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USO DE CELULARES DURANTE A GRAVIDEZ PODE CAUSAR DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE EM CRIANÇAS

USO DE CELULARES DURANTE A GRAVIDEZ PODE CAUSAR DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE EM CRIANÇAS

Victor Allisson da Silva, Alexandre Hiroaki Kihara, Vera Paschon

Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Centro de Matemática, Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC

Edição Vol. 3, N. 6, 04 de Fevereiro 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.02.05.001

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Uma das principais preocupações das mães atualmente é o desempenho escolar de seus filhos, tendo como antagonista doenças como o Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade (DDAH). Nos últimos anos, cerca de 3 a 7% das crianças receberam o diagnóstico de DDAH, associado a um baixo rendimento escolar. Dados da Associação Americana de Psiquiatria indicam que a taxa de diagnósticos de DDAH vem crescendo cerca de 3% ao ano desde 1997, tornando-se um problema de saúde pública.

Essa questão está associada com uma neuropatologia localizada principalmente no córtex pré-frontal, que apresenta volume reduzido em crianças com DDAH, bem como assimetria e menor massa cinzenta e branca. Os neurocientistas americanos, Keisuke Fukuda e Edward K. Vogel, mostraram que a falta de concentração e o baixo funcionamento da memória podem estar associados a uma incapacidade de bloquear a captura de informações irrelevantes pela atenção (1), atividade que é controlada pelo córtex pré-frontal.

Apesar da causa do DDAH ainda ser desconhecida, existem evidências que mostram que não seja apenas genética. Fatores de risco incluem a história psiquiátrica da família, status sócio-econômico, hábito de fumar durante a gestação e, descrito mais recentemente, exposição pré-natal à radiação de radiofrequência de telefones celulares.

A taxa de absorção específica de radiação (SAR) é uma medida de exposição à radiação em tecidos biológicos. O limite do SAR estabelecido nos Estados Unidos é 1,6 W/Kg (watts por quilograma), enquanto que na Europa e no Brasil o limite é 2,0 W/Kg (2). Em geral, celulares emitem de 0,3-0,5 W/Kg. Já acima de 4,0 W/Kg a radiação é extremamente nociva e com efeitos irreversíveis. Porém os efeitos da exposição à radiação in-utero, principalmente durante o neurodesenvolvimento, ainda são desconhecidos.

Para determinar se a exposição pré-natal à radiação de radiofrequência leva a alterações comportamentais ou de memória após o nascimento, uma equipe formada por membros de diversos departamentos da Universidade de Yale realizou estudos comportamentais e eletrofisiológicos com 33 camundongos fêmeas, durante a gestação, que foram submetidos à radiação provinda de celulares silenciados com o SAR de 1,6 W/Kg. Os aparelhos foram posicionados a uma distância de 4,5-22,3 cm (dependendo da localização do animal na caixa) e ficaram ligados durante todo o experimento. O grupo controle foi submetido às mesmas condições, mas com o telefone celular desligado.

Depois do parto, alguns testes foram realizados em todos os animais, dentre eles o teste de memória para o reconhecimento de objetos padrões, que foi realizado durante as idades de 8, 12 e 16 semanas. Como resultado, o grupo exposto à radiação apresentou desempenho significativamente inferior ao grupo controle, sugerindo assim um prejuízo na memória dos afetados. Em comparação com animais controles, os experimentais apresentaram comportamentos hiperativos e menor ansiedade no teste da caixa clara/escura, dado determinado pela diferença de tempo de permanência no ambiente aberto e claro com relação ao ambiente fechado e escuro. Em geral, animais saudáveis permanecem maior tempo no escuro evidenciando um comportamento ansioso, enquanto que os animais expostos à radiação do celular permaneceram maior tempo no claro. Também foi realizado um experimento para determinar o medo dos animais em explorar o ambiente. Esse experimento envolveu cronometrar quanto tempo os animais levavam para pular de uma plataforma, de forma que seu medo foi quantificado pelo tempo que permaneciam sobre esta. Os resultados indicaram que a performance de ambos os grupos não apresentou diferença significativa.

