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TOMEI ANTIBIÓTICOS DEMAIS E OLHA NO QUE DEU…

TOMEI ANTIBIÓTICOS DEMAIS E OLHA NO QUE DEU…

Patrik da Silva Vital, Thiago Araújo Andrade, Vinícius Souza Tarabal, Aline Thaynara de Moura Coelho

Universidade Federal de São João del-Rei Campus Centro-Oeste Dona Lindu

Edição Vol. 5, N. 07, 12 de Fevereiro de 2018

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2018.02.12.001

Em 2018, completam-se 90 anos desde a descoberta dos antibióticos. O surgimento desses medicamentos, conhecidos por matar e/ou impedir o crescimento de micro-organismos, causou grande alvoroço na comunidade médica durante a Segunda Guerra Mundial. Naquela época, era comum pessoas morrerem por infecções generalizadas (iniciadas por uma simples dor de garganta, por exemplo). A ideia de “o problema das infecções está resolvido” se espalhou desde então (1). 

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Figura 1: Obra “O Triunfo da Morte”, de Pieter Bruegel. Representa a epidemia da Peste Negra, doença bacteriana que dizimou um terço da população europeia no fim da Idade Média.

Hoje, porém, temos uma preocupação ainda maior em mãos por causa disso. Por décadas, o uso de antibióticos ocorreu de forma incorreta e incontrolada, tanto na saúde humana, quanto na agropecuária, o que acabou selecionando bactérias que possuem mecanismos de escape contra essas drogas, conhecidos como resistência. Tais mecanismos são variados (como, por exemplo, o mediado por ?-lactamases; enzimas que inativam esses medicamentos, e acabam com seu efeito), podendo ser adquiridos de duas maneiras principais: mutações ou transferência das características de resistência entre bactérias (transferência horizontal de genes) (Esquema 1). O resultado disso são bactérias que não respondem à ação dos antibióticos (3). 

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Esquema 1: mostra os mecanismos de resistência das bactérias: em A é possível ver como ocorre a seleção natural das bactérias e em B, como bactérias adquirem resistência através da transmissão de genes. Adaptado de: http://latinamericanscience.org/spanish/2017/05/la-eterna-amenaza-de-la-resistencia-bacteriana/

No entanto, o mais preocupante é que esses mecanismos permitem que todo o processo se comporte em cadeia: a bactéria adquire resistência, transfere genes para outra bactéria já resistente tornando-a resistente a mais de um tipo de antibiótico e assim por diante. Isto acaba selecionando cada vez mais tais microrganismos, que se transformam literalmente em superbactérias (3). 

Não bastasse, bactérias como a Klebsiella pneumoniae recentemente foram identificadas como microrganismos que funcionam como “fonte de resistência a antibióticos”, centralizando esse processo com grande facilidade, deixando assim, o controle ainda mais complicado (2).

MAS COMO RESOLVER O PROBLEMA DA RESISTÊNCIA? 

Essa é a pergunta de um milhão de dólares (ou melhor, um bilhão de dólares; o preço médio para desenvolvimento para um novo antibiótico) (6). Muitos pesquisadores estão trabalhando para resolver esse problema e alguns aspectos já são consenso entre os cientistas, como: leis mais rigorosas sobre a comercialização de antibióticos, conscientização do uso correto para a população e pesquisa (muita pesquisa) na área da microbiologia (3).

Até a maneira como esses novos antibióticos estão sendo produzidos está sendo repensada. Pesquisadores já demonstraram que aspectos importantes (como o de evitar que a transferência horizontal de genes ocorra, por exemplo) não são considerados nos testes de várias pesquisas farmacêuticas. Ao mesmo tempo, é especulado que muitos medicamentos rejeitados em testes anteriores poderiam atuar muito bem, se usados concomitantemente com outros remédios, o que é chamado de efeito sinérgico (3). 

Nos últimos anos, países como o Brasil começaram a controlar a dispensação de antibióticos, exigindo o uso de receita para a sua compra. Apesar disso, estima-se que 50% dos antibióticos ainda sejam vendidos sem prescrição ao redor do mundo (4). Da mesma forma, não podemos deixar de mencionar que erros de diagnóstico e mal-uso desses medicamentos ainda são uma realidade. Isto além de más práticas hospitalares e tratamento de efluentes feito incorretamente que funcionam como porta de entrada e forma de contato com superbactérias, proliferando as resistentes ainda mais (8).

