pouco com eles e depois tentar acalmá-los para amanhã!

Os dois se levantaram e seguiram o restante da equipe. A festa não durou muito tempo e logo todos se retiraram para o hotel em busca do jantar. Jonas era o último a deixar o vestiário – estava bem mais dolorido que os colegas mais jovens – e viu um garoto que ainda aguardava na saída da arena. Ao ver a porta do vestiário se abrir, o menino acenou de longe para o tenista e gritou:

– Moço! Posso tirar uma foto com você? Por favor?

– Mas é claro! – respondeu o atleta. Há muito ele já não encontrava alguém esperando a sua saída para pedir um autógrafo ou uma foto, mas depois da sua partida de hoje talvez ele tenha voltado, mesmo que apenas por algumas horas, a ser um herói. Ele então sorriu e caminhou até a direção do menino.

– Ah, desculpa! – disse o garoto quando Jonas se aproximou. – De longe eu achei que você era o David… Ele ainda está aí?

– Não… – respondeu o desconcertado veterano. – Ele já foi para o hotel…

– Ah, então tchau, moço!

E o garoto saiu correndo.

 

 

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  • VETERANO
  • 3
  1. Ariana disse:

    Garotos, sempre tão espertos, são só garotos…

    14/janeiro/2015 ás 22:57
  2. Norma disse:

    Com determinação e vontade, podemos vencer qualquer obstáculo nesta vida.

    15/janeiro/2015 ás 23:00
  3. eliana mara disse:

    Sensacional!!!
    Ouçam os mais velhos e aprendam com eles, pois possuem uma sabedoria capaz de nos fazer esquecer um pouco do nosso mundo e abrir os ouvidos e o coração para aquilo que realmente pode fazer a diferença em nossas vidas.

    10/fevereiro/2015 ás 11:42

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