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TERRA DE NINGUÉM

TERRA DE NINGUÉM

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 04, 02 de Dezembro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.12.02.002

William foi recrutado pela cenoura. Foi seduzido pela ideia de poder usar o uniforme do exército do império e os benefícios que a farda trazia: seria respeitado pelos homens e desejado pelas mulheres! Amado pela família, um exemplo para os garotos da vizinhança! Poderia se aventurar, sair da ilha e desbravar outras terras! E tudo isso cercado de vários jovens como ele! Não havia como a vida ser melhor!

A cenoura funcionou bem até o início da guerra. Alguns meses depois, a realidade já pedia o recrutamento pelo chicote.

E Geoffrey foi um dos recrutados no novo cenário. Já não havia mais como seduzir os jovens com benefícios: a devastação do primeiro ano de conflito acabou com o alistamento voluntário. Sendo assim, era necessário colocar belas moças nas cidades acusando de covardia qualquer homem que estivesse nas ruas sem uniforme. E Jeff, então, foi empurrado ao exército pela humilhação.

A necessidade fazia de Geoffrey um combatente aceitável. Enquanto jovens como William eram soldados perfeitos: altos, atléticos e bem treinados, aqueles recrutados durante o conflito eram substitutos bem menos capazes. Em qualquer outra ocasião, jovens como Jeff, cujo corpo caberia em metade do uniforme padrão e a uns dois anos de ver o primeiro fio de barba aparecer, não passariam nem pela porta do quartel.

Dois anos depois de iniciada a guerra, Will e Jeff estavam no mesmo lugar. Eles acabavam de chegar até a trincheira de onde, na manhã seguinte, partiria o maior ataque britânico do conflito:

– Jimmy, você trouxe o chá? – perguntou William ao soldado que estava ao seu lado.

– Sim! – respondeu. – Quer fazer agora?

– Pode ir começando enquanto eu vou ao banheiro! Não aguento mais!

Enquanto Jimmy aproveitava a chuva que caía para coletar alguma água limpa para o chá, Will usava uma lata para se aliviar. Resolvida a situação, era hora de eliminar os dejetos. Enquanto colocava parte da cabeça para fora, foi interrompido pelo jovem Geoffrey:

– Tome cuidado. A artilharia pode começar de novo!

– Que nada! Esses alemães dormem cedo!

William então saiu da trincheira em busca da latrina. Na verdade, o que eles apelidavam de banheiro era algum buraco qualquer que tivesse sido furado pelas bombas. Os canhões deixavam crateras em todos os ângulos e profundidades possíveis e os soldados tinham que aproveitar toda chance que tinham para aliviar a imundice da trincheira.

Na metade do caminho, entretanto, o céu se iluminou com disparos da artilharia alemã. A claridade expôs William, que se tornou alvo de disparos de metralhadora. O soldado correu de volta para a trincheira, tropeçando no terreno irregular e se jogando sobre seus companheiros:

– Ótima ideia, Will! – disse Frank ao tentar amortecer a queda do companheiro.

– Foi só pra divertir a turma um pouco! – respondeu William com uma risada. – Vocês não estão entretidos?

O soldado então se sentou ao lado do garoto que havia sugerido que ele não saísse da trincheira:

– Ei! Obrigado pelo aviso. Como você se chama?

– Jeff.

– Eu sou o Will. Então, Jeff, venha tomar chá conosco! O Jimmy fez com água da chuva, deve estar uma delícia!

Geoffrey concordou com a cabeça e foi até ao grupo que tomava o chá. Depois de tomar o primeiro gole, disse aos colegas:

– Bem, está ótimo mesmo! Talvez seja o melhor que possa ser feito nesse esgoto. Tenho que aproveitar bem, também pode ser o último, não?

Os demais se entreolharam, até que Will resolveu falar primeiro:

– Rapaz, mas quanta negatividade! Vamos sorrir um pouquinho!

– Sorrir um pouquinho? Você só pode estar louco, William. Você não vê o que acontece aqui?

– Pessoal! – gritou Will em direção à turma. – O Jeff vai contar o que está acontecendo aqui! Vamos gente, vamos ouvir!

Todos gargalharam e se voltaram para o garoto. Ele então começou a expressar a sua raiva:

– Vocês não entendem? Isso aqui é ridículo! Amanhã, quando todos nós ouvirmos os apitos, vamos correr direto para a morte! Direto para o fogo alemão! Isso é um absurdo! O que é que nós valemos? Nada! Nada!

– Conta algo novo agora, moleque! – berrou o soldado Frank do meio do grupo.