A agropecuária também tem papel importantíssimo neste contexto, uma vez que consome cerca de 80% dos antibióticos vendidos para o público em alguns países e mesmo assim, a grande maioria ainda não criou leis para regulamentar o seu uso. Desta forma, a utilização abusiva destes medicamentos nesta área, fazem com que ela seja a principal responsável pelo surgimento de resistência aos antibióticos, já existindo indícios ligando a resistência de bactérias em animais com infecções resistentes em humanos (6).

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Figura 2: Imagem ironizando o emprego excessivo de drogas, como antibióticos, na criação de gado para corte. Fonte:
http://www.sfexaminer.com/just-say-no-drugs-meat/

O resultado final é evidente: já existem bactérias resistentes a todos os antibióticos presentes no mercado, como é o caso da Acinetobacter baumannii, que é resistente a classe de carbapenêmicos (linha de antibióticos usada como última alternativa para tratamento de infecções bacterianas). Tal fato, atualmente, implica em cerca de 700 mil mortes no mundo por ano, sendo estimado que até 2050 este número suba para 10 milhões. Além disso, no mesmo período, é prevista uma perda de 2 a 6,8 trilhões de dólares na produção mundial, sendo estimada somente no Brasil uma queda de 4,4%  no PIB por este motivo, mostrando que esse problema afetaria, não somente a saúde pública, mas várias áreas de maneira geral (5).

É sabido que resistência bacteriana é um tema de resolução muito delicada. Contudo, a falta de legislação e informação geral, somada às reais consequências que podem ser geradas, sugerem que este é um assunto muito menosprezado. Já vivemos situações em que bactérias dizimaram milhões de pessoas no passado. A peste negra (peste bubônica), por exemplo, doença causada pela bactéria Yersinia pestis, foi responsável por matar um terço de toda população europeia (mais que 50 milhões de pessoas) no fim da Idade Média (7). A falta de perspectivas quanto ao tratamento de infecções bacterianas similares a esta nos leva a um destino equiparado, ou mesmo pior ao vivido naquele tempo, caso não tomemos iniciativa para resolver o problema enquanto há chance. 

Geralmente, notícias sobre o fim da humanidade aparecem nas mídias sociais como um grande meteoro vindo em direção à Terra. No entanto, pelo rumo que as coisas caminham, enquanto olhamos para o espaço esperando o nosso fim, existe uma grande possibilidade de ele estar bem mais próximo do que imaginamos. Só não conseguimos vê-lo.

Investimento em ciências é a saída! Invista você também em ciências!

Referências

  1. Hudson JA, Frewer LJ, Jones G, Brereton PA, Whittingham MJ, Stewart G. The agri-food chain and antimicrobial resistance: A review. Trends in Food Science & Technology. 2017;69:131–147.
  2. Navon-Venezia S, Kondratyeva K, Carattoli A. Klebsiella pneumoniae: A major worldwide source and shuttle for antibiotic resistance. FEMS Microbiology Reviews. 2007;41(3):252–275.
  3. Sommer MOA, Munck C, Toft-Kehler RV, Andersson DI. Prediction of antibiotic resistance: Time for a new preclinical paradigm? Nature Reviews Microbiology. 2017;15(11):689–696.
  4. Togoobaatar G, Ikeda N, Ali M, Sonomjamts M, Dashdemberel S, Mori R, et al. Survey of non-prescribed use of antibiotics for children in an urban community in Mongolia. Bulletin of the World Health Organization. 2010;88:930-936.
  5. Guimarães K. Superbactérias avançam no Brasil e levam autoridades de saúde a correr contra o tempo [Internet]. BBC Brasil. 2018 [citado em 14 de Janeiro de  2018]. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40561948.
  6. Van Boeckel TP, Glennon EE, Chen D, Gilbert M, Robinson TP, Grenfell BT, et al. Reducing antimicrobial use in food animals. Science. 2017;357:1350-1352.
  7. World Health Organization. Plague [internet]. WHO. 2018 [citado em 14 de janeiro de 2018]. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs267/en/.
  8. Byarugaba DK. A view on antimicrobial resistance in developing countries and responsible risk factors. International Journal of Antimicrobial Agents. 2004;24:105–110.
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