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QUANDO OS JOVENS É QUE MANDAM: NEURÔNIOS JOVENS SILENCIAM OS MADUROS E AUMENTAM A RESISTÊNCIA AO ESTRESSE

Daniel Mendes Filho, Patrícia de Carvalho Ribeiro, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 5, N. 11, 13 de Agosto de 2018

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2018.08.13.006

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Somos ensinados desde criança a respeitar os mais velhos e sempre nos calar quando eles têm algo a dizer. Mas com os neurônios jovens do giro denteado não é bem assim que funciona…são os jovens que mandam os mais velhos “se calarem”! O giro denteado, localizado na parte ventral do hipocampo, é uma das regiões do cérebro onde já se observou maior neurogênese (formação de novos neurônios). O hipocampo, por sua vez, é uma estrutura presente na parte inferior do cérebro a qual está envolvida com a consolidação da memória. O giro denteado, em específico, está relacionado, além da consolidação da memória, com outras funções cognitivas como a exploração do ambiente, respostas ao estresse e à ansiedade, já tendo sido implicado, inclusive, na depressão.

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Essa descoberta de que os neurônios jovens silenciam os maduros, realizada pelos pesquisadores Christoph Anacker, René Hen e colegas da Universidade de Columbia, foi feita a partir da observação de que em camundongos adultos a neurogênese no giro denteado aumenta a confiança social desses animais por meio da supressão da atividade de neurônios maduros dessa mesma região. Para chegar a essa descoberta, os cientistas criaram dois grupos de animais geneticamente modificados: um possuía maior atividade de neurônios jovens no giro denteado e outro redução no número desses novos neurônios.

Os pesquisadores, então, expuseram cada um dos grupos a uma situação estressante que muitos de nós passamos durante a escola: ficar cara a cara com um “valentão”. Sim, os animais foram colocados repetida e individualmente em uma caixa com um camundongo agressivo por breves períodos. Em seguida, foram feitos testes comportamentais e observada a interação social dos animais com outros camundongos não agressivos. Mesmo depois de ficarem cara a cara com o “valentão”, os camundongos que apresentavam neurogênese aumentada no giro denteado interagiram normalmente com o novo colega pacífico, enquanto aqueles com a neurogênese reduzida e, portanto, menor numero de neurônios jovens no giro denteado, evitaram a todo custo o novo colega. Logo, os novos neurônios estavam relacionados à resiliência social – lembrando que resiliência é uma palavra tomada emprestada da física pela psicologia que significa a capacidade de superar adversidades, evoluir e aprender com os momentos difíceis. Depois de examinar os jovens neurônios, os pesquisadores se focaram em avaliar os maduros do giro denteado utilizando outros grupos de camundongos. Foram nesses experimentos que Christoph Anacker e colegas observaram que no grupo com maior atividade de neurônios jovens, os mais velhos estavam menos ativos, ao passo que nos animais com menos neurogênese (e, pois, menos neurônios jovens) apresentavam grande atividade. A fim de confirmar o vínculo desse padrão de atividade neuronal com o comportamento, foi criado outro grupo de animais geneticamente modificados que poderiam ter a expressão de determinados genes dos neurônios maduros controlada por meio da tecnologia quimiogenética de DREADDS (Designer Receptor Exclusively Activated By Designer Drugs). Assim, os cientistas podiam modificar a atividade dos neurônios maduros do giro denteado sem alterar a neurogênese. Resultado? É o silenciamento dos neurônios maduros pelos neurônios jovens no giro denteado do hipocampo torna os animais menos propensos a ansiedade e com maior nível de resiliência. Nesse ponto é interessante destacar que outras pesquisas já demonstraram que a neurogênese no giro denteado, promovida, por exemplo, por exercícios físicos, aumenta a resiliência ao estresse.

Interessante, mas qual a importância dessa descoberta? Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão sendo essa doença a principal causa de incapacidade. Os fármacos antidepressivos não apresentam efeito em parte dessas pessoas, sendo necessário encontrar novos alvos de ação para fármacos antidepressivos. E, graças ao trabalho de Christoph Anacker, René Hen e colaboradores, agora sabemos que o silenciamento dos neurônios maduros do giro denteado por meio de medicamentos pode ajudar no tratamento da ansiedade e da depressão ao aumentar a resiliência emocional.

REFERÊNCIAS

Young Brain Cells Silence Old Ones to Quash Anxiety. Disponível em:< https://www.the-scientist.com/news-opinion/young-brain-cells-silence-old-ones-to-quash-anxiety 64385>.Acesso em: 28/06/2018.

ANACKER, C. et al., “Hippocampal neurogenesis confers stress resilience by inhibiting the ventral dentate gyrus,” Nature, doi:10.1038/s41586-018-0262-4, 2018.

Depression, Key Facts. Disponível em: < http://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/depression>.Acesso em: 28/06/2018.

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