Geoffrey não se deixou interromper por muito tempo:

– Eles apitam e nós morremos! É assim que funciona! E com qual sentido? Pra empurrar os alemães alguns metros para trás? É para isso que nós jogamos nossas vidas no lixo? Saímos do esgoto da trincheira direto para a morte! Seja por bombas, por balas, gás, qualquer coisa! Vamos todos morrer, e morrer por nada!

Will então se levantou e colocou o braço ao redor do jovem:

– Jeff, você é mais novo do que a gente aqui. Todos nós sabemos disso, meu amigo. Só que não adianta chorar ou gritar. Não vai mudar nada. Nós fazemos piada sobre a nossa situação porque é a única coisa que nos resta. Olhe para o seu lado… só tem esgoto ao seu redor. Corpos jogados, cloro em todo o chão, todo esse sangue… nós temos que tornar isso aqui suportável.

– Mas… Will, eu vou morrer daqui algumas horas!

– Nós já estamos mortos, Jeff… nós sabemos disso. Vamos pelo menos nos divertir um pouco e torcer para estarmos entre os poucos que vão sair inteiros daqui amanhã.

– Quer dizer que eu tenho que aceitar que tudo o que importa é que nós derrotemos o inimigo? Que nosso império vença o deles? E a minha história? Não vale nada?

– Jeff, se acalme… venha, vamos pelo menos aproveitar o tempo que nos resta. Amanhã o dia vai ser bem longo!

O plano de batalha era simples: bombardear as defesas inimigas e o espaço entre as trincheiras britânicas e alemãs. Isso enfraqueceria a posição adversária e removeria o arame farpado para que os soldados atravessassem a terra de ninguém e atacassem os abrigos germânicos. Tudo bem fácil, pelo menos para os estrategistas que construíram o projeto ou para os oficiais que soprariam os apitos.

Para os soldados que teriam que atravessar o campo naquela manhã, nada parecia simples. Todo o deslocamento de tropas e materiais necessários para executar a operação alertou os alemães. Eles já estavam preparados para a artilharia e tiveram bastante tempo para treinar a passagem dos abrigos para as metralhadoras. Além disso, os bombardeios, apesar de extensos, foram pouco eficazes: ainda havia um mundo de arame farpado entre as trincheiras, e as forças inimigas não sofreram um golpe tão forte quanto o esperado. O cenário não parecia nada bom para a turma de Will e Jeff.

O primeiro apito soou e a primeira equipe saiu da trincheira. Foram dizimados pelo fogo alemão em segundos. Geoffrey observava com horror enquanto os oficiais apitavam mais uma vez. E outra. E mais uma. O resultado, é claro, não poderia ser diferente: mais bombas, mais tiros de metralhadora, mais britânicos mortos.

William também já estava abatido. Os apitos continuavam e os soldados deixavam suas posições apenas para caírem alguns metros depois. Geoffrey tinha razão: aquelas eram mortes inúteis.

A carnificina durou toda a manhã e a tarde. O total de baixas chegava aos sessenta mil e o espaço entre as trincheiras era puro horror, com os buracos abertos pela artilharia ocupados por corpos despedaçados e pelo sangue dos jovens. O lado alemão começava a sofrer o mínimo dano, e isso mantinha os oficiais britânicos apitando e mandando jovens ao abate.

O grupo de Geoffrey era o próximo. Já estavam perfilados e apenas aguardavam a ordem para saírem da trincheira. O garoto tremia e chorava, sabendo que as possiblidades eram quase nulas de que ele sairia com vida dali. Podia ver os colegas sendo dilacerados pelos tiros e pela artilharia. Quando ouviu o som do apito, foi obrigado a pular para dentro do inferno.

Nesse momento o grupo de William também estava pronto para adentrar a terra de ninguém. O soldado, entretanto, não chorava ou tremia, apenas acompanhava o jovem Jeff em sua aventura. O garoto corria com bravura, desviando-se dos buracos abertos e dos corpos dos colegas. As balas passavam ao seu lado, assim como pedaços de árvores arrancados pela artilharia alemã, mas o jovem continuava a sua corrida.

– Acho que ele vai conseguir! – disse Will.

O menino, porém, não conseguiu. William teve que ver seu companheiro ser atingido por um tiro de metralhadora e desabar no meio do terror. O soldado chorou.

Chorou pelo jovem que não devia estar nem mesmo no exército. Chorou pela sua família e pelos outros tantos mil que perderam a vida naquele desperdício. E chorou também porque a sua vez de colocar os pés nas trevas se aproximava.

