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PROFISSIONAL – PARTE I

PROFISSIONAL – PARTE I

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 1, 01 de Outubro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.09.29.001

A aglomeração já estava formada. Norman calmamente abria caminho entre os pedestres que iam se juntando ao redor da cena. A avenida movimentada, onde se encontram as principais estações de metrô e ônibus da cidade, agora tinha um grupo de pessoas atrapalhando o já complicado tráfego diário. Alguns iam passando pelo amontoado para chegar ao centro da confusão e voltavam estarrecidos, enquanto outros choravam e falavam desesperados ao telefone. Norman não.

Norman sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Com certeza deve haver um corpo, e nesse momento já não há mais nenhum tremor, vômito, suspiro ou pulso.

– Pobre diabo. – disse ao ouvido de uma senhora quando chegou próximo ao corpo. – Morreu como um cachorro.

Antes de a senhora responder, no entanto, Norman já se virou para sair da confusão e caminhou tranquilamente até a estação do metrô. Enquanto descia as escadas e seguia em direção ao trem, terminou de retirar seus fones do bolso do paletó e ajustou-os em suas orelhas. Não queria mais se preocupar com J. B..

J. B., por sua vez, não podia mais se preocupar com ninguém. Nesse momento é ele quem está deitado sem vida no meio da avenida, atraindo transeuntes, policiais, ambulâncias e agentes de trânsito. Todos esses, é claro, inúteis para a situação: policiais não vão encontrar assassinos, ambulâncias não vão devolver J.B à vida e os agentes de trânsito não vão conseguir organizar a cidade que nem se importa com um falecido qualquer. Os transeuntes? O único que tem alguma importância para o ocorrido já está cantarolando num vagão de volta para casa.

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Johannes era filho de imigrantes do norte do continente e sempre teve uma vida tida como normal: saía de casa de manhã, passava o dia atrás de sua escrivaninha no Palácio Governamental e, depois de vencidas as horas de trabalho, tentava aproveitar o pouco tempo livre até a hora de ir dormir. Repetido o processo cinco vezes, chegava ao final de semana, quando então podia espantar o tédio passeando enquanto o dia estava claro e procurando alguma companheira durante a noite.

Vida sem graça? Sem dúvida. Pelo menos até uma quinta-feira aparentemente corriqueira em que ele, como de costume, caminhava ao redor do quarteirão com seu colega Connor:

– Johannes, você já ligou para a…

– Não, Connor.

– Não vai ligar?

– Não, Connor.

– Johannes, você tem que acelerar isso um pouco, meu jovem! Quando eu tinha a sua idade…

– Já sei, já sei! Você não perdia tempo, não é? E também saía com duas ou três concorrentes! E se divertia horrores quando tinha que sair correndo de qualquer lugar porque uma não podia ver a outra e blá, blá, blá…

– Calma, rapaz… Não é para te ofender, é só pra tentar te tirar um pouco desse marasmo! Vou te deixar em paz agora.

Connor sentia um prazer estranho em irritar Johannes. Gostava muito do rapaz, mas sentia que tinha que empurrá-lo um pouco para que ele se movimentasse para fazer qualquer coisa. Sua brincadeira, no entanto, havia sido sobre um tema com o qual seu colega parecia se preocupar demais e isso tornou o clima tenso por alguns segundos. Pelo menos até ele conseguir encontrar um pretexto para mudar o rumo da conversa:

– Johannes, venha aqui! – disse, apontando para uma banca de revistas. – Vamos comprar um desses! Venha, eu vou te dar um de presente!

– O que é isso, Connor? Outra dessas loterias que você compra todos os dias? Você sabe que se você economizar esse dinheiro você…

– Já sei, já sei! Em pouco tempo eu poderia comprar um relógio novo para a Jackie? Ou pagar as aulas de futebol do Martin? Você também é previsível, Johannes!

Johannes suspirava enquanto Connor se divertia com a excessiva seriedade do amigo. O velho, no entanto, estendeu a ele o bilhete como presente:

– Pegue, Johannes. Esse aqui tem a sua cara! Se você ganhar, pode escolher entre receber o prêmio todo de uma vez ou um pagamento semanal durante trinta anos. É claro que você, jovem e chato que é, vai pegar o prêmio semanal, não é?

– E você, velho irresponsável, com certeza vai pegar o total do prêmio e gastar em uns dois meses, não é?

– Mas é óbvio! E se eu morrer em um ano? Quem fica com o prêmio? É melhor curtir esse final de vida com os bolsos bem cheios! Pode deixar que eu te pago um jantar!

