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PROFISSIONAL – PARTE II

PROFISSIONAL – PARTE II

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 2, 20 de Outubro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.10.19.001

Connor sentou-se e fez o pedido de sempre. Estava no restaurante em que iria jantar com Johannes no dia em que o jovem se foi e, enquanto aguardava a chegada da refeição, mais uma vez se lembrou do amigo falecido. Esse era o lugar em que os dois, sempre na mesma mesa isolada, faziam os mesmos pedidos, as mesmas reclamações e as mesmas piadas. Hoje, entretanto, a companhia não seria tão agradável.

Na sua frente sentou-se um homem que Connor já havia visto antes. Parecia limpo e estava bem vestido, mas a expressão séria deixou o velho incomodado. Antes que pudesse dizer algo, o estranho começou a conversa:

– Peço desculpas pela invasão do seu espaço. Posso chamá-lo de Connor ou você prefere que eu o faça pelo sobrenome?

O velho arregalou os olhos. Percebendo que o seu interlocutor não iria se manifestar enquanto não fosse respondido, resolveu colaborar:

– Connor está bom.

– Ótimo. E você sabe quem eu sou, não sabe?

– Essa cidade é cheia de almofadinhas! – disse o velho com uma risada.

O homem do outro lado da mesa sorriu por pouco menos de um segundo, mas logo retomou a seriedade:

– Connor, não brinque comigo. Eu sei que você esteve em nossa sede essa semana. E sei também que você foi à polícia atrás do que aconteceu ao seu amigo. Na verdade, eu sei bem mais do que você imagina.

– Eu também sei quem você é, senhor McInnis. – retrucou Connor, desta vez sem nenhuma piada. – Você é o assistente do diretor da loteria, ou pelo menos se apresenta como tal. Você estava na premiação do Johannes na TV e também estava na sede no dia em que eu estive por lá.

– Sim, Connor. Uma pena o que aconteceu ao seu amigo. Ninguém merece um destino assim.

– E o que te traz aqui, senhor McInnis? – indagou o velho. – Com certeza não foi a qualidade da comida.

– Connor, eu só quero conversar um pouco. Fico preocupado em ver que você não abandona a ideia do falecimento do seu amigo. Não é melhor você fazer como todo mundo e esquecer o assunto?

– Ah, é claro! – respondeu o velho. – O senhor é mesmo muito atencioso! Ótimo conselho. Agora se me dá licença, vou ali fora bem rapidinho, ok? Só ligar para a polícia, mas é coisa rápida. Enquanto isso, pode ficar com o jantar que eu pedi!

Connor então se levantou para ir em direção à porta, mas Norman o interrompeu:

– Não sei se é uma boa ideia. O Martin está em casa, não está? Ah não. Essa é a hora do futebol.

O velho não conseguiu continuar sua saída. Até esse momento ele só estava preocupado, mas tocar no nome do filho deixa qualquer pai aterrorizado. Norman havia conseguido o que queria.

– Que tipo de pessoa o senhor é? Vem sentar-se à minha mesa e falar do meu filho? – indagou o pai de Martin, enquanto retornava ao seu lugar.

– Connor, como eu disse antes, eu sei bem mais do que você imagina.

– E o que você quer de mim então, senhor McInnis?

– Só que aceite meus conselhos. Por melhor pessoa que seu amigo tenha sido, e eu sei que ele foi, ele morreu. Está morto. Nada que você faça vai trazê-lo de volta, então guarde bem as suas memórias dele e esqueça o assunto.

– Não me tome por estúpido, senhor! Você se veste e fala muito bem, mas senta à minha mesa e me ameaça para que eu abandone a morte do meu amigo? Não precisa ser nenhum gênio para saber que você está bastante envolvido no caso, não?

– Correto. – respondeu Norman, enquanto olhava ao redor para ter certeza de que a mesa era mesmo isolada.

– Sendo assim, se importa de responder a algumas perguntas? Você sabe de tantas coisas, não seria justo me deixar sem saber de nada!

– Tudo bem.

– Vocês mataram Johannes, não foi?

– Connor, não complique as coisas para nós dois.

– Elas já são complicadas o suficiente, senhor.

– Ok. Sim, matamos.

– Como?

– Envenenamento, claro. Material radioativo.

– E vocês também causaram o acidente do elevador que matou outro ganhador na semana passada?

– Sim. São dois trabalhos feitos por mim.

– Então é claro que vocês executam ganhadores e acabam não pagando os prêmios.

– É um negócio bastante lucrativo.

– Até aí tudo bem, senhor McInnis. Só o que eu não entendo é como vocês acham que isso vai funcionar. Vocês realmente acreditam que ninguém vai correr atrás de esclarecer a morte de um parente próximo ou de um amigo?

