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PREFEITO

PREFEITO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 08, 24 de Fevereiro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.02.24.008

Vasco estava pronto para a cerimônia de posse. Sua esposa fez ainda um último ajuste em sua gravata enquanto ele admirava sua própria figura no espelho. Tudo estava no lugar e ele até parecia alguns anos mais jovem! Testou sