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QUATRO JOGADORES

QUATRO JOGADORES

Flávio Carvalho

Edição Vol. 4, N. 4, 09 de Janeiro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.01.09.006

– O Paulinho vai trazer a moça nova hoje, ele te avisou?

– Ai, ai… A mesma coisa, Soraia?

– Daqui a pouco eles já estão aí.

– Quer apostar hoje de novo? Eu deixo até você escolher primeiro!

– É lógico, meu bem! Valendo o almoço de hoje! E jogo limpo dessa vez, viu?

– Eu sempre jogo limpo, meu amor! Vou pegar as chaves do carro.

Natanael foi ao quarto para trocar a bermuda e pegar as chaves. Quando retornou, seu filho estava abrindo o portão para a candidata do dia:

– Fala, Paulinho! Essa é a…? – apontando para a garota.

– Camila! – respondeu ela mesma.

– Ótimo, Camila! Muito prazer, eu sou Natanael, pai dessa coisa esquisita que te trouxe aqui. Vou pegar cerveja, posso contar com você?

– Ah, eu bebo pouquinho… Preocupa comigo não…

– Vou contar assim mesmo! – disse, depois de dar um tapa nas costas do garoto. – Soraia, você vai comigo?

– Eu vou arrumando as coisas aqui, meu bem! Vai lá você.

– Então fecha o portão pra mim? – gritou, com uma das pernas já dentro do veículo.

Ela foi até ele, que perguntou pelo vidro aberto:

– Então? Valendo o almoço?

– Valendo! Tem certeza de que eu escolho primeiro mesmo, Natanael?

– Você sempre perde mesmo!

– Bobo… Tá bom! Acho que essa aí não passa dos troféus!

– Perdeu, meu bem! Essa daí é coordenadinha, tá na cara! Eu vou apostar que ela não sai da guitarra…

– Apostado então! – e voltou para dentro da casa.

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Chegando à cozinha, Soraia viu os dois sentados no sofá da sala. Ofereceu algo para comer e um refrigerante, mas eles preferiram esperar pelo almoço. Ela então foi para o quarto e se deitou para retomar a leitura da noite anterior.

Lá de dentro ela ouviu quando Paulinho levou Camila ao quarto de hóspedes. Ciente dos processos seletivos do filho, interrompeu a leitura, marcando a página com o dedo indicador, e rolou para o lado da cama mais próximo da porta. O garoto falava o mais baixo que conseguia, mas Soraia conseguia ouvir a moça com facilidade:

– Basquete? Jura? Eu adoro basquete também!

Soraia já era capaz de recriar o processo em sua cabeça: Paulinho mostrava troféu por troféu às moças. Depois falava sobre como tinha jogado até começar a faculdade, mas que agora não tinha mais jeito por causa dos estudos e do estágio.

– Sabe, eu gosto mesmo é de handebol! – disse a garota no quarto de hóspedes. – Eu jogava bem, meu pai que me ensinou quando era criança… Ele jogou na seleção, sabia? Agora ele é jornalista… Mas eu também joguei um pouquinho na seleção juvenil, só que não cresci muito, sabe…

Soraia ouviu a buzina do lado de fora. Colocou o marcador no lugar do dedo e se levantou com um suspiro. Passando pela porta do quarto, pediu licença e perguntou ao garoto:

– Ela gosta de lasanha? Acho que é só isso que tem no congelador…

– Gosto sim, Soraia! – antecipou-se novamente a garota. – Você precisa de ajuda?

– De jeito nenhum, é só colocar no forno! Podem continuar tranquilos aí…

E continuou caminhando até o portão. Natanael entrou com o carro na garagem e foi gritando lá de dentro:

– Já perdeu, meu bem?

Ela fez que sim com a cabeça:

– A menina é quase profissional de um negócio desses aí.

– Sabia! Eu não sei pra quê você ainda aposta comigo, eu entendo dessas coisas, sabe? A gente tem que saber ler, entende? – disse, apontando alternadamente para o lado de sua cabeça e para frente. – Tem que antever as coisas!

