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SONHOS LÚCIDOS durante O sono: Podemos induzí-los?

SONHOS LÚCIDOS durante O sono: Podemos induzí-los?

Danilo Luna Campos, Alexandre Hiroaki Kihara, Vera Paschon

Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Centro de Matemática Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC

Vol. 1, N. 13, 24 de Junho de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.06.24.004

Quem nunca viu um filme de ficção em que os personagens vivenciam sonhos lúcidos? Podemos citar alguns entre muitos que tem feito sucesso, entre eles Waking Life, Vanilla Sky ou ainda Inception. Mas isso já não acontece apenas em filmes. Será que estamos mais próximos de um futuro onde podemos controlar nossos sonhos?

Pensando nessa questão, a Doutora Ursula Voss, da Universidade Johann Wolfgang Goethe, na Alemanha, junto com a sua equipe, descobriu que aplicar uma corrente elétrica suave no couro cabeludo pode induzir sonhos lúcidos.

O sono é dividido em duas fases: a fase REM (rapid eye movement ou movimento rápido dos olhos) e a fase NREM (non rapid eye movement ou movimento não rápido dos olhos) que é dividida em quatro estágios (Figura 1). REM é a fase onde ocorrem os sonhos, sendo considerado um estado primário de consciência que está relacionado com o presente imediato, mas pode acontecer um acesso descontrolado ao passado ou antecipação do futuro. Depois de despertar, começa a vigília, fase de consciência que introduz as funções cognitivas de ordem superior, tais como a consciência autorreflexiva, o pensamento abstrato, a vontade e a metacognição. Sonho lúcido é um estado único com propriedades tanto do sono REM quanto da vigília, fenômeno que provavelmente só ocorre em seres humanos, de forma que a ciência busca entender quais são os responsáveis pela criação desse momento. Nos sonhos lúcidos, os elementos da consciência secundária coexistem com a consciência primária, permitindo que o indivíduo se torne ciente do fato de que está sonhando, enquanto o sonho continua. Às vezes, o sonhador ganha controle sobre o enredo do sonho em curso e, por exemplo, é capaz de colocar um agressor em ação. No nível neurofisiológico, estudos do eletroencefalograma (EEG) e da ressonância magnética funcional (fMRI) têm mostrado que os sonhos lúcidos são acompanhados pelo aumento da sincronia de fase e da elevada atividade específica de frequência na faixa mais baixa de gama, em torno de 40 Hz, especialmente em partes frontais e temporais do cérebro. A atividade fronto-temporal nessa faixa de frequências está relacionada com a execução de funções do ego e da consciência secundária, o que é característico do estado de despertar humano e atípico para o sono REM.

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Figura 1: As fases do sono e vigília. A frequência (número de ciclos por tempo), a sincronia (unidade de tempo em que a onda se repete) e a amplitude (tamanho da onda) das ondas cerebrais são capazes de alterar a cognição e os movimentos corpóreos.

O observado aumento da atividade gama durante sonhos lúcidos tem levantado vários questionamentos teóricos. O sonho lúcido provoca atividade na faixa gama ou a atividade gama provoca o sonho lúcido? Talvez a capacidade de gerar atividade oscilatória gama prepare o estágio para o sonho lúcido, que pode, então, aumentar ainda mais a atividade gama. Além disso, o sonho lúcido é dependente da presença de atividade gama (condição necessária) ou essa consciência mais elevada em sonhos pode ser provocada por outras vias causais, tais como através da estimulação com outras frequências? A equipe da Dr. Voss testou essas hipóteses em 27 voluntários saudáveis ​​(15 mulheres, 12 homens, com idades entre 18-26) que eram inexperientes em sonhos lúcidos, pois se deveria criar um experimento imparcial [1]. Na área transcraniana fronto-temporal de cada voluntário foi aplicada a corrente de estimulação alternada (tACS) em várias frequências (2, 6, 12, 25, 40, 70 e 100 Hz) e sob condições simuladas. Esse método relativamente novo de estimulação cerebral não tem efeitos colaterais como ruído e sensações acústicas táteis, que são conhecidos por acompanhar a estimulação magnética transcraniana e podem resultar em distúrbios do sono. Já foi descrito que a corrente de estimulação alternada (tACS) pode modificar o desempenho perceptivo e cognitivo em vigília, em combinação com a estimulação transcraniana sobreposta em corrente contínua (tDCS), durante o sono. A atividade cerebral foi monitorada por EEG contínuo, eletro-oculografia (EOG) e eletromiografia (EMG). tACS foi aplicado durante aproximadamente 2 minutos de sono REM de forma ininterrupta, depois os sujeitos foram acordados e convidados a avaliar a consciência de sonho com base em um fator analiticamente derivado e validado (a escala de lucidez) [1].

