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RESTRIÇÃO CALÓRICA AUMENTA A EXPECTATIVA DE VIDA E REDUZ DIVERSAS DOENÇAS CEREBRAIS

RESTRIÇÃO CALÓRICA AUMENTA A EXPECTATIVA DE VIDA E REDUZ DIVERSAS DOENÇAS CEREBRAIS

Edição Vol. 3, N. 16, 21 de Setembro de 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.09.21.003

Já ouviu falar que diminuir a ingestão de alimentos é suficiente tanto para emagrecer quanto para eliminar diversas doenças atuais e aquelas que surgem com a idade? Pois é, há anos os cientistas estudam como a Restrição Calórica (RC) ajuda na redução de problemas de saúde relacionados com a idade, entre eles a arteriosclerose, o diabetes, a hipertensão, a insanidade, doença de Alzheimer, doença de Parkinson, acidente vascular cerebral (AVC), entre outras. E, agora, cientistas brasileiros demonstram como isso ocorre de fato!

Quando ouvir alguém dizendo que, para emagrecer é necessário fechar a boca ou parar de se alimentar, podem desconfiar e desacreditar a informação. Há inúmeras dicas de dietas na internet, na televisão e, inclusive, dadas por falsos médicos ou os chamados “picaretas de plantão”, que iludem a população com falsas promessas levando a problemas de saúde muito mais sérios posteriormente.

A verdade é que os cientistas vêm estudando as dietas que são saudáveis ao corpo e à mente há muitos anos. E é sabido que a dieta na qual você pode comer de tudo, porém moderadamente, é a mais saudável. Você pode comer de tudo, um pouco. Nessa dieta não há restrição de qualquer classe de alimentos, mesmo porque todos são nutrientes necessários para o funcional adequado de nosso corpo. Quando se faz uma dieta em que se para de comer, qualquer classe de alimento, por muito tempo, pode-se levar à desnutrição do corpo e sérios problemas de saúde poderão advir por conta dessa “boca fechada”.

Uma das grandes dúvidas que se tinha sobre como a Restrição Calórica poderia, além de emagrecer, inibir várias doenças foi descoberta pela cientista profa Dra Alícia Kowaltowiski do Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo, capital, em conjunto com seu grupo, uma das grandes cientistas indicadas ao Prêmio Cientistas e Empreendedor do Ano Instituto Nanocell.

A profa Dra Alícia Kowaltowiski também participará do Congresso do Instituto Nanocell que será realizado entre os dias 17-20 de Outubro no INPA, Manaus (Acesse e faça sua inscrição pelo site www.institutonanocell.org.br/events/).

A restrição calórica (RC) protege contra muitas condições patológicas cerebrais que estão associadas com lesões excitotóxicas e a sobrecarga de cálcio, embora os mecanismos não sejam bem conhecidos. Aqui a profa Alicia e o Dr Ignacio Amigo (primeiro autor do estudo) mostraram que a RC protege fortemente contra insultos de excitotoxicidade in vitro e in vivo de uma forma associada com alterações significativas na função mitocondrial. As mitocôndrias são as organelas produtoras de energia dentro das células. A RC aumenta a atividade da cadeia de transporte de elétrons, aumenta as defesas antioxidantes e favorece a capacidade de retenção de cálcio mitocondrial no cérebro. Em conjunto, os resultados indicam que a capacidade de retenção de cálcio mitocondrial aumentada está na base dos efeitos benéficos da RC contra condições de excitotoxicidade. Esta proteção pode explicar os muitos efeitos benéficos da RC no envelhecimento cerebral.

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Figura 1: Restrição calórica é reduzir a quantidade que se come; pode-se comer de tudo um pouco e não parar de comer uma classe específica de alimentos, como a gordura por exemplo. Ela é essencial para o funcionamento adequado de nosso organismo!

