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SOLDADO

SOLDADO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 14, 06 de Julho de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.07.06.007

A primeira coisa que ele viu foi o comandante puxando seus ombros para retirá-lo da boca da besta. Estava todo coberto pela malcheirosa saliva daquele monstro quando olhou para as mãos que o carregavam e viu nelas as marcas das garras da criatura, que ainda não havia desistido de vencer a disputa pela sua posse. Desceu os olhos pelo corpo e viu seu uniforme de soldado praticamente intacto até a altura do peito: daquele ponto para baixo ainda era impossível ver qualquer coisa.

Aquele animal enorme responsável pelo ataque, uma criatura vil de pelos brancos e lisos, depois de receber um último safanão do comandante, abaixou suas orelhas peludas e choramingou, abandonando a luta e reconhecendo a sua derrota. O monstro voltou para a sua caverna sem conseguir levar o soldado inteiro para dentro da escuridão, enquanto o comandante o carregou correndo para a base.

Depois de voltar ao quartel, o soldado foi jogado pelo seu comandante sobre uma cama improvisada. O leito não era macio: cabiam ali cinco ou seis corpos como o dele, o topo era feito de material plástico branco e sustentado por uma pilha de papéis, mas isso não era hora de se preocupar com qualidade de sono. Era melhor ocupar-se de avaliar os danos e de tentar recuperar a memória do que havia acontecido.

Ele não sentia nada. Não havia dor ou sangramento, apenas sabia que ainda estava envolvido pelo fedor da saliva daquela monstruosidade. Que dentes afiados ela tinha! Tentou mover os braços, mas não obteve resposta. O mesmo aconteceu quando tentou mexer as pernas, e algum tempo depois ele percebeu que só podia mesmo movimentar seus olhos. Neste momento, o comandante retornou:

– Você vai ficar bem! Já está tudo bem! Nós já escapamos!

O soldado ouviu as palavras ao mesmo tempo em que ouvia os gritos da besta. Eram gritos repetidos, vindos em sequências de três ou quatro, e que para ele eram aterrorizantes. Ela ainda estava lá, na janela da base, olhando para dentro do quartel com aqueles olhos grandes e escuros. Ainda gritava por ele.

Alguns segundos depois, ele não viu mais nada. Estava coberto por um cobertor enorme e felpudo jogado sobre o seu corpo. O comandante ainda apertou a manta sobre ele e esfregou bastante, livrando seu soldado da desagradável saliva. Ele então colocou o ferido sentado, acariciou sua cabeça e disse:

– Eu vou consertar tudo, ok? Enquanto isso, você vai ser nosso veterano de guerra!

Agora sentado, o soldado viu que o monstro de fato não havia conseguido levá-lo inteiro para sua caverna, mas era bem provável que sua perna esquerda estaria lá dentro, já que não podia mais vê-la presa ao seu quadril. Era isso que o general consertaria então.

Isso era horrível! Ele não se lembrava de nada, mas parecia jovem, saudável, forte! E agora, sem um pedaço do corpo e sem memória, o que poderia fazer? Nem mesmo podia mover-se, tinha apenas que ficar sentado, sem poder fazer nada além de olhar para sua perna incompleta e para a espaçosa base.

No dia seguinte, do seu novo leito, ele viu seus colegas espalhados pelo campo de batalha. Os que tinham uniforme verde, como o seu, batalhavam contra aqueles de uniforme marrom. A obediência dos dois grupos, no entanto, era ao mesmo general, que definia todas as posições e funções de cada soldado.

Se todos estavam parados aguardando o mesmo comandante dar as ordens, imaginou que isso só poderia ser um treinamento. O general deveria estar treinando as suas tropas, mas com qual objetivo, então? A resposta ele teve ao olhar mais uma vez pela janela que ficava do outro lado da base: lá estava de novo a besta olhando para dentro da base com a língua para fora entre seus afiados dentes.

Depois de quase uma hora de batalha em que ninguém se movia sem ser por intervenção direta do comandante, os soldados acabaram todos jogados sobre o chão da base. O veterano, olhando tudo de sua cama, concluiu que deviam estar extenuados depois de tanto esforço. Enquanto isso, o general saiu da base e abriu a porta em direção à caverna da besta.

Ao ver o comandante passar pelo pequeno deserto depois da entrada da base e entrar na planície verde que abrigava a caverna da besta, o soldado ferido pensou que talvez seu general ainda estivesse em busca da perna perdida. Afinal, ele prometera resolver o problema, iria ficar tudo bem! Mas da sua cama ele não podia ver nada fora da base além do que a janela permitia, e logo o general já saiu do seu campo de visão. Só podia ouvir alguns gritos que imaginava ser dele sendo abafados por outros, bem mais guturais, ritmados e assustadores.

Alguns minutos depois, o comandante retornou à base. Parecia bastante cansado e estava com as roupas sujas e cheio daquela saliva fedorenta, mas mesmo assim dava risadas. Nada parecia fora do lugar, mas ele não trazia a perna de volta. Era provável que ele a traria outro dia, pelo menos assim esperava seu veterano de guerra. O general então agrupou cada um dos seus obedientes soldados e os levou de volta aos dormitórios de cada divisão. Enquanto conduzia os demais, ainda parou para falar com o ferido:

– Vai dar certo, eu vou consertar tudo!