– Aham… – disse, rolando os olhos. – E você já anteviu também o sorteio de agora?

– Joguei na cobra, em sua homenagem! E no veado…

– Meu bem, pode parar! Já te falei que esse tipo de brincadeira não tem a menor graça! Mas e por você, jogou no porco?

– Engraçadinha… Mas vamos entrar, você tem que ir pro fogão agora, né?

Os dois pegaram as garrafas e voltaram à cozinha. Natanael serviu um copo para si e um para a esposa, que começava a retirar a lasanha da embalagem. Ele ainda colocou um copo para Camila e começou a servir uma caneca de leite.

– Natanael, pelo amor de Deus… – disse Soraia ao ver o marido abrir o pote de achocolatado. – Você não vai fazer isso com o menino, né?

– É pra mim, Soraia! Credo, você acha que eu seria capaz de uma coisa dessas?

– Você, meu bem? Nunca…

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Ele mexeu bastante o leite e foi até os dois. Ainda no quarto de hóspedes, eles agora estavam sentados em frente ao teclado que Paulinho deixava ao lado do armário.

– Camila, você tem cara de ser das minhas! – disse Natanael, entregando o copo à garota.

– Muito obrigada!

– Já você, tem cara de ser dos da sua mãe. – estendendo o leite ao garoto.

A garota riu da piada, enquanto Paulinho desejava o inferno ao pai com o olhar. Natanael resolveu abandonar os dois e voltar ao quarto, onde Soraia segurava seu livro, ainda sem retomar a leitura:

– Deixa o menino em paz, meu bem…

– Ah, ele que tem que deixar de ser sistemático!

Soraia fez sinal para que o marido parasse de falar. Os dois voltaram a sua atenção para o lado de fora do quarto, de onde a voz de Camila podia ser ouvida por cima de sons de guitarra e teclado:

– Você toca guitarra também, Paulinho? Que lindo! Sabe, no colégio eu tocava numa banda com os meninos também!

Soraia virou os olhos para o marido, enquanto Camila prosseguia no outro cômodo:

U2? Não, a gente tocava mais Pantera, Megadeth… Mas depois eu parei de mexer com guitarra e acabei mexendo mais com o piano…

Soraia continuava olhando para Natanael, dessa vez com um sorriso no rosto. Ele se virou para falar alguma coisa, mas ela foi mais rápida:

– Você entende mesmo dessas coisas, hein? Sabe ler, né? – apontando para a própria cabeça e para frente. – Como é que é mesmo? Antever! Antever as coisas…

– Ah, tá! Você que perdeu mais cedo!

– Nem vem, Natanael! Ninguém ganhou, nós empatamos!

– Tá bom, tá bom… Então vamos resolver o almoço nas damas?

– Fechado! – disse ela, jogando o livro para o lado e abrindo a gaveta para pegar o tabuleiro, enquanto os jovens continuavam se divertindo com os instrumentos.

Agora em frente ao tabuleiro, o casal voltou ao assunto do dia:

– Falta só o tal do pôquer, né? – perguntou Soraia.

– Esses joguinhos do Paulinho são de uma babaquice…

– É o critério dele, ué!

– Critério, Soraia? Critério? Isso é pior que entrevista de emprego o que ele faz com essas meninas!

– Todo mundo faz suas seleções, meu bem… Você acha que foi à toa que eu te levei pro show da banda do meu irmão?

– Você testou foi a minha paciência, né? E eu tive que aguentar seu pai bêbado e seus tios me agradecendo de cinco em cinco minutos porque a sobrinha deles finalmente tinha arrumado um namorado!

– E você passou, lindeza!

– E com louvor! Seu pai quase me deu o carro dele! Mas quer dizer então que pra namorar esse estrupício nosso tem que fazer tudo o que ele gosta?

– Fica quieto, Natanael! Eles já estão chegando!

Os garotos chegaram à sala. Paulinho foi buscar as fichas no armário enquanto Camila sentou-se ao lado de Natanael.

– Mais uma cerveja, querida?

