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TERRAÇO

TERRAÇO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 11, 28 de Abril de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.04.27.007

Eudes já estava ofegante quando chegou ao nono andar, mas não podia parar. Ele estava certo de que não poderia escapar das suas últimas idiotices, era melhor continuar correndo até o último andar. Maldito escorregão! Maldito árbitro!

No terraço, Charles apagava o cigarro e jogava o resto em direção à rua. Assim que soltou a guimba, apoiou-se no parapeito e ficou observando a queda do cilindro, que mudava de direção acompanhando o vento, sem controle nenhum sobre seu destino. Poderia acabar sobre um carro, dentro de um bueiro ou quem sabe na cabeça de algum infeliz que estivesse atravessando a rua no momento certo. Ou errado. E que desastre seria se esse infeliz se assustasse e acabasse atropelado, talvez deixando o carro desgovernado e subindo no ponto de ônibus, e aí atropelando mais algumas pessoas, talvez até idosos ou crianças…

Será que ele seria culpado? Será que ele poderia ser preso? Ah, pouco importa.

Enquanto Charles ainda contemplava as terríveis possibilidades, o cigarro já havia caído no asfalto e rolado para um canto qualquer junto ao meio-fio. Seus devaneios só foram interrompidos pela barulhenta abertura da porta do terraço.

Eudes já não era mais o atleta que fora na juventude. Há poucos anos essa subida seria apenas um bom exercício, um aquecimento para o restante do dia, mas o homem que Charles viu chegar ao terraço parecia estar próximo de um colapso. Além da blusa colada ao corpo, tinha a língua esbranquiçada, estendida para fora da boca como a de um cachorro tentando se livrar do calor. Mas ele nem se preocupava mais com isso.

Charles, ao ver a chegada do homem, suspirou e saiu de perto do parapeito. Começou a caminhar em círculos, sem olhar diretamente para o recém-chegado enquanto acendia mais um cigarro. Deu as primeiras baforadas de costas para Eudes, que tentava recuperar o fôlego enquanto ficava abaixado com as mãos sobre os joelhos.

Um pouco recuperado, Eudes também começou a andar em círculos, porém com passos bem mais apressados que os de seu colega de terraço. E assim os dois ficaram durante alguns longos e desconfortáveis segundos caminhando sem direção certa, até que Charles decidiu começar a conversa:

– Boa tarde!

– Boa tarde! – respondeu Eudes, enquanto sentava-se ao lado da porta.

– Você trabalha aqui no prédio?

– Trabalho sim. Naquele banco do térreo.

– Ah sim… agora eu sei porque você não me é estranho! Você é caixa, não é? Fica no guichê do canto, ao lado da menina de cabelo curtinho?

– Isso mesmo. E o senhor, também trabalha aqui?

– É… dá pra dizer que sim. – respondeu Charles, jogando outro cigarro por cima do parapeito e observando sua trajetória até o chão.

– Em qual andar?

– No oitavo.

– No escritório da mineradora? Haja dinheiro lá, hein? O que você faz por lá? Não tem espaço pra mim não?

– É… a empresa é bem grande mesmo…

– E se você não respondeu o que faz, com certeza é chefão! Diretor executivo? Tesoureiro? É você quem manda naquele dinheiro todo?

– É, dá pra falar que sim…

Eudes riu e balançou a cabeça antes de levantar-se e ir em direção ao parapeito. Olhou para baixo procurando a entrada do prédio, depois olhou para as duas esquinas. Enquanto isso, Charles terminava mais um cigarro e o jogava em direção à rua. Agora eram dois observando, em silêncio, a queda da guimba. Depois de alguns minutos em que cada um aguardava a saída do outro, Eudes perdeu a paciência:

– O que você está fazendo aqui, Charles?

– Como assim? Eu só estou aqui com meus cigarros. E você, que chegou esbaforido e nada fez além de perguntas sobre o que eu faço da vida?

– Não te interessa.

– Então também não te interessa o que eu faço aqui, amigo.

Seguiu-se outro período de silêncio desconfortável. Charles acendia e jogava seus cigarros na rua, enquanto Eudes caminhava em círculos e coçava a cabeça. Mais uma vez, foi ele quem rompeu o silêncio.

– Olha só, eu vim aqui para pular daqui de cima, ok? E você está me atrapalhando!

Charles arregalou os olhos e deu uma risada rápida:

– Olha só, que coincidência. Esse mundo está perdido mesmo, viu…

– Coincidência?

– É… eu vim aqui para fazer a mesma coisa.

Eudes também riu. Afinal, só podia ser piada aquele senhor ter resolvido cometer seu suicídio na mesma hora que ele.

– Bem, sendo assim, melhor eu acabar com isso logo. – disse Eudes, levantando novamente e caminhando até o parapeito. – Foi um prazer, senhor…?

