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TOXOPLASMOSE: A Culpa É Dos Gatos?

TOXOPLASMOSE: A Culpa É Dos Gatos?

Vânia Goulart, Rodrigo R Resende

Edição Vol. 2, N. 14, 06 de Julho de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.07.06.006

Existem muitas informações distorcidas sobre a Toxoplasmose circulando pelas redes sociais. Na maioria das vezes, os gatos são vistos como os grandes culpados da história. Quem nunca ouviu ou leu algum comentário do tipo: “Gatos só servem para transmitir doenças!”, “Mulheres grávidas não podem criar gatos!”, “Crianças que convivem com gatos desenvolvem transtorno mental!”, dentre outros? Isso contribui para que os animais sejam abandonados, favorecendo a manutenção do ciclo da doença. Além disso, as pessoas ficam tão incomodadas com a presença dos bichanos que acabam não se atentando para outros fatores de risco para a infecção. Este texto, baseado na literatura científica, tem como objetivo esclarecer alguns desses mitos sobre a Toxoplasmose e informar ao leitor como evitar a infecção.

O QUE É A TOXOPLASMOSE?

A Toxoplasmose é uma doença infecciosa causada pelo parasito Toxoplasma gondii (T. gondii). Durante seu ciclo de vida, este parasito microscópico apresenta três formas infectantes: taquizoítos (forma livre, Figura 1-A), bradizoítos (dentro de cistos, Figura 1-B) e esporozoítos (dentro de oocistos, Figura 1-C). O T. gondii é o protozoário mais difundido na população humana e animal (exceto animais de sangue frio). A forma mais grave da doença é geralmente encontrada em crianças recém-nascidas que adquiriram a doença pela via transplacentária. Nestes casos, a doença pode ser caracterizada por encefalite, coriorretinite, icterícia, urticária, hepatomegalia, hidrocefalia e microcefalia, com altas taxas de mortalidade. Em adultos, no início da infecção, podem aparecer os seguintes sintomas: febre, inchaço e dor nos gânglios, mal-estar e dores musculares.

toxoplasmose

Figura 1: Formas infectantes do T. gondii (1A-1C) e ciclo de transmissão do parasito (1-D).O ciclo inicia-se pela ingestão de cistos presentes em carne (por exemplo, de porco, rato, passáro ou coelho), pelos felídeos ou gatos. A parede do cisto é dissolvida por enzimas do estômago e intestino delgado, que quebram as proteínas do cisto, o parasito é liberado do cisto, penetra nos enterócitos (células da mucosa intestinal) do animal e replica-se assexuadamente dando origem a várias gerações de Toxoplasma (taquizoítos) através da reprodução assexuada. Após cinco dias dessa infecção, inicia-se o processo de reprodução sexuada, em que os merozoítos formados na reprodução assexuada dão origem aos gametas. Os gametas masculinos (microgameta) e feminino (macrogameta), descendentes do mesmo parasita ou de dois diferentes, fundem-se dando origem ao ovo ou zigoto, que após segregar a parede cística dá origem ao oocisto. Este é expulso com as fezes dos animais após nove dias (cada gato expulsa mais de 500 milhões de oocistos em cada defecação). Já no exterior, sofre divisão meiótica (esporulação) novamente após alguns dias, formando-se dois esporocistos cada um com quatro esporozoítos. Uma forma altamente resistente a desinfectante pode durar cinco anos em condições úmidas. Estes são ativados em taquizoítos se forem ingeridos por outro animal, chamado hospedeiro intermediário: por exemplo, um rato ou coelho que coma erva em que algum gato ou outro felídeo tenha defecado ou uma criança ou adulto que mexa com os dedos em material contaminado com fezes e depois leve-os à boca. Os taquizoítos podem se infectar e replicar em todas as células dos mamíferos, exceto nas hemácias. Uma vez ligados a uma célula do hospedeiro, o parasito penetra na célula e forma um vacúolo parasitóforo, dentro do qual se divide. A replicação do parasito continua até que seu número no interior da célula atinja uma massa crítica que provoca a ruptura da célula, liberando parasitos que irão infectar outras células adjacentes (4).

