SUPERGONORREIA

SUPERGONORREIA

Daniel Mendes Filho, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 4, N. 14, 11 de Setembro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.09.09.006

Corrimento vaginal, dor e ardência ao urinar, pus saindo pelo pênis, testículo inchado, inclusive dores abdominais!!! Sabe o que isso pode significar? GONORREIA! E, atente-se, gonorreias super-resistentes! Previna-se!

De todos os cenários apocalípticos imaginados, talvez o cientificamente mais plausível seja uma epidemia de alguma doença intratável. O uso banalizado e incorreto de antibióticos tem selecionado bactérias mais resistentes e virulentas desde a primeira guerra mundial com a popularização da penicilina (antibiótico produzido a partir do fungo Penicillium notatum).

Tal seleção, chamada cientificamente de seleção artificial, ocorre quando o antibiótico elimina do organismo apenas as bactérias frágeis, ao passo que as resistentes sobrevivem. Com isso, elimina-se a competição interespécies e as superbactérias ficam com mais espaço e nutrientes disponíveis – por conseguinte elas se reproduzem e disseminam com maior facilidade pelo organismo o que pode levar à septicemia, que é a infecção generalizada ou bactérias no sangue. Dentre os mecanismos de resistência bacteriana a antibióticos, os principais são: enzimas capazes de neutralizar as moléculas do antibiótico, sistemas de efluxo que ejetam o medicamento para fora do citoplasma bacteriano e mudança estrutural no alvo intrabacteriano do antibiótico.

Nesse contexto assustador de superbactérias, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou dados de uma pesquisa feita em 77 países indicando um aumento global na incidência de gonorreia resistente a antibióticos de primeira, segunda e terceira gerações! A gonorreia, causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, é a segunda infecção sexualmente transmissível mais comum afetando anualmente cerca de 78 milhões de pessoas (Figura 1). A gonorreia pode afetar a genitália, o ânus e a garganta. Suas complicações incluem doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e risco aumentado de contrair HIV.

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Figura 1: Neisseria gonorrhoeae, a bactéria causadora da gonorreia (https://commons.wikimedia.org/wiki/Main_Page

De acordo com esse estudo da OMS, em 97% dos países investigados detectou-se cepas de N. gonorrhoeae resistentes ao antibiótico ciprofloxacina (o qual é o mais utilizado contra gonorreia), em 81% deles detectou-se resistência a azitromicina. E o mais alarmante: em 66% dos países foram detectadas cepas resistentes a cefalosporinas de amplo espectro e ceftriaxone injetável, que são atualmente a última linha de tratamento para gonorreia. A OMS aponta como causas para o aumento global da “supergonorreia” a falta de diagnósticos adequados, menor prevenção com uso de preservativos e, é claro, tratamentos inadequados – ou seja, uso incorreto dos antibióticos.

“A bactéria se prolifera em áreas quentes e úmidas do corpo, incluindo o canal que leva a urina para fora do corpo, a uretra. Pode ser encontrada também no sistema reprodutor feminino, que inclui as tubas uterinas, o útero e o colo do útero. Existe, ainda, a transmissão de mãe para filho durante o parto ou quando este ainda está dentro do útero. Em bebês, a gonorreia costuma se manifestar principalmente nos olhos, na forma de conjuntivite grave, mas também pode haver infecção disseminada.

FATORES DE RISCO

Alguns fatores considerados de risco podem facilitar a contaminação com a bactéria causadora da gonorreia. Confira:

  • Pouca idade
  • Ter vários parceiros sexuais
  • Ter um parceiro com histórico de qualquer infecção sexualmente transmissível
  • Não usar camisinha durante o ato sexual
  • Uso abusivo de álcool ou de substâncias ilegais, que é um fator de risco para o sexo desprotegido.” (Figura 2).

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Figura 2: Principais sintomas da gonorreia (https://www.tuasaude.com/sintomas-da-gonorreia/)

Portanto, a Organização Mundial da Saúde tem incentivado um esforço internacional para prevenção da gonorreia, diagnósticos mais rápidos/precisos e o desenvolvimento de novas drogas antibióticas. Todavia, tão importante quanto o desenvolvimento de novas drogas é a conscientização dos profissionais de saúde e das pessoas em geral quanto ao uso de antibióticos, pois novas e mais letais superbactérias estão à espreita.

Então, previna-se, cuide-se, use camisinha sempre. Não deixe passar o barato tão caro assim!

REFERÊNCIAS

Tenover FC.Mechanisms of antimicrobial resistance in bacteria. Am J Med. 2006 Jun;119(6 Suppl 1):S3-10; discussion S62-70.

Papp JRAbrams AJNash E  et al. Azithromycin Resistance and Decreased Ceftriaxone Susceptibility in Neisseria gonorrhoeae, Hawaii, USA. Emerg Infect Dis. 2017 May;23(5):830-832. doi: 10.3201/eid2305.170088.

Hui BBWhiley DMDonovan BLaw MGRegan DGGRAND Study Investigators. Identifying factors that lead to the persistence of imported gonorrhoeae strains: a modelling study. Sex Transm Infect. 2017 May;93(3):221-225. doi: 10.1136/sextrans-2016-052738. Epub 2016 Oct 18.

<http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2017/Antibiotic-resistant-gonorrhoea/en/>

Wi T, Lahra MM, Ndowa F, Bala M, Dillon J-AR, Ramon-Pardo P, et al. (2017) Antimicrobial resistance in Neisseria gonorrhoeae: Global surveillance and a call for international collaborative action. PLoS Med 14(7): e1002344. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1002344

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