Mas, como qualquer combatente que tenha sobrevivido tanto tempo nessa guerra, William era um sujeito de sorte. Seu apito não veio. Os oficiais estavam cansados de ver tantos soldados perdidos e decidiram encerrar a ofensiva junto com o início da noite. Era hora de lamentar e decidir o que seria feito amanhã.

Fez-se então algum silêncio. O barulho das metralhadoras cessou e o das bombas passou de constante para ocasional. Will aproveitava essa calma para tentar pelo menos cochilar um pouco. Porém, um gemido acabou por incomodá-lo:

– Frank, você está ouvindo? Escutou o gemido? – perguntou ao colega do lado.

– Sim, Will. Esse e mais uns cem.

– Acho que é o Jeff.

– Will, esqueça o Jeff. Como você sabe que essa é a voz dele? Isso é coisa da sua cabeça…

William deixou o colega falando sozinho e foi até a borda da trincheira. Ele precisou de que pelo menos cinco bombas iluminassem rapidamente o cenário para encontrar o combatente ferido que gemia na terra de ninguém. E de fato o soldado era Geoffrey, que não podia esconder a dor.

Will desceu correndo de volta e foi até Frank:

– É o Jeff! Precisamos ir até lá!

– De jeito nenhum! Nós também vamos morrer, seu louco!

– Mas nós temos que buscar o garoto!

– Não. Nós não podemos morrer todos para salvar um só!

William então tentou levar Jimmy:

– Will, é perigoso demais… e talvez ele nem sobreviva depois! – respondeu James.

O oficial também se negou, dizendo que era o único na trincheira e não poderia deixar os homens sem comando. O soldado, se quisesse salvar o companheiro, teria de ir sozinho.

E assim ele resolveu fazer. Da beira da trincheira ele agitou os braços para o garoto. Jeff conseguiu ver que era Will quem chamava por ele e os dois começaram a trocar sinais sempre que os clarões permitiam que eles se vissem. William gesticulava dizendo para Geoffrey esperar por ele. O garoto, por sua vez, balançava a cabeça e mandava seu companheiro ficar onde estava. Ele não poderia permitir que outro colega morresse por sua causa.

Will então resolveu que era hora de agir. A tarefa era terrível, já que para chegar ao companheiro ele teria que passar por pilhas de corpos e se desviar das crateras, pois uma queda poderia significar a sua morte. E essa era a melhor das hipóteses, pois os alemães poderiam bombardear aquela região a qualquer momento ou disparar suas metralhadoras, caso ele fosse visto.

O soldado caminhou, desviando-se dos problemas do caminho, até que a luz das bombas denunciou a sua presença. Ele levantou os braços e continuou caminhando, o que levou o alemão do outro lado a efetuar disparos próximos a sua cabeça. Eram tiros de aviso, uma ordem para que ele parasse.

William não obedeceu: ele não abandonaria Geoffrey. Nesse momento os bombardeios aumentaram, iluminando a terra de ninguém. Will avançava com os braços erguidos e da forma mais lenta possível e já estava chegando ao seu companheiro.

A linha de tiro era clara quando William se abaixou e colocou o garoto nas costas. Estavam os dois nas mãos dos inimigos. Nada poderiam fazer.

Do outro lado, todavia, não partiu mais disparo algum. Aqueles Wilhelms ou Gottfrieds que manejavam as metralhadoras não puderam atirar contra os dois soldados indefesos. Talvez eles temessem um dia passar pela mesma situação, ou talvez estivessem cansados de criar cadáveres. O mais provável, entretanto, é que eles tenham percebido que aqueles combatentes eram tão humanos quanto eles. O inimigo só tinha como diferença o uniforme.

Os dois britânicos retornaram para a trincheira. William foi recebido como herói e Geoffrey levado aos médicos. Agora o garoto voltaria para casa e seria reconhecido pela sua bravura. Poderia voltar a andar orgulhoso pelas ruas de sua cidade. Antes de ser retirado do pelotão, ele ainda gritou:

– Você não precisava fazer isso, Will! Você é louco! Por que você foi até lá?

– E deixar você morrer por nada? – respondeu o soldado. – A sua história também vale muito, garoto, assim como a de qualquer um de nós.

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  • 2
  1. Ariana disse:

    Texto envolvente, um convite à reflexão sobre a natureza humana.

    02/dezembro/2014 ás 16:21
  2. Texto muito triste porque nos faz lembrar que pode estar acontecendo
    agora mesmo na Ucrânia, na África ou no Oriente Médio.
    Dá mesmo o que pensar.

    04/março/2015 ás 17:50

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