Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

TRAJETÓRIA EDUCADORA

TRAJETÓRIA EDUCADORA

Edição Vol. 3, N. 10, 13 de Maio de 2016

Flávio Carvalho

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.05.16.006

– Professora!

Até os seus cinco anos, era assim que Paula respondia aos que a incomodavam perguntando o que ela seria quando crescesse. Adorava contar às amiguinhas as histórias que seu pai narrava todas as noites e ensinar às meninas as brincadeiras que inventava ou aprendia com ele.

– Ah, filha… Já viu quanto ganha um professor? Você vai morrer pobre! – Dizia o pai, pragmático. A mãe, sempre que ouvia, também entrava na conversa:

– Filha, não se preocupa com isso, tá? Você pode ser o que você quiser!

– Então eu quero ser professora!

– Tudo bem, filhona! Mas espere até você conhecer a escola, vai que você não gosta tanto assim…

– Eu vou adorar a escola, mamãe! Estou doida pra ir!

E finalmente a hora da escola chegou. Na primeira série do Fundamental, Paula passava o recreio contando suas histórias a seus coleguinhas. A maioria também já conhecia as narrativas e todos debatiam sobre as pequenas diferenças entre as versões de cada um. Até que numa terça-feira os garotos ficaram entretidos demais na discussão e não ouviram o sinal para a volta à sala. Alguns minutos depois, a professora os encontrou no pátio:

– Todo mundo já de volta para a sala! O que vocês estão fazendo aqui ainda?

Em silêncio, o grupo ficou olhando para o chão.

– Ninguém vai me explicar? Então vão todos para a diretoria!

Um dos meninos tentou explicar a situação:

– Pro… pro… fessora… A gente não ouviu o sinal… A gente só tava conver…

– Isso aqui não é lugar de conversar! É lugar de aprender! Todo mundo pra sala! Agora!

Paula seguiu a professora até a sala e nunca mais perdeu um sinal para o fim do recreio.

Um pouco mais crescida, Paula passou a gostar mais das aulas de Educação Física. Afinal, pelo menos por uma hora ela poderia correr e sair um pouco da cadeira em que passava a maior parte da infância. Não tinha problema nenhum com os esportes institucionalizados, mas o que a deixava com os olhos brilhando eram as brincadeiras que normalmente serviam de aquecimento. Queimada era melhor que brigadeiro!

Até que numa tarde de quinta, antes de mandar as meninas para a quadra de vôlei e os meninos para a de futsal, seu professor propôs que todos jogassem rouba-bandeira pelos primeiros dez minutos da aula. Paula, que havia aprendido uma variação do jogo na semana anterior, levantou a mão:

– Professor, por que a gente não joga assim: ao invés de ir pegar a bandeira do outro time, a gente tem é que levar a nossa bandeira até lá?

– Mas aí não é rouba-bandeira! Pode ser finca-bandeira ou crava-bandeira, sei lá, mas rouba-bandeira não é de jeito nenhum!

– Mas a gente não pode jogar de outro jeito?

– Pode sim, mas só quando você for a professora. E no seu colégio também. Aqui nós jogamos do jeito certo, do jeito que as regras mandam!

– Mas…

– Pegue aqui! – disse, entregando um livro à garota. – Pode ir lendo as regras do vôlei enquanto a turma vai jogando. E eu vou tomar tudo no final da aula!

Das regras do vôlei ela passou às regras do Vestibular. No Ensino Médio, já havia perdido a vontade de ensinar e resolveu acatar a sugestão do pai: faculdade de Medicina. Assim, tinha que estudar mais que os concorrentes, fazer trabalhos melhores e também tirar as maiores notas, é claro. Era preciso saber mais que todos.

Seu dia consistia em rodar de sala em sala em busca de qualquer um que lhe cedesse algum conhecimento para depositar no seu baú. Briófitas no café da manhã, ligações covalentes no almoço, funções exponenciais no lanche da tarde e Plano Marshall no jantar. E depois dormir, torcendo para não esquecer tudo o que leu e ouviu naquele dia.

Numa manhã de quinta, descobriu que seu cofre tinha sido furtado na noite anterior:

– Professor, como que a Luftwaffe travou a Batalha da Inglaterra? Ela não foi proibida no Plano Marshall?

– Como é que é? Plano Marshall?

– É, não foi assim?

– Tratado de Versalhes! Ver-sa-lhes! Não é possível que você não saiba disso! A Primeira Guerra nós já vimos lá em março! Eu não posso voltar pra te explicar isso de novo!

– Ah é, Versalhes… Tá certo… É porque é fácil de confundir, foram tantos tratados…

– Onde já se viu algo em 1947 influenciar outra coisa em 1940? É assim que você quer passar no Vestibular? Tem que estudar, moça!

Screen Shot 2016-05-16 at 11.39.20 AM

Apesar da pouca fé do seu professor de História, Paula conseguiu passar no Vestibular para Medicina. Por volta da metade do curso, lembrou-se de que queria ser professora quando criança. Ah, que bobagem! Ficar tentando enfiar conhecimento na cabeça de um monte de gente burra e que não quer estudar… Mas também se lembrou de que monitoria dá uns créditos e ajuda na hora de montar um currículo. Em poucas semanas ela já se encontrava ensinando outros universitários:

– Isso, olha aqui a peça: cuneiformes lateral, intermédio e médio. Cuboide e navicular. De novo: cuneiformes, cuboide e navicular. Sua vez!

– Cuneiformes… cuboide e navegador!

– Navicular! Na-vi-cu-lar! Não é possível que você não saiba disso!

– Ah é, navicular! É porque é fácil confundir com navegador, sabe… Tem a mesma…

– Sabe quem também tem navicular? Os equinos! São seus parentes, não são? Onde já se viu querer ser médico sem saber o mínimo de anatomia? Tem que estudar, rapaz!

Sem se preocupar com os estudos dele, Paula prosseguiu com os seus. Formou-se médica, especializou-se em Pediatria e passou a exercer a profissão. Manteve sua proficiência em colecionar moedas e informação em seus respectivos cofres, mas ainda dorme preocupada em não perder nada que esteja dentro deles.

Na semana passada, enquanto lia um de seus livros de autoajuda, adorou a ideia de que a caridade é necessária para a sua própria felicidade e resolveu doar um pouco do seu tempo a algumas crianças. É uma ótima hora de retomar a ideia de ensinar, de tentar distribuir um pouco do conhecimento que acumulou. Procurou uma creche onde pudesse dar lições gratuitas de saúde básica.

E hoje é o dia da sua primeira aula. Depois de distribuir as cadeiras em cinco filas e de perfilar os meninos por ordem de tamanho, ela começa a sua projeção de slides sobre o mosquito da dengue, zika e chikungunya.

– Chico Cunha, tia? Quem é esse?

– Chikungunya, moleque! Chi-kun-gu-nya! E nada de se levantar até o sinal tocar.

Print Friendly
  • TRAJETÓRIA EDUCADORA
  • 2
  1. Ariana disse:

    Se ter sido educado é estar preparado para enfrentar o mundo, parece que a Paula compreendeu sua lição…

    17/maio/2016 ás 13:33
  2. Márcio Rodrigues Teixeira disse:

    Ser professor a gente consegue, não como aquele sonho de criança,
    mas com as imposições dos adultos onde uma criança não pode
    nem fazer uma simples indagação.

    18/maio/2016 ás 18:46

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>