 

“Mecanismos que aumentam a longevidade e, talvez mais importante, promovam longos períodos de saúde (incidência menor ou tardia de doenças relacionadas com a idade) sempre atraíram a atenção. A intervenção mais eficaz conhecida atualmente em prevenir os declínios mental e da saúde relacionados com a idade e promover dias melhores e saudáveis em uma ampla variedade de organismos, que vão desde as leveduras até nós, primatas, é a restrição calórica (RC). Esta intervenção dietética consiste tipicamente de uma redução de 20-40% da ingestão calórica sem a limitação de micronutrientes em relação a uma dieta ad libitum. Mas o que isso significa? Nossa ingestão diária de calorias considerada normal está em torno de 2000 Kcal. As calorias de todos os alimentos estão descritas em suas embalagens, nas quais constam a dieta diária de 2 mil Kcal mais as calorias por grama do alimento, além de sua composição em carboidrato, gorduras e proteínas, vitaminas e sais. Se temos que reduzir a ingestão calórica diária entre 20-40% significa que temos de ingerir em torno de 1200 a 1600 Kcal diárias, ad libitum (isto é, comer “à vontade”, de tudo, porém, um pouco). Os benefícios da RC em vertebrados incluem a prevenção de doenças metabólicas, cardíacas, vasculares, proliferativa e neurológicas (1).

Talvez o grupo mais marcante de doenças relacionadas com a idade que são prevenidas pela RC esteja no cérebro. Um grande número de desordens neurológicas está relacionado com a idade, e a RC foi demonstrada em prevenir estas perturbações (2). A RC também melhora os declínios de memória e capacidade de aprendizagem relacionados com a idade observados em animais idosos (3). Embora os mecanismos pelos quais a RC exerça seus efeitos sejam poucos compreendidos, as mitocôndrias, como reguladores mestres do metabolismo celular, acreditam-se desempenhar um papel importante nas adaptações celulares que ocorrem com a dieta. Enquanto alguns trabalhos iniciais sugeriram que a RC aumenta a massa mitocondrial, resultados conflitantes lançaram dúvidas sobre a validade desta observação (4). No entanto, a função mitocondrial pode ser regulada de forma independente dos aumentos de sua massa: a RC foi demonstrada em promover a desacetilação de um grande número de proteínas mitocondriais de maneira tecido-específica, principalmente através da desacetilase SIRT3, sugerindo que possa atuar como um disparador molecular para promover a fosforilação oxidativa sob condições de jejum ou RC (5).

Estudos recentes demonstram que a Restrição Calórica:

  • Atrasa o curso de distúrbios, doenças, relacionados com a idade;
  • Aumenta a resistência ao estresse;
  • Desacelera o declínio funcional do corpo e da mente, isso significa que você vive mais e com sanidade;
  • Aumenta a longevidade numa variedade de organismos usados em laboratório, inclusive um macaco;
  • Estende um período de vida relativamente saudável, livre de doenças que estão associadas com a idade.

No cérebro, os aumentos na atividade mitocondrial podem alterar a suscetibilidade à excitotoxicidade (6) (veja mais em EXCITOTOXICIDADE E DOENÇAS NEUROLÓGICAS), um processo patológico associado com muitas condições neurológicas relacionadas com a idade, tais como acidente vascular cerebral, doença de Alzheimer e doença de Parkinson, em que a ativação excessiva de receptores pós-sinápticos resulta na morte celular (7, 8) (veja mais em UMA SINAPSE EM TRÊS DIMENSÕES: Como os neurônios conversam entre si). Este processo neurodegenerativo envolve a ligação dos neurotransmissores glutamato ou análogos de glutamato aos receptores NMDA e AMPA, resultando em aumentos patológicos nos níveis citosólicos de cálcio e um rápido decréscimo nos níveis de ATP, devido à ativação de vias de restauração do equilíbrio iônico. As mitocôndrias são o principal local de produção de ATP em neurônios e contribuem para o tamponamento do cálcio celular por acumulação desse íon de uma maneira dependente do potencial de membrana. De fato, as intervenções que aumentam a capacidade de tamponamento do cálcio mitocondrial protegem contra condições de excitotoxicidade e afins (9) (Figura 2).