– Vamos! Deixa que eu busco!

– De jeito nenhum! Alguém tem que te tratar direito aqui nessa casa! – e saiu até a geladeira.

Enquanto os homens estavam fora, Camila olhou para o tabuleiro e apontou uma das peças para Soraia. Ela então apontou mais umas três peças e umas quatro casas vazias enquanto a outra acompanhava tudo com os olhos.

– Aqui está! – disse Natanael, entregando o copo a Camila. Ela agradeceu e voltou sua atenção para Paulinho, que já estava contando e distribuindo as fichas.

Com o retorno do marido, Soraia moveu a peça apontada por Camila. Natanael ficou parado por alguns segundos olhando para o tabuleiro com a cabeça entre as mãos. Depois apontou para algumas casas vazias e para outras peças suas enquanto começava a puxar alguns fios de cabelo. A garota, entre o empilhar de suas fichas, sorria para Soraia.

– Isso é um absurdo! – gritou Natanael. – Você roubou!

– Roubei nada! – respondeu sua esposa. – Ficou tudo do jeitinho que você deixou!

Ele virou o rosto para os garotos, que pareciam bem ocupados com suas cartas. Passou a mão sobre o tabuleiro, jogando as peças para o lado da mesa e estendeu a mão a Soraia:

– Parabéns. Vou cuidar do almoço.

– Vamos juntos! – disse ela, terminando de comemorar a vitória. – Melhor deixar esses dois sossegados também.

Eles se levantaram e foram até a cozinha. Entre fornos abertos, saladas montadas e copos servidos, sempre que possível desviavam a atenção para a mesa da sala:

– Olha a cara dele, Soraia! Olha!

– É… Acho que ele tá perdendo que nem o pai…

– Até parece! Você nunca ganha!

Enquanto eles discutiam, o fluxo das fichas sobre a mesa continuava numa direção só. As pilhas de Paulinho ficavam cada vez mais rasas e iam alimentando as torres de Camila.

– Olha lá, meu bem… – disse Natanael. – O menino vai enfartar! Olha que coisa linda!

– Deixa de ser chato!

Soraia terminou de repreender o marido com um beliscão. Ele respondeu com uma cara feia e um gesto para que ela ficasse em silêncio para que ele pudesse ouvir a garota:

– Ai, Paulinho… Você não podia ter pagado essa não, você fez as contas? Você não tinha nem quatro cartas pra te salvar no baralho… A gente pode estudar essa matemática juntos semana que vem, o que você acha?

Natanael se divertia com as expressões de humilhação do garoto:

– Olha lá, Soraia! Olha lá! – e gargalhava. – Eu quero adotar a Camila!

– Chega de rir do menino e vai buscar os pratos! Já tá tudo pronto!

Durante o almoço, Natanael continuou debochando do garoto, enquanto Soraia tentava puxar assunto com a menina e fazer o marido parar de importunar o filho. Camila aproveitou para falar um pouco sobre Monet, Capablanca, Borges e os irmãos Coen, enquanto Paulinho não emitia som nenhum.

A chuva chegou e com ela a hora de Camila voltar pra casa. Educadamente ela rejeitou as caronas de Paulinho e Natanael, já que morava perto e o táxi sairia bem em conta.

Chegado o táxi, todos se despediram da garota. Natanael se lembrou de que teria que abrir o portão e se juntou a Camila no caminho até a rua.

Paulinho e sua mãe ficaram na porta da cozinha, enquanto os outros dois dividiram o guarda-chuva de Camila até o portão. Natanael e a menina se despediram novamente com um abraço, um volte sempre e um com certeza. A garota acenou para Soraia e Paulinho, antes de gritar:

– Paulinho, você me liga pra gente combinar amanhã? A gente pode ir ao clube pra jogar basquete!

Ele fez que não com a cabeça e fechou a porta.

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  1. Ariana disse:

    É assim mesmo, algumas vezes a gente perde por ser “menos” e outras também perde por ser “mais”.

    13/janeiro/2017 ás 11:07

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