Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

REGIME SEMIABERTO

REGIME SEMIABERTO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 3, N. 9, 19 de Abril de 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.04.20.006

Às seis as luzes do alojamento são acesas. Kléber não abre os olhos, mas os passos pelo corredor só podem significar que já é hora de se levantar. Um “bom dia” ao agente, um aceno para os companheiros que começam a deixar suas camas e pronto: é hora de começar outro dia.

Bruna também começa seu dia por volta desse horário. Porém, enquanto Kléber ainda olha para o teto, contando quantas das lâmpadas tubulares já se queimaram, ela já se encontra de pé em frente ao fogão. Ligar para o doutor Vasconcelos às dez, atualizar o telefone do hospital na agenda…

Depois de terminar o seu café, Kléber aguarda no refeitório a hora de abertura do alojamento. Ainda tem uns quarenta minutos até bater o cartão, deve ser tempo suficiente para dar uma volta pelo pátio. É bom poder fumar pelo menos um cigarro antes de começar o serviço. Pelo menos aqui, desde que o cartão passe pelo relógio na hora certa, ninguém tem problemas por causa de um cigarrinho.

O ponto de Bruna ainda está bem distante. Na verdade, a uns dezesseis quilômetros de distância. Ela sobe no primeiro ônibus pouco depois das sete, após aguardar na fila por alguns minutos. Tanta gente… São tantos ônibus, tantos carros, motos, caminhões… Todos enfileirados até o destino, sem nenhuma alternativa.

Bem que uma pena alternativa não seria ruim, talvez prestar serviços comunitários… Mas Kléber não pode reclamar tanto, afinal, a Colônia Agrícola é bem melhor do que qualquer penitenciária de segurança máxima desse país. Ao menos ali há um mínimo de liberdade e a chance de ser morto sem motivo é bem menor. E ele ainda pôde aprender o ofício de soldador, quem sabe não vai conseguir um emprego na… Não, provavelmente não. Mas é melhor manter alguma esperança…

Bruna também tinha esperança de chegar ao serviço no horário, mas essa ela já perdeu há uns quarenta minutos, quando viu o engarrafamento sobre o viaduto. Mais um acidente… Todos os dias ela encontra pelo menos um pelo caminho. E como está quente, não? Será que sempre foi assim, ou isso é culpa nossa? Sabe, por causa desse monte de fumaça, dessa quantidade enorme de cimento, de asfalto, de coisas cinza…

Melhor dar uma paradinha e dar uma volta, o calor está demais! Kléber então retira os óculos embaçados e enxuga o suor do pescoço. Sai do galpão e dá uma curta caminhada até o bebedouro. Pelo menos pode ver um pouco de verde, as vacas pastando próximas à Portaria… Portaria, é assim que chamam esse lugar. Daqui, o próximo passo é a rua, seja por progressão para o aberto, por soltura ou por evasão numa saída concedida num feriado desses…

Feriado… Ainda bem que o escritório vai emendar o próximo! Bruna acabou de colocar seu dedo no relógio de ponto: cinquenta minutos de atraso. Até que não foi dos piores, já perdeu manhãs inteiras dentro do ônibus. Hora de abrir a agenda e ligar para… para quem mesmo? Devia ter anotado, quem é que se lembra de alguma coisa hoje em dia?

O almoço com os companheiros não tem muitas novidades, a não ser pelo ajudante de Kléber na oficina, que escapou na tarde de ontem. Mas quem não foge da Colônia, não é mesmo? Até os agentes ficam confusos quando alguém fica muito tempo na Portaria e começam a perguntar para o sujeito se ele não vai fugir. Mas também, fugir para onde? Tem mais emprego do lado de dentro do que do lado de fora.

Bruna bem que queria ter almoçado fora, mas é melhor ficar quietinha mesmo… Essas horas atrasadas no ponto sempre são motivo de dor de cabeça. Chegar mais cedo, sair mais tarde… Mas como? Seria melhor dormir logo no escritório, talvez se tivesse um chuveiro… Mas também, ficar para quê? Pagar horas apenas por elas mesmas? Não tem telefone à noite, não tem reunião, não tem ninguém precisando de café…

Maldito dia em que foi fazer bobagem. Agora Kléber apenas paga horas, paga pela burrice de ter arrombado o carro errado, no dia errado. Era pra ser rapidinho, mas num segundo ele já tinha cometido uns três crimes diferentes. Todos os dias têm milhares de carros arrombados por aí, mas quando foi a vez dele, teve que passar alguns anos na cela e depois mais um tempinho na Colônia. Pelo menos aqui ele pode se distrair com o trabalho, aprender alguma coisa na biblioteca…

Screen Shot 2016-04-20 at 10.01.51 AM

Figura modificada de http://www.danypadilla.com.br/medo/

Um tempo no whatsapp, uns doces trocados de lugar… Depois das quatro quase ninguém visita ou liga para a empresa. Bruna queria saber se está chovendo, quando chove parece que todos desaprendem a dirigir e fica mais difícil ainda voltar para casa. Fora a espera no ponto, a panela de pressão que se torna o ônibus com tanta gente fechada respirando no mesmo lugar… Melhor levantar e ir até a cozinha, pelo menos lá tem uma janela.

Kléber está próximo do fim do dia. Já colocou o cartão na máquina, agora tem uma meia-hora livre até que o alojamento seja fechado. Caminha pelo pátio e vê alguns pequenos grupos sentados sob as árvores e fumando cigarros artesanais. Eles são bem comuns na Colônia, os presos que saem para algum final de semana sempre retornam com presentes para os outros. É normal, os agentes ignoram tudo para poder manter a paz. Ele também se coloca embaixo de uma árvore, olhando para o lado de fora, para as árvores além da Portaria, para o caminho que seu ajudante deve ter tomado ontem… Não, não vale a pena correr o risco, falta pouco. O alojamento já vai ser trancado, é hora de voltar.

Para Bruna, é hora de voltar para casa. Ou melhor, quase. Ela ainda tem que passar pela faculdade para entregar um trabalho e depois comprar algo para o jantar. O trânsito continua parado. Não tem chuva, mas deve haver um outro motivo qualquer para a retenção: pode ser uma manifestação, uma blitz da polícia, um carro quebrado ou, por que não, mais um acidente. O que importa é que ela não vai sair dali tão cedo.

Kléber não vai à biblioteca hoje, prefere ir direto para a cama. Ele se deita com os braços atrás da cabeça e descansa, certo de que está próximo de deixar o regime semiaberto.

Bruna continua no ônibus, sem espaço para abrir os braços… E sem esperança de progressão de regime.

Print Friendly
  • REGIME SEMIABERTO
  • 3
  1. Ariana disse:

    Kléber certamente tem jornada de trabalho não superior a 8 horas, com descanso nos domingos e feriados e a Bruna, no ônibus lotado, deve estar lamentando o fato de não poder integrar o grupo que receberá a vacina contra a gripe…

    22/abril/2016 ás 20:26
  2. Geraldo Amarildo disse:

    Excelente conto. Parabéns!

    22/abril/2016 ás 20:37
  3. Geraldo Amarildo disse:

    Excelente. Parabéns!

    22/abril/2016 ás 20:38

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>