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TRATAMENTO DE CHOQUE! Revertendo O Estado Vegetativo Com Estimulação Elétrica

TRATAMENTO DE CHOQUE! Revertendo O Estado Vegetativo Com Estimulação Elétrica

Daniel Mendes Filho, Patrícia de Carvalho Ribeiro, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 5, N. 02, 18 de Novembro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.11.18.002

A definição de consciência é um problema que se impõe tanto à Filosofia quanto às Ciências Biomédicas, mas podemos considerá-la com sendo a capacidade dos seres vivos de perceberem os sinais de seu meio ambiente, interpretá-los e responder a eles. Nesse ponto, até então, considera-se que apenas o ser humano seja dotado de uma autoconsciência plena, ou seja, uma consciência mais complexa que inclui a si mesmo. Quem tem ou já teve um cachorro/gato vai discordar… mas é a ciência que conta, não o achismo! 

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Estado comatoso ou vegetativo, onde a pessoa pode abrir os olhos espontaneamente e fazer alguns movimentos involuntários, mas continua sem responder a nenhum estímulo de linguagem ou movimento Fonte: http://www.sciencefocus.com/qa/do-people-coma-dream

Muitas doenças e traumas físicos podem gerar alterações no nível de consciência de uma pessoa como o estado comatoso (ou de coma). No coma, a pessoa permanece continuamente com os olhos fechados e não há fala ou movimento, mesmo diante de estímulos sensoriais. Geralmente, dependendo da extensão do dano cerebral e da idade do paciente, o estado de coma pode progredir para recuperação total, morte ou para o estado vegetativo, descrito como um estado de “consciência inconsciente” (o que não ajuda muito a entendê-lo, cá entre nós). 

No estado vegetativo, a pessoa pode abrir os olhos espontaneamente e fazer alguns movimentos involuntários, mas continua sem responder a nenhum estímulo de linguagem ou movimento (sugerindo que o indivíduo não apresenta consciência de si mesmo nem do seu ambiente). Depois de 1 ano em estado vegetativo, as chances de recuperação são pequenas, o que traz um custo emocional e financeiro significativo para as famílias, além de envolver sérios dilemas éticos para os profissionais de saúde. Felizmente, isso pode mudar!

As cientistas Martina Corazzol, Angela Sirigu e colegas do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica descobriram o que pode ser uma terapia eficaz no tratamento do estado vegetativo. Em sua pesquisa, esse grupo tratou um homem de 35 anos que estava em estado vegetativo há 15 anos devido a um trauma cerebral grave resultante de acidente de carro. Esse paciente recebeu ao longo de 6 meses estimulação elétrica no nervo vago (que tem esse nome por “vagar” pelo corpo inervando órgãos como coração, pulmões, estômago e intestinos além de levar informações desses órgãos para o cérebro) (Figura 1). Durante esse tempo, o paciente passou por exames clínicos, eletroencefalograma (ou EEG, um exame que mostra os padrões das ondas cerebrais) e tomografia de emissão de pósitrons (PET, um exame de imagem muito preciso).

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Figura 1: Nervo vago (em amarelo) e os diversos órgãos que ele inerva, como pulmões, coração, fígado, estômago e intestinos. Fonte: http://yogami.ch/it/blog/

Os resultados foram no mínimo fascinantes! Depois de passar por esse tratamento de choque (literalmente) no nervo vago, o paciente se mostrou mais alerta e apresentou vários sinais de consciência, como abrir os olhos e permanecer com eles abertos por bastante tempo. Além disso, ele moveu a cabeça e os olhos na direção de quem falasse algo e quando colocaram sua música preferida ele sorriu e chorou. No EEG e na tomografia, observou-se que houve um aumento na atividade e na conexão entre diversas regiões cerebrais. Isso se explica pelo fato de que o nervo vago tem conexões com áreas do cérebro como amídalas, tálamo e hipocampo, as quais desempenham funções na memória, movimento voluntário e emoções, por exemplo (Figura 2). 

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Figura 2: Imagens produzidas a partir de eletroencefalograma (EEG). Nas duas figuras de cima, antes do “tratamento de choque” (“Pre-VNS”), as linhas em cores azuis e roxas revelam baixa atividade e conexão entre regiões cerebrais. Nas duas figuras de baixo, as linhas nas cores laranja e vermelho indicam maior atividade e conexão entre essas regiões após a estimulação do nervo vago (“Post-VNS”) (CORAZZOL et al, 2017)

Apesar de serem necessárias pesquisas mais detalhadas sobre o efeito da estimulação elétrica do nervo vago antes de podermos afirmar, com certeza, que esses pequenos choques elétricos podem reverter o estado vegetativo, um caminho foi aberto pelos cientistas franceses. De qualquer forma, esse é um exemplo de que a ciência (além de todos os benefícios econômicos e sociais) pode trazer esperança. Sendo assim, talvez haja uma segunda chance para os milhares de pacientes em coma que, frequentemente, são negligenciados e condenados a morrer em solidão, presos dentro do próprio corpo. 

Ciência é Investimento! Ciência é Vida! Ciência é Esperança!

Referências

BAGNATO, S.; BOCCAGNI, C.; SANT’ANGELO, A. et al. Long-lasting coma. Funct Neurol. 2014 Jul-Sep;29(3):201-5.

CORAZZOL, M.; LIO, G.; LUAUTÉ, J.; SIRIGU, A. et al. Restoring consciousness with vagus nerve stimulation. Curr Biol. 2017 Sep 25;27(18):R994-R996. doi: 10.1016/j.cub.2017.07.060.

GIACINO, J.T.; FINS, J.J.; LAUREYS, S.; SCHIFF, N.D. Disorders of consciousness after acquired brain injury: the state of the science. Nat Rev Neurol. 2014 Feb;10(2):99-114. doi: 10.1038/nrneurol.2013.279. Epub 2014 Jan 28.

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