– Isso é fácil. Eu costumo ter conversas como essa. Sempre funcionam.

– Quer dizer que eu vou acabar essa conversa ao lado de Johannes?

Norman retirou um caderno do bolso do paletó e o colocou na mesa:

– De forma alguma. Por mais estranho que pareça, pode confiar em mim. Seu nome não está aqui, e eu não faço essas coisas por esporte.

– Mas e o resto das pessoas? Um dia elas vão perceber, não vão? Ganhadores da loteria morrendo em público de tempos em tempos, é claro que vão ver que tem algo de errado!

– Connor, você realmente é uma pessoa de bom coração, não é? Acho que você não presta muita atenção às pessoas ao seu redor.

– Como assim?

– Basta olhar com calma. Depois do funeral, quantos ainda falam com você de Johannes? Uns dois?

– Talvez.

– Pois é. Isso acontece com todo mundo. Exceto aqueles muito próximos, com o tempo todos param de pensar no assunto e seguem a sua própria vida.

– Disso eu sei, senhor. Mas você não me convenceu. Como que ninguém vai perceber que os ganhadores é que vão morrer um a um?

– Pense em como grande parte das pessoas reage quando algo ruim acontece a algum famoso. Você lê revistas de fofoca, Connor?

– Não costumo. E não sei o que elas têm a ver com Johannes.

– Todos os dias lemos alguma notícia sobre algum famoso que se separou da companheira, não lemos? Ou sobre uma famosa traída pelo marido, ou sobre briga de irmãos ou qualquer coisa dessa espécie. E você sabe o motivo de isso vender bem, Connor? Porque as pessoas gostam de ver a desgraça alheia mais do que qualquer outra coisa.

– Não seja tão pessimista, McInnis. Não exagere.

– Não há exagero algum aqui. Minha linha de trabalho me faz ver isso há anos. E repare bem em outra coisa: basta alguém começar a se destacar um pouco da normalidade para se tornar alvo de sentimentos ruins. Os medíocres sempre estão prontos para atirar pedras naqueles que conseguem sair um pouquinho da vida por sobrevivência.

O velho não respondeu. Apenas fez um gesto para que Norman continuasse a sua explicação.

– A inveja é um horror, Connor. Um horror. Ao invés de usar as pessoas de sucesso como guias ou exemplos, tudo o que a maioria faz é criar desculpas para justificar o fato de que não são eles que estão lá. Depois disso, começam a inventar algo desagradável para poder atribuir ao sujeito. Daí pra frente é só torcer para que um evento ruim aconteça ao outro para que elas possam dizer coisas como: “Está vendo? Não falei que ele não merecia?”

– Mas Johannes não tinha nada disso, McInnis. Ele só comprou um bilhete premiado.

– Connor, ele ganhou sossego e dinheiro. Isso já desperta inveja o suficiente em quem não tem um ou o outro. É o bastante para que ninguém olhe para a sua morte com muito pesar.

O velho mais uma vez não respondeu. Apenas ficou olhando para o assassino sentado à sua frente.

– Então, para encerrarmos nossa conversa, sabe por que ninguém vai procurar responder o caso do seu amigo? Porque é certo que a morte dele foi um evento divertidíssimo para muita gente. Isso mesmo, Connor. As pessoas deram risada do triste fim de Johannes. Não importa o quanto ele era bom ou caridoso. Elas não sabem se ele era bom amigo, se era correto em seu trabalho ou talentoso. Só sabem que ele ganhou na loteria. E nos olhos dessa gente, que pecado é ter alguma coisa além da mediocridade, mesmo que seja apenas dinheiro.

– Não posso concordar com isso, McInnis. De jeito nenhum! Há muito mais nas pessoas além de inveja!

– Você pode crer no que quiser, Connor. Mas eu faço isso há anos e sei que dá e continuará dando certo. De qualquer maneira, agradeço pela conversa. Como eu disse, você é um homem bom e por isso te desejo sorte. Só peço, como fiz com todos que tiveram essa conversa comigo, que você aceite meu conselho. Assim como aconteceu ao seu amigo, não seria nenhum prazer acrescentar seu nome ao caderno.

– Você é um homem terrível, McInnis! – disse o velho, enquanto seu interlocutor guardava o caderno e se levantava. – Você só enxerga essas coisas porque é você quem é horrível! Suma daqui!

Norman apenas deu de ombros enquanto deixava o restaurante. Ao abrir a porta, no entanto, parou para concluir:

– Não, Connor. Apenas vivo para sobreviver também.

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