Com base nos resultados observados, pesquisadores examinaram se havia mudanças nas áreas do cérebro responsáveis pela memória debilitada, hiperatividade e funções ligadas ao córtex pré-frontal como atenção e capacidade associativa, cujos principais elementos são os neurônios piramidais, um tipo de célula neuronal interconectada de forma complexa no cérebro. Os pesquisadores verificaram registros eletrofisiológicos dos neurônios piramidais de camundongos expostos à radiação por 24 h, tendo como objetivo analisar a eficiência das transmissões sinápticas. A comparação entre controles e expostos à radiação revelou que a radiação causou menor atividade sináptica no cérebro de animais expostos com relação ao controle. Essa diferença levou à busca de uma relação entre o tempo em que os animais são expostos por dia e a redução da atividade sináptica. Experimentos com diferentes tempos de exposição: 9h, 15h e 24h revelaram uma queda linear, demonstrando que a radiação de radiofrequência provinda de celulares causa um prejuízo nas transmissões sinápticas (principalmente as que liberam glutamato) dos neurônios piramidais. Além disso, outras áreas foram examinadas nos camundongos expostos in-utero, como o hipotálamo ventromedial, que também apresentou diminuição da atividade sináptica glutamatérgica (Figura 1).

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Figura 1: Comparação de resultados entre os grupos controle e exposto à radiação de radiofrequência provinda pelos telefones celulares durante a gestação.

A excessiva exposição de mulheres grávidas a telefones celulares pode ter um efeito negativo no neurodesenvolvimento do feto comparável ao de outras toxinas mais comuns, como drogas, álcool, tabaco e estresse.

A crescente preocupação com a saúde pública levou a essa pesquisa, que demonstrou com clareza que os efeitos pela exposição pré-natal no cérebro podem ser mais profundos do que se achava, apresentando também uma relação direta entre os efeitos e o tempo de uso, sugerindo assim que se possa estabelecer um limite saudável para essas mulheres usarem o aparelho. Entretanto, é difícil traduzir esses dados para situações reais e humanas, já que a extrapolação desse modelo animal para nossa espécie é limitada, bem como as condições usadas pelos pesquisadores, que foram bem diferentes das experimentadas pelos fetos humanos na realidade.

Uma hipótese para essa relação seria o fato de que ondas eletromagnéticas podem ser nocivas ao organismo, principalmente ao cérebro por ser um órgão que depende de interações elétrico-químicas. Segundo um grupo de cientistas da Croácia, as células do SNC são sensíveis às mudanças no campo eletromagnético, devido, não somente a quebra do DNA pela radiação, mas também à toxicidade mediada por processos termais e pelo aumento da geração de espécies reativas de oxigênio, atrapalhando processos de reparo de erros do DNA durante o desenvolvimento (5), ocasionando má formação na rede sináptica.

Enquanto novas pesquisas não são desenvolvidas para desmentir ou afirmar a relação entre o aumento dos transtornos comportamentais com a exposição à radiação provinda de telefones celulares durante a gestação, o melhor é não abusar do uso desses aparelhos, sobretudo aqueles com alto valor de SAR.

Referências

1-Fukuda, K. & Vogel, E. K. Human variation in overriding attentional – J Neurosci 29, 2009; 8726–33

2- SAR. Teleco.Disponível em:

<http://www.teleco.com.br/tutoriais/tutorialrsar/pagina_2.asp> Acesso em 19 de fev.2016

3-Aldad T.S, Gan G, Gao X.B, Taylor H.S. Fetal Radiofrequency Radiation Exposure From 800-1900 Mhz-Rated Cellular Telephones Affects Neurodevelopment and Behavior in Mice – Scientific Reports. 2012; 2:312.

4-Celulares que emitem menos radiação. Techtudo. Disponível em: http://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2011/06/top-10-celulares-que-emitem-menos-radiacao.html> Acesso em 19 de fev.2016

5-Trosić I, Pavicić I, Milković-Kraus S, Mladinić M, Zeljezić D. Effect of Electromagnetic Radiofrequency Radiation on the Rats’ Brain, Liver and Kidney Cells Measured by Comet Assay – Coll. Antropol.  2011; 1259-64.

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