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REABASTECENDO O CÉREBRO COM SANGUE NOVO

REABASTECENDO O CÉREBRO COM SANGUE NOVO

Mauro Cunha Xavier Pinto

Laboratório de Neurociências, Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo e

Edição Vol. 2, N. 1, 01 de Outubro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.09.29.004

A maior vantagem que a idade pode nos trazer é a sabedoria, porém o envelhecimento do corpo pode minar a capacidade de formar novas e recordar de velhas memórias. Com o passar dos anos lapsos de memória tornam-se mais frequentes e, em alguns casos, estes podem ser os primeiros sinais da demência senil ou mal de Alzheimer. Sem memórias a sabedoria se esvai e, por este motivo, é fundamental manter o cérebro sempre saudável. E que tal mantê-lo sempre novo?

Uma técnica que parece tirada de livros de ficção científica tem sido capaz de reverter os prejuízos causados pelo envelhecimento no aprendizado, na memória e nas funções neuronais. Esta técnica experimental, chamada de parabiose, consiste em unir cirurgicamente dois animais distintos para que estes compartilhem o sistema circulatório, ou seja, o sangue de um percorre o corpo do outro (Figura 1). Usando esta técnica, cientistas uniram um camundongo idoso a um camundongo jovem e observaram que o sangue novo foi capaz de reverter os efeitos do envelhecimento no cérebro dos camundongos idosos e aumentou o número de novos neurônios (1, 2). Por outro lado, fatores no sangue dos ratos velhos prejudicaram a função cognitiva dos ratos novos. Estes estudos demonstram que a parabiose pode afetar diretamente as funções cerebrais.

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Figura 1. A transferência de fatores presentes no sangue de camundongos jovens pode restabelecer as funções do cérebro de camundongos idosos.

Um novo estudo publicado na revista Nature Medicine por neurocientistas de Stanford e da Universidade da Califórnia apresenta que fatores presentes no sangue de animais jovens podem reverter perdas causadas pela idade. Neste estudo, camundongos idosos (18 meses de idade) receberam injeções repetidas de plasma, sangue sem células, provenientes de camundongos jovens (3 meses). Os animais que receberam o “sangue novo” apresentaram uma melhora de aproximadamente 50% no desempenho de tarefas de aprendizado e memória (1). Um fato interessante é que o aquecimento do plasma antes da aplicação da injeção abole o efeito do “sangue novo”, sugerindo que o fator que reabastece o cérebro dos camundongos idosos é sensível ao calor.

Quando analisados os neurônios da região do hipocampo, área responsável pela formação de novas memórias, os animais idosos que receberam o “sangue novo” apresentaram uma maior densidade de células, similares aos camundongos mais novos. Além de um maior número de células, os neurônios dos camundongos tratados com “sangue novo” também apresentavam um maior número de ramificações, o que favorece a formação de novas conexões (1). Por fim, os cientistas conseguiram relacionar a melhora gerada pela administração de “sangue novo” na função cerebral de camundongos idosos à ativação de uma proteína chamada CREB (cyclic AMP response element binding protein), relacionada com várias funções cerebrais, entre elas a estabilização de memórias.

Novas pesquisas são necessárias para identificar qual o fator presente no “sangue novo” que é responsável pelo melhor desempenho dos animais idosos, bem como, onde eles são produzidos. Este estudo pode levar a descoberta de novos fármacos para combater o efeito do envelhecimento no cérebro, prevenir o mal de Alzheimer e manter o cérebro saudável por mais tempo. Assim, sobrará mais tempo para aprender e mais espaço para sabedoria.

Referências

1. Villeda SA, Plambeck KE, Middeldorp J, Castellano JM, Mosher KI, Luo J, et al. Young blood reverses age-related impairments in cognitive function and synaptic plasticity in mice. Nat Med. 2014 Jun;20(6):659-63. PubMed PMID: 24793238. Epub 2014/05/06. eng.

2. Villeda SA, Luo J, Mosher KI, Zou B, Britschgi M, Bieri G, et al. The ageing systemic milieu negatively regulates neurogenesis and cognitive function. Nature. 2011 Sep 1;477(7362):90-4. PubMed PMID: 21886162. Pubmed Central PMCID: 3170097. Epub 2011/09/03. eng.

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