COMO OCORRE A TRANSMISSÃO DA DOENÇA?

Os seres humanos podem adquirir a infecção por quatro vias principais:

  1. Ingestão de oocistos: fezes de gatos INFECTADOS pelo T. gondii, contendo oocistos, podem contaminar o ambiente (água, solo, jardins, caixas de areia, latas de lixo) e os alimentos. Os oocistos também podem ser disseminados mecanicamente para outros ambientes por moscas, baratas, minhocas e etc.

  2. Ingestão de cistos: os cistos são encontrados em carne crua ou mal cozida de animais infectados, principalmente de porco e carneiro.

  3. Congênita ou transplacentária: mulheres que se infectam durante a gravidez, geralmente, transmitem a infecção para seus fetos. Já mulheres que passaram por uma infecção antes da gravidez têm menos chances de transmitir a infecção para seus fetos.

  4. Mais raramente pode ocorrer a ingestão de taquizoítos em leite contaminado ou saliva, transmissão por transplante de órgãos e etc.

Na Figura 1-D é possível visualizar o ciclo de transmissão do T. gondii. 1) Oocistos esporulados são eliminados nas fezes de gatos infectados. Embora os oocistos sejam liberados apenas por um período de 1 a 2 semanas, aproximadamente 100 milhões de oocistos podem ser liberados neste período. Os oocistos podem levar de 1 a 5 dias para esporularem no ambiente e se tornarem infecciosos. Em condições favoráveis de umidade, temperatura e local sombreado, os oocistos são capazes de se manterem infectantes até 18 meses. 2) Hospedeiros intermediários na natureza (incluindo pássaros e roedores) tornam-se infectados após a ingestão de solo, água ou material vegetal contaminados com oocistos. Os oocistos transformam-se em taquizoítos logo após a ingestão. 3) Estes taquizoítos podem migrar para os tecidos neural e muscular e evoluir para bradizoítos (cistos presentes nos tecidos). 4)Os gatos tornam-se infectados após consumirem hospedeiros intermediários que abrigam cistos nos tecidos. Os gatos também podem ser infectados diretamente por ingestão de oocistos esporulados. 5) Animais criados para o consumo humano e da caça selvagem podem também ser infectados com cistos teciduais ou após a ingestão de oocistos esporulados no ambiente. Os seres humanos podem ser infectados por qualquer uma das várias rotas: 6) comer carne crua ou mal cozida de animais que abrigam cistos nos tecidos; 7) consumir alimentos ou água contaminados com fezes de gato ou por amostras ambientais contaminados (tais como, solo contaminado ou areia sanitária de gatos de estimação infectados); 8) transfusão de sangue ou transplante de órgãos; 9) Via transplacentária da mãe para o feto. 10) No hospedeiro humano, os parasitos formam cistos teciduais, mais comumente no músculo esquelético, miocárdio, cérebro e olhos; esses cistos podem permanecer durante toda a vida do hospedeiro. O diagnóstico normalmente é feito por sorologia, embora cistos de tecido possam ser observados em amostras de biópsia. 11) O diagnóstico das infecções congênitas pode ser alcançado através da detecção de DNA de T. gondii no líquido amniótico, utilizando métodos moleculares.

QUAL É O PAPEL DOS GATOS NA TOXOPLASMOSE?

Para entendermos o papel dos gatos na transmissão da doença, primeiramente, temos que entender como é o ciclo de vida do parasito T. gondii. O ciclo de vida deste parasito ocorre em duas fases distintas:

- Fase sexuada: ocorre SOMENTE nas células das paredes intestinais de gatos (e outros felídeos) infectados. No intestino dos gatos são formados os oocistos do parasito que são liberados para o ambiente através das fezes. Deste modo, os gatos e outros felídeos são considerados hospedeiros definitivos da doença.