E assim seguiram-se vários dias. Após o meio-dia o comandante retirava todos os soldados de seus dormitórios, espalhava-os por toda a base e começava os mesmos eventos do dia anterior. Enquanto isso, o agora veterano de guerra apenas observava seus antigos colegas seguindo as ordens: ninguém nem mesmo poderia se desviar de um tiro sem que fosse por ação do chefe. Algum tempo depois o general partia para a caverna da besta e retornava de lá depois de alguns urros.

E o veterano observava tudo de sua cama. Ele pensava já estar bem, mas era mantido sentado no leito, olhando fixamente para frente, vendo sua perna ausente no primeiro plano e todas as ações ocorridas na base ao fundo. Desejava ao menos um rifle, assim poderia aproveitar os exercícios diários e aprender aos poucos a atirar lá de longe. Poderia tornar-se um atirador de elite um dia, e quem sabe até vingar o ataque que sofreu da besta quando ela estivesse embaçando a janela com seu nariz preto e úmido.

Mas o comandante não lhe dava rifle, granada ou lança-foguetes. Ele não recebia nada além de promessas de que tudo ficaria bem.

Mais uma série de dias idênticos se seguiu, e a situação não se alterava. O general iniciava o conflito e, quando os soldados já estavam exaustos, saía em direção à caverna da besta. A única coisa diferente que o veterano observou foi que o seu chefe passou a lhe dar cada dia menos atenção, dirigindo-se a ele apenas uma vez a cada três dias. Também pensou ouvir algumas risadas agudas do comandante quando este saía para a caverna daquele quadrúpede branco e peludo, que continuava com os mesmos gritos. Devia ser algum truque dele para conseguir sua perna de volta.

Os dias continuavam iguais e ele já não suportava mais as mesmas cenas todos os dias. Os colegas mantinham seu conflito fútil, obedecendo aos comandos do general, que depois saía para ver a besta e retornava para recolher seus comandados e enfiá-los de volta nos seus alojamentos. Ele não queria mais ser soldado, não fazia sentido nenhum. Tudo bem se eles ainda tivessem um inimigo para enfrentar, mas cada vez mais ele parecia não existir. Tudo o que faziam era esforço sem razão, eles nunca lutariam de verdade.

E num outro dia, depois de ouvir risadas e mais risadas vindas do lado de fora da base, ele teve certeza de que ninguém sairia dali para enfrentar besta alguma. Aquele animal peludo era diversão para o comandante, não era inimigo nenhum. Não havia inimigo então e o destino era esse: lutar entre eles mesmos durante o tempo que o comandante quisesse.

Depois dessa conclusão, ele não só não desejava mais ser soldado, mas passou a sentir pena dos seus antigos colegas. De fato, além de não querer ser mais como antes, ele agora ainda alimentava raiva do comandante, daquele gigante terrível que provocava conflitos inúteis todos os dias e ainda por cima ficava de risadas quando se juntava à besta! Maldito colosso de voz fina!

Até que um dia, como em todos os outros, o comandante espalhou seus soldados, provocou uma hora de conflito e mais uma vez saiu para a caverna da besta. No entanto, ao voltar à base e agrupar os soldados, ele não os levou direto aos dormitórios. Ao invés disso, carregando a perna perdida, dirigiu-se ao veterano e disse:

– Não disse que ia dar um jeito?

Ele então puxou o ferido e deixou-o deitado, olhando para cima. Quando ergueu novamente o soldado, sua perna já estava no lugar certo, presa por fita adesiva transparente. O antigo veterano então foi recolocado junto ao grupo de soldados de uniforme verde e conduzido ao seu dormitório.

E a partir do dia seguinte ele voltou a ser soldado. Voltou à sua antiga função de ser levado do dormitório à base, de obedecer às ordens do comandante e de combater seus colegas de uniforme marrom. Não via mais nada, não fazia observações e nem pensava, apenas era puxado, esticado e jogado. Ele agora voltava a ser joguete de moleque, como lhe fora imposto desde sempre.

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  • 3
  1. Ariana disse:

    Abordagem criativa, que desafia a percepção do leitor. Adorei!

    07/julho/2015 ás 21:12
  2. Eliana Mara disse:

    Assim é o nosso dia a dia…. temos todos igual poder: somos soldados e comandantes nas “guerras” onde escolhemos entrar. Nessa “guerra” o comandante é o nosso livre arbítrio, e é ele que nos coloca entre aliados ou entre inimigos, é ele que nos permite escolher disparar bombas de discórdia ou granadas de Paz.
    Temos a escolha em nossas mãos, diariamente!

    12/julho/2015 ás 14:31
  3. Flávio,
    Murilo Rubião está se revirando no túmulo de inveja
    de você, pelo seu conto. Nosso dia a dia, em nosso País, está nos transformando
    em soldados sem pernas.

    13/julho/2015 ás 19:11

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