Os dois sorriram enquanto se empurravam amigavelmente e o breve momento de irritação de Johannes se foi, dando lugar às brincadeiras de sempre. O velho fanfarrão, afinal, era seu melhor companheiro.

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É claro que se a quinta-feira era apenas aparentemente corriqueira e Johannes havia ganhado um bilhete de loteria, o que mais poderia acontecer? Sim, Johannes foi sorteado.

E, conforme previsto por Connor, o previdente Johannes optou pelo prêmio semanal. O jovem passaria a receber um valor por semana que era bem próximo do seu vencimento mensal no Palácio. Finalmente ele estava livre para poder aproveitar o resto de sua vida! E sem se preocupar em não ficar pobre novamente! Assim que viu o resultado, correu até o telefone para contar ao velho:

– Almoxarifado, posso ajudar?

– Connor! É Johannes! Rápido, pegue…

– Rapaz, mas que desespero é esse? Já sei, o café está frio demais de novo, não é? Calma, meu filho, eu faço outro pra…

– Sem gracinhas, Connor. Pegue logo o jornal que chegou ao seu setor!

– Ok, ok… Diga, do que você precisa? Escolheu alguma massagista dos classificados? Se for daquelas…

– Página treze, velho doente! Os números da loteria! Por favor, confira pra mim…

– Você não sabe ler?

– Connor!

– Relaxe, amigo… Precisa de tanta pressa? Vamos lá: vinte e seis, quarenta e sete, noventa, noventa e seis e…

– Noventa e oito?

– Isso.

– Connor, esses são os meus números! Do bilhete que você me deu!

– Não acredito! Johannes, sem brincadeiras… meu coração já não tem mais vinte anos…

– Connor, é isso mesmo! Chega de pobreza! Chega de Palácio! Estou saindo daqui agora e não volto aqui mais!

– Mas, rapaz… Nem vai vir me dar um abraço?

– É claro, velho! Chego aí em dois minutos.

E Johannes foi pela última vez ao almoxarifado, abraçou seu velho companheiro e de lá seguiu direto ao departamento de pessoal assinar sua alforria.

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O coquetel de entrega do prêmio era bem mais simples do que parecia na televisão. O salão não era tão grande, as mulheres não eram tão altas e bonitas e o apresentador não era tão simpático assim também. Mas tudo que Johannes precisava fazer era sorrir para as câmeras, responder algumas perguntas bobas, assinar os papéis e brindar com o diretor. Tudo bastante protocolar.

Enquanto aguardava o início do último compromisso antes de uma vida livre e bem remunerada, Johannes teve seus devaneios interrompidos:

– Senhor Barry?

O jovem sortudo se levantou para cumprimentar aquele que concluiu ser o diretor. Afinal, sapatos tão finos assim só eram usados no Palácio pelo próprio governador. O homem apertou sua mão e prosseguiu:

– Senhor Barry, sou Norman McInnis, assistente pessoal do diretor. Está sendo bem tratado até o momento?

– Sim, sim… Não há problema algum.

Johannes concluiu que realmente nada na TV é o que parece.

– Fico satisfeito. O diretor chegará dentro de alguns minutos e a cerimônia já será iniciada. O senhor precisa de algo?

– No momento não.

– Tudo bem. Deixe-me então apenas fazer algumas breves perguntas:

– Claro!

– O senhor nos entregou o formulário indicando a opção pelo prêmio semanal. Essa é definitivamente a sua escolha ou preciso alterar o contrato?

– Perfeito, senhor McInnis! Não posso gastar tudo de uma vez!

– Ok. Quanto ao brinde feito para as câmeras, o senhor possui alguma restrição ao espumante? Podemos usar outra bebida se o senhor assim desejar.

– Sem restrições. Espumante está ótimo.

– Ok, Sr. Barry. Estou ao seu dispor para resolver qualquer problema que o senhor possa ter durante essa noite.

– Muito obrigado!

Johannes sentou-se enquanto Norman voltou a cuidar dos bastidores. Depois de mais alguns minutos aguardando, o jovem foi chamado ao palco.

A cerimônia foi bastante rápida. Johannes entrou, respondeu a umas três perguntas, recebeu um cheque gigante das mãos das assistentes e foi ao brinde com o diretor. O mandatário, por sua vez, não deve ter passado mais de dez minutos no estúdio: entrou quando as câmeras já estavam ligadas, cumprimentou o jovem vencedor, tomou com ele um gole do espumante até os créditos rolarem pela tela e assinou as duas vias do contrato. Sequer abriu os botões do paletó ou retirou as luvas.

Johannes, no entanto, nem ligou muito para a pressa do diretor. Ele agora era um homem livre de preocupações.

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– Alô…

– Johannes! Há quanto tempo, amigo!