- Fase assexuada: ocorre nos tecidos e linfonodos de mamíferos (incluindo humanos e gatos) e aves. Estes animais são considerados hospedeiros intermediários da doença.

Logo, os gatos (e outros felídeos) têm um papel fundamental para a disseminação da Toxoplasmose. Porém, a principal causa de infecção em humanos está relacionada à falta de higiene com a água e com os alimentos. Vale ressaltar que apenas gatos infectados são capazes de transmitir a Toxoplasmose através de oocistos em suas fezes, animais saudáveis não implicam em risco. Deste modo, mulheres grávidas podem conviver com gatos desde que eles não estejam infectados e que sejam tomadas as devidas medidas preventivas (item abaixo). Para descobrir se um gato está infectado, basta encaminhá-lo ao veterinário e fazer um exame sorológico. O abandono destes animais sempre será a pior escolha, pois, gatos infectados poderão contaminar o ambiente em grandes extensões; e gatos saudáveis terão maiores possibilidades de contrair a infecção ao ingerir presas infectadas. Os gatos não transmitem a doença por toda a vida, apenas durante o ciclo do parasito que dura em torno de 2 semanas. Na maioria dos casos, eles não apresentam sintomas clínicos da doença, por isso, o acompanhamento veterinário é importante.

Recentemente, tem-se ouvido falar que crianças que convivem com gatos desenvolvem esquizofrenia (transtorno mental complexo caracterizado pela perda do contato com a realidade). Isso se deve a uma reportagem incorreta, veiculada por um jornal virtual que possui milhares de acessos, sobre um estudo publicado pela revista “Schizophrenia Research”. Na verdade, os resultados publicados nesta revista foram inconclusivos, os pesquisadores apenas inferiram a possibilidade de que o parasito T. gondii poderia estar relacionado com a esquizofrenia e a convivência com gatos poderia implicar em maior risco de contrair o parasito (2). No entanto, são apenas especulações e nada foi comprovado.

COMO EVITAR A TOXOPLASMOSE?

Medidas de boas práticas de higiene, cuidados com o ambiente e com os animais podem prevenir a infecção e a disseminação da doença, são elas:

- as frutas e verduras devem ser lavadas e deixadas de molho com água sanitária, na proporção de 1 colher de sopa de água sanitária para 1 litro de água, durante 10 minutos;

- a água para o consumo deve sempre ser filtrada ou fervida;

- não se deve ingerir carne crua ou mal cozida de qualquer animal, ou leite cru;

- ao fazer jardinagem, evitar tocar em areia e terra sem o uso de luvas;

- ensinar às crianças a manterem as mãos limpas;

- evitar que crianças tenham contato direito com o solo/areia de ambientes abertos, por exemplo, parquinhos e praças;

- recomenda-se o exame pré-natal para todas as gestantes;

- para os criadores de gatos, limpar a caixa de areia sanitária diariamente, usando luvas descartáveis e lavar bem as mãos após a limpeza;

- as fezes dos gatos devem ser incineradas;

- não se deve alimentar gatos com carne crua, apenas ração ou alimentos cozidos;

- manter os gatos em ambientes limpos, de preferência dentro de casa, longe de possíveis fontes de contaminação (presas infectadas ou ambiente contaminado);

- contribuir para o controle populacional dos gatos através da castração destes animais.

Referências

  1. KAWAZOE, Urara. Toxoplasma gondii. In: NEVES, David Pereira. Parasitologia humana. 11º Ed. São Paulo: Atheneu, 2005. Cap. 24.

  2. Fuller Torrey, E., Simmons, W., and Yolken, R. H. Is childhood cat ownership a risk factor for schizophrenia later in life? Shizophrenia Research. 165 (1): p. 1-2.

  3. Toxoplasmosis. Centers for disease control and prevention. Disponível em: http://www.cdc.gov/parasites/toxoplasmosis/epi.html.

  4. Modificado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Toxoplasmose

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