Charles deu alguns passos e parou na frente do outro antes de responder seu nome. Depois de apresentado, prosseguiu:

– Quê isso, rapaz! Vai ter que pelo menos me contar o motivo!

– E interessa? Daqui a pouco nós dois vamos estar lá no asfalto!

– Ora, se você vai estar morto daqui a pouco, qual o problema de contar? Não vai fazer diferença mesmo…

– Se eu contar, você sai da frente?

Charles apenas assentiu com a cabeça.

– São dívidas. Eu devo demais, bem mais do que eu vou ganhar no resto da vida.

– Ah, mas isso não é motivo para tanto, todo mundo dá calote mesmo, em cinco anos prescreve e…

– É dívida de jogo, Charles, essas prescrevem também?

– E como você fez isso?

– Sem muitos detalhes, eu sempre gostei de dinheiro. E sempre gostei de apostar também, em qualquer coisa. Aí acontece que eu também joguei um pouco de futebol quando era mais novo e conheço uma turma que ainda está no meio… então nós resolvemos, eu e um amigo meu, goleiro do time aqui da cidade, armarmos um esquema para ganhar uma grana com o time dele perdendo. Então eu acabei apostando dinheiro que não tinha, já que a gente tinha armado tudo mesmo…

– E, se você está aqui, é claro que deu errado…

– É que o maldito árbitro expulsou os dois atacantes do outro time no primeiro tempo! Eles não deram um chute no gol! Zero! Como que o goleiro ia avacalhar o jogo assim? É claro que tinha uma mala no vestiário do juiz também! E eu é que me ferrei!

Charles não sabia se ria ou lamentava. Optou por acender mais um cigarro. Eudes prosseguiu:

– Eu demorei uns dias pra pagar e eles então, quando viram que não iam receber o dinheiro, começaram a seguir e a ameaçar a minha família também.

– É, mas não dava pra arrumar um empréstimo? Puxa, você está dentro do banco, eles não ajudam funcionários?

– Eu até peguei todo tipo de empréstimo, mas não era o suficiente. Era dinheiro demais… Então eu acabei tendo uma excelente ideia!

– Acho que não foi tão excelente assim…

– A ideia foi perfeita. Eu peguei o dinheiro que tinha sobrado no meu caixa no final da sexta-feira e, ao invés de guardar no cofre, eu saí com ele do banco. Foi fácil enrolar o tesoureiro. Só que eu não podia ir direto quitar a dívida com a banca, é lógico, porque eu tinha que dar um jeito de pagar a aposta e devolver o dinheiro. E é claro que eu ainda queria pegar um pouco pra mim, depois desse problema todo eu tinha que pelo menos sair mais rico da história…

– E você fez o quê, jogou no bicho? Comprou uma Tele Sena?

– Apostei de novo, oras! Viu a luta sábado?

– Eu não gosto muito dessas coisas, é muito estúpido.

Eudes pensou em interromper a história para argumentar, mas seria perder mais tempo ainda. Era melhor encerrar a narrativa o mais rápido possível:

– Então, o campeão estava invicto há dezenove anos. Dezenove! Nunca tinha perdido na vida. Quase cinquenta lutas. Era só colocar o dinheiro nele e esperar ele fazer a mesma coisa que sempre fez! Não tinha como dar errado!

– Ah… é óbvio que não tinha…

– Aí o maldito escorrega no quinto assalto e é nocauteado com um cruzado de esquerda! Um soco só! De novo, eu é que me ferrei! Agora eu tenho de um lado os bandidos e do outro a polícia atrás de mim! Tem outra solução? Pelo menos assim talvez eles não matem o resto da família!

Charles balançou a cabeça e riu antes de dizer:

– Desculpe a franqueza, mas você é bem burro, não? Nossa, é muita idiotice!

Eudes franziu a testa e fechou o punho, mas Charles se antecipou:

– Nem adianta, amigo. Eu vou morrer daqui a pouco mesmo, você me bater não vai fazer a menor diferença. Aliás, nada faz diferença mesmo…

– Então, senhor inteligente, você me disse que ia fazer o mesmo que eu. Posso ao menos divertir-me um pouco com a desgraça que o traz até aqui? Ou também não faz diferença?

Charles encostou as costas no parapeito e jogou outro cigarro na rua antes de responder:

– Ok, não faz mal conversar mesmo. Eu estou aqui porque… porque isso tudo não vale nada!

– Excelente resposta! – disse Eudes, começando a aplaudir. – De verdade, parabéns! Não, é sério, você é inteligente mesmo!

– Bem, se você não quer ouvir…

Eudes parou de aplaudir e sentou-se, gesticulando para que Charles continuasse.

– Começou quando a número dois quis virar a número um.