O jovem havia acordado com o barulho do telefone e ainda sentia a dor de cabeça que retornou quando seu sono foi interrompido.

– Connor?

– Mas é claro! Nem me reconhece mais? Depois de rico esse telefone seu não para de tocar, não é?

– Velho, com quantos anos seu cabelo começou a cair? – interrompeu o jovem após coçar a cabeça.

– Já, Johannes? Pelo menos no meu caso só começou quando me casei com a Jackie…

– Só um segundo, Connor…

E o jovem se abaixou para tossir violentamente.

– Johannes, a hora é ruim? Está tudo bem? – Connor tomou um tom mais sério ao ouvir a tosse do amigo.

– Não, velho… É só essa tosse que não passa…

– Só isso mesmo? Parece mais desanimado que o normal…

Já se passavam algumas semanas da premiação e Johannes não estava tão feliz quanto pensava que seria. O dinheiro era bom, mas ainda não tinha encontrado uma forma de se adaptar à falta de trabalho. Sempre achou que o emprego era o que o sugava, mas começava a perceber que na verdade a sua falta de vida não era tão culpa do Palácio assim. E ainda vinha essa tosse, a queda do cabelo… Enquanto isso, Connor continuava tentando animá-lo:

– Vamos lá, rapaz! Acho que você está precisando dar uma volta!

– Acho que sim… almoçamos hoje então?

– Almoço? Johannes, já são três e meia!

O jovem nem se dava conta do horário. Quando não passava mal, dormia. Não tinha disposição para outra coisa.

– Vamos lá, venha me encontrar aqui depois do horário! Saio às seis, você ainda se lembra do caminho?

– É claro, velho chato! Passei tanto tempo aí que consigo chegar até nesse estado…

– Te espero então, Johannes! E você paga!

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A jornada de Johannes até o Palácio não foi tão fácil como de costume. O pouco ânimo que surgira depois da conversa com Connor já havia sido perdido quando o jovem saiu do chuveiro e começou a se arrumar. Sentia-se bastante indisposto e sem nenhum apetite, mas resolveu fazer um esforço e ir encontrar seu amigo para o jantar.

Saiu de casa com uma boa antecedência e caminhou até a estação do metrô. O trem em que embarcou não estava lotado e Johannes conseguiu um lugar vazio para se sentar. Seu corpo, no entanto, não colaborava para que a viagem fosse tranquila: a dor de cabeça começava a ganhar mais intensidade, as náuseas estavam retornando e ele começava a suar bastante. Isso já era o suficiente para que ele estivesse arrependido de ter saído de casa.

Uma viagem comum até o Palácio era bastante rápida, mas para alguém nas condições de Johannes nenhum transporte é rápido o suficiente. Além dos sintomas anteriores, ele começava a sentir seu pulso acelerar, o que aumentou seu desespero. Envolto em uma mistura de tensão e mal-estar, o jovem começou a respirar cada vez mais rápido, enquanto via as luzes do trem com menos nitidez…

– Moço! Moço! Está tudo bem?

Johannes recobrou sua consciência deitado no meio do vagão. Havia sido amparado por duas jovens estudantes que não tinham a menor ideia do que fazer com alguém desmaiado. Ele tentou responder aos chamados, mas assim que abriu a boca sentiu a acidez do vômito subindo por sua garganta. Nem mesmo tentou lutar contra o que seu corpo estava fazendo.

Todos os passageiros do vagão agora acompanhavam a cena. Enquanto uns tentavam ajudar o jovem, chamando alguma ambulância ou abrindo espaço para que ele respirasse, outros se mostravam assustados e cobriam os próprios rostos com medo de que fosse algo contagioso. Johannes, no entanto, não conseguia ver muito do que estava acontecendo. Além de ter acabado de despertar e estar envolto em vômito, sentia que sua taquicardia estava fora de controle e que sua cabeça estava a ponto de explodir.

No momento em que o trem parou na estação seguinte, Johannes pediu para que o levassem para fora. As duas estudantes apoiaram seu corpo na saída do vagão e o conduziram até a porta da estação, onde colocaram o rapaz sentado no meio-fio enquanto tentavam chamar novamente uma ambulância. O jovem, no entanto, já perdia novamente a consciência.

Enquanto isso, Norman McInnis subia as escadas da estação. Caminhando sem pressa, retirou os fones dos ouvidos e se colocou a observar a aglomeração que se formava na avenida. Aguardou alguns minutos até que a confusão estivesse formada, e, antes de se aproximar da cena, desdobrou uma folha de papel retirada do bolso do paletó e riscou o nome de J.B. antes de confirmar:

– Pobre diabo. Morreu como um cachorro.

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