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Figura 2: Processo de excitotoxicidade em neurônios glutamatérgicos. Durante a cascata excitotóxica, a grande liberação de glutamato gera um grande influxo de Ca+2 através do receptor de NMDA. O aumento exagerado de Ca+2 dentro da célula gera acúmulo na mitocôndria, o que pode desencadear aumento da produção de espécies reativas de oxigênio e levar as células à morte por apoptose. A estimulação exacerbada destes neurônios também desencadeia a exocitose de mais neurotransmissores, que por sua vez, amplificam o fenômeno de excitotoxicidade.

Curiosamente, enquanto o jejum intermitente (uma intervenção dietética que consiste em oferecer comida ad libitum, em dias alternados) foi descrito em ser neuroprotetor sob condições de excitotoxicidade (10, 11), os efeitos da RC sobre excitotoxicidade não foram bem explorados até à data. Além disso, ideias mecanicistas em direção a possíveis efeitos neuroprotetores desta dieta são ainda escassos. O objetivo do estudo da Dra Kowaltowiski foi determinar os efeitos da RC sobre a excitotoxicidade e dissecar os mecanismos moleculares envolvidos.” (12).

“No geral, eles demonstraram que a RC é uma intervenção altamente eficaz para prevenir a morte celular neuronal excitotóxica, aumentando a capacidade antioxidante, taxa respiratória mitocondrial, impedindo a permeabilidade mitocondrial e aumentando assim a capacidade de acumulação de cálcio, resultando em morte celular reduzida. Estas propriedades podem ser centrais para o mecanismo através do qual esta intervenção dietética promove seus diversos efeitos neurológicos benéficos” (12).

Referências

1.Fontana L, Partridge L. Promoting health and longevity through diet: from model organisms to humans. Cell. 2015;161(1):106-18.

2.Amigo I, Kowaltowski AJ. Dietary restriction in cerebral bioenergetics and redox state. Redox biology. 2014;2:296-304.

3.Witte AV, Fobker M, Gellner R, Knecht S, Floel A. Caloric restriction improves memory in elderly humans. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 2009;106(4):1255-60.

4.Lanza IR, Zabielski P, Klaus KA, Morse DM, Heppelmann CJ, Bergen HR, 3rd, et al. Chronic caloric restriction preserves mitochondrial function in senescence without increasing mitochondrial biogenesis. Cell metabolism. 2012;16(6):777-88.

5.Lombard DB, Alt FW, Cheng HL, Bunkenborg J, Streeper RS, Mostoslavsky R, et al. Mammalian Sir2 homolog SIRT3 regulates global mitochondrial lysine acetylation. Molecular and cellular biology. 2007;27(24):8807-14.

6.Pinto MC, Resende RR. EXCITOTOXICIDADE E DOENÇAS NEUROLÓGICAS. Nanocell News. 2014;2(4).

7.Nicholls DG. Mitochondrial calcium function and dysfunction in the central nervous system. Biochim Biophys Acta. 2009;1787(11):1416-24.

8.Pinto MXC, Resende RR. UMA SINAPSE EM TRÊS DIMENSÕES: Como os neurônios conversam entre si. Nanocell News. 2014;2(3).

9.Li V, Brustovetsky T, Brustovetsky N. Role of cyclophilin D-dependent mitochondrial permeability transition in glutamate-induced calcium deregulation and excitotoxic neuronal death. Experimental neurology. 2009;218(2):171-82.

10.Sharma S, Kaur G. Neuroprotective potential of dietary restriction against kainate-induced excitotoxicity in adult male Wistar rats. Brain research bulletin. 2005;67(6):482-91.

11.Contestabile A, Ciani E, Contestabile A. Dietary restriction differentially protects from neurodegeneration in animal models of excitotoxicity. Brain research. 2004;1002(1-2):162-6.

12.Amigo I, Menezes-Filho SL, Luevano-Martinez LA, Chausse B, Kowaltowski AJ. Caloric restriction increases brain mitochondrial calcium retention capacity and protects against excitotoxicity. Aging cell. 2016.

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  1. Jose Nestor da Silva disse:

    Um bom texto sobre RC, que nos dá conhecimentos e a ousadia de colocá-los em prátic

    07/janeiro/2017 ás 17:16

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