Prévias investigações laboratoriais com a escala de lucidez mostraram que, em sonhos lúcidos, três dos oito fatores foram aumentados substancialmente: percepção sobre o fato de que se está sonhando, controle sobre o enredo de um sonho e assumir uma perspectiva de terceira pessoa. O EEG foi quantitativamente analisado por todas as condições de estimulação e simulações. O estado de vigília foi caracterizado por um forte aumento na faixa de frequência alfa, típico para acordar com os olhos fechados. Nas amostras de EEG analisadas​​, os indivíduos mantiveram sinais típicos de sono REM durante a estimulação, tal como evidenciado por EMG, EEG e EOG. Durante simulações ou estimulações baixas (2, 6, 12 Hz) ou com frequências mais elevadas (70 ou 100 Hz), nenhuma alteração em qualquer faixa de frequência foi observada.

Diferentemente do sono REM normal, no entanto, a atividade na faixa de frequência de gama mais baixa aumentou durante a estimulação com 40 Hz e, em menor grau, durante a estimulação com 25 Hz. Isso levou os cientistas a especularem que, embora o sono tenha sido mantido, a fase REM foi alterada e a estimulação realmente resultou em uma mudança de comportamento semelhante ao estado de sonho lúcido. Confirmou-se isso comparando as mudanças relativas antes e durante a estimulação. Observou-se que os voluntários mais frequentemente assumiram uma perspectiva de terceira pessoa após a estimulação com 40 Hz. Consistentes com pontuações das pessoas testadas, os aumentos induzidos pela estimulação da atividade na faixa de 40 Hz localizados na parte fronto-temporal (com relações de poder entre as fases 2 e 1) se correlacionaram com os resultados médios na escala de percepção de lucidez e de dissociação. No geral, isto sugere que a atividade na faixa gama inferior se relaciona com a consciência elevada autorreflexiva. Esses resultados fornecem a primeira evidência causal das oscilações corticais específicas de frequência em humanos induzidas pelo tACS. Além disso, essa experiência é a primeira a demonstrar consciência alterada, como consequência direta das oscilações de faixas gama induzidas durante o sono. Assumiu-se que a menor atividade gama é mediada pela ativação de interneurônios de uma rede neuronal rápida que é conhecida por gerar oscilações gama em redes corticais em estudos com animais. Essas redes corticais têm sido propostas como um portão de processamento sensorial, o que também pode permitir que o sonho lúcido ocorra de uma forma temporalmente específica.

No entanto, apesar de um aumento médio na menor faixa de gama ter sido significativamente forte na presença de sonhos lúcidos, isso também esteve presente na sua ausência. A hipótese dos cientistas é que uma estimulação na menor faixa gama aumenta a sincronização neuronal nessa faixa de frequências, o que prepara o terreno para a lucidez em sonhos.

Novas perguntas nessa área têm sido feitas. Será que a indução de sonhos lúcidos poderia ter aplicações clínicas? O tACS frontotemporal pode facilitar o ressurgimento de ritmos cerebrais intrínsecos e redefinir osciladores do tálamo. Esses osciladores são capazes de restaurar a conectividade da rede disfuncional do córtex pré-frontal dorsolateral (DLPFC) na esquizofrenia. O PFC pode ser ativado na esquizofrenia com predominância de sintomas negativos, e assim sincronizar ou suprimir a atividade dos gânglios basais, por exemplo, no caso do transtorno obsessivo-compulsivo. Finalmente, promovendo oscilações gama durante o sono REM em transtorno de estresse pós-traumático com pesadelos re-emergentes é possível desencadear sonhos lúcidos e, eventualmente, permitir mudanças ativas no conteúdo do sonho.

Referências bibliográficas

1. Voss, U, Holzmann, R, Hobson, A, Paulus, W, Koppehele-Gossel, J, Klimke, A & Nitsche, MA.. Induction of self awareness in dreams through frontal low current stimulation of gamma activity. Nature Neuroscience; doi: 10.1038/nn.3719

 

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  • SONHOS LÚCIDOS durante O sono: Podemos induzí-los?
  • 1
  1. Bom dia
    Faço isso ja a algum tempo com foto estimulaçao

    06/outubro/2014 ás 11:39

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