RECEITA PARA FAZER UM FÍGADO SOB MEDIDA

RECEITA PARA FAZER UM FÍGADO SOB MEDIDA

Daniel Mendes Filho, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira 

Edição Vol. 4, N. 14, 11 de Setembro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.09.09.005

Você já ouviu expressões como essas? “Que sensação ruim de enjôo, náusea…”; “Ai, que vontade de chamar o “Juca”!”; “Nossa, como você está amarelo! Isso pode ser icterícia.”; “Meu fígado já não é mais o mesmo…”. Pois é, o fígado é uma grande glândula que regula todo nosso organismo e, se ele não vai bem… certamente nossa saúde está a beira de um colapso. Então, como resolver isso? 

O fígado é a maior glândula do corpo humano e sem dúvida um dos seus órgãos mais importantes. A ele são atribuídas funções como neutralização de toxinas, metabolismo de medicamentos, produção de proteínas transportadoras (como transferrina e albumina), armazenamento de glicose e produção de bile (fluido essencial para digestão de gorduras). Diante de funções tão variadas e essenciais, percebe-se que doenças hepáticas têm um impacto muito negativo sobre o organismo. Dependendo do grau de comprometimento do fígado, não há outra saída senão o transplante, com todos os problemas a ele associados: desde a espera na fila de transplantes, até o risco de rejeição do órgão transplantado.

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Por isso, há anos vêm-se estudando tratamentos alternativos que dispensem a necessidade de transplante. Nesses estudos incluem-se técnicas de bioengenharia visando a construir um fígado inteiro e, portanto, dispensar a necessidade de transplante. A pesquisa da Professora Dra Kelly Stevens e colaboradores, do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), tornou esse objetivo um pouco mais possível. Sobre uma matriz feita com hidrogel degradável, os cientistas depositaram os “ingredientes” para construir um fígado: hepatócitos (que são células constituintes do fígado), células endoteliais (as quais formam a parede interna dos vasos sanguíneos), fibroblastos (células sintetizadoras de colágeno) e células estromais (que fazem parte do tecido conjuntivo e mantém a arquitetura dos órgãos). Todos os “ingredientes” foram de tecidos humanos.

Com a “receita” pronta, os pesquisadores a implantaram em camundongos com lesão hepática e observaram ao longo de 11 semanas que esse tecido artificial cresceu mais de 50 vezes! Tal crescimento foi atribuído a moléculas produzidas pelo fígado lesado, o qual não fora extraído do animal. Os estudos demonstraram, ademais, que esse “mini-fígado” humano foi capaz de produzir nos corpos dos camundongos diversas proteínas hepáticas, inclusive albumina e transferrina. As surpresas não param por aí: ao analisar o órgão no microscópio, verificou-se que ele apresentava lóbulos hepáticos – formados por veias, artérias e ductos biliares- além de outras estruturas histológicas de um fígado normal (Figura 1). 

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Figura 1: Imagem de microscopia do fígado artificial (hepatócitos em verde, vasos sanguíneos em rosa) (STEVENS et al, 2017).

Portanto, esse trabalho foi um passo importante para a Medicina Regenerativa e no futuro essa “receita” pode ser usada para fabricar fígados sob medida, sem fila de espera para transplantes ou riscos de rejeição.

Trabalhos semelhantes, porém com outras abordagens estão sendo realizados no Laboratório de Sinalização Celular e Nanobiotecnologia do ICB-UFMG, por meio da Doutorando Rebecca Vasconcellos e do prof Rodrigo Resende. Sucessos podem ser obtidos, em breve, desde que haja investimento… Enquanto isso, o Brasil arde na fila de espera!

Referência

Kelly R. Stevens, Margaret A. Scull, Vyas Ramanan  et al. In situ expansion of engineered human liver tissue in a mouse model of chronic liver disease. Science Translational Medicine 19 Jul 2017:Vol. 9, Issue 399, eaah5505 DOI: 10.1126/scitranslmed.aah5505

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