– Tá começando bem! Então, sua mulher ligou para o João Kléber?

– Aí um dia eu saio daqui do prédio, depois de três horas extras, é claro, e quando chego à minha casa estão as duas sentadas na minha cozinha. Acredita que a outra foi lá pra contar tudo? Nem entrei e minha mulher já me jogou pratos, facas, computador, vasos e uma cadeira. Nunca mais pude colocar os pés na minha casa.

– Espera, mas a casa não era sua?

– Nossa. E no final das contas ela acabou me ferrando na separação. Eu fiquei com metade do que é meu e sem as crianças.

Dessa vez foi Eudes quem riu antes de dizer:

– Pelo menos você ainda tinha a outra, não é mesmo?

– Claro que não, né? Não dava pra ficar com uma mulher dessas.

– Você também não é muito inteligente, não é? Tinha tudo certo e jogou fora! Agora eu aposto que tem outro morando na sua casa com ela! E até dirigindo o seu carro, não é? Deve até contar histórias pras suas crianças…

Agora foi Charles quem olhou feio e cerrou o punho, e Eudes quem interrompeu:

– Ora, não vai falar que isso também não importa? Não faz diferença?

Depois do silêncio de Charles, Eudes continuou:

– Eu não sou tão burro assim, Charles. Sabe por que isso tudo aconteceu? Porque você é um covarde! O que eu tenho de ganancioso, você tem de covarde!

– Ah, deixa de ser palhaço! Você nem sabe do que está falando!

– Não? Charles, você é um figurão de uma empresa enorme! É claro que o que não ia faltar pra você seriam mulheres de moral duvidosa querendo tirar uma fatia pra elas, não é mesmo? O que não falta no mundo são homens e mulheres pra fazerem isso. E você foi covarde o suficiente pra não oferecer muita resistência, não foi? Então acabou se envolvendo, mas provavelmente a outra não deixava você dar fim no caso, ameaçando contar tudo pra sua mulher… Estou errado até agora?

O silêncio de Charles confirmou a hipótese.

– Então aí você foi covarde mais uma vez quando não tentou resolver você mesmo o problema! Enrolou até que a outra parte resolveu tentar dar a solução dela! Se tivesse encarado a idiotice que você fez, não teria sido pior do que realmente foi, teria? Charles, foi tudo covardia sua! E a maior de todas você vai fazer agora, ao invés de encarar a vida nova e a batalha que vai ser pra poder voltar a conviver com seus filhos, você prefere pular do prédio e deixar seu dinheiro todo com o sujeito que está lá na sua casa agora, brincando de casinha com a sua mulher e os seus filhos!

Charles não conseguiu mais se segurar e saiu do parapeito. Eudes levantou-se e deu dois passos em direção ao outro:

– Você é louco! Eu aqui, querendo pular porque não tenho dinheiro para salvar a minha família, e você aí, com tudo na mão para poder ficar numa boa! No seu lugar eu já tinha descido essas escadas e ido contar meu dinheiro!

– Espera aí! – gritou Charles, se desencostando do parapeito. – Você está nessa é pela sua ganância! Você é quem tinha tudo até inventar essa imbecilidade de armar resultados de jogos! Você está nessa é por causa dessa loucura por dinheiro! Louco, ganancioso!

Os dois agora estavam bem próximos e já berravam um com o outro:

– Louco é você, seu covarde! Ah, não faz diferença… Ah, não importa… Você não cansa de se esconder atrás disso não? Tome vergonha, você já adulto! Mexa-se, faça alguma coisa!

– Ah, com certeza! Vou fazer agora! – e empurrou Eudes contra a parede. O outro revidou, jogando Charles em direção ao parapeito. E assim a discussão se transformou num monte de chutes, socos, puxões e até uma mordida por parte de Charles.

Enquanto eles brigavam, vizinhos foram para as janelas de seus prédios e os pedestres pararam na rua, olhando para a briga que se desenrolava junto ao parapeito do terraço. Alguns olhavam com espanto, outros com medo e ainda alguns com o mórbido desejo de ver alguém caindo.

E lá no alto, junto ao parapeito do terraço, ganância e covardia continuam brigando para ver quem acaba com o homem primeiro.

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  • TERRAÇO
  • 3
  1. Ariana disse:

    Os finais dos seus contos são sempre impactantes. Parabéns, Flávio.

    28/abril/2015 ás 19:27
  2. Eliana Mara disse:

    Quanta realidade nesse conto!! Um subsídio para refletirmos sobre a situação do risco a autodestruição imposta pela condição do homem frente as barreiras (ganância, covardia, etc) constantemente acrescida por seu próprio jogo.

    28/abril/2015 ás 22:51
  3. Além de impactantes sempre tem um gran finale.
    Parabéns, Flávio.

    30/abril/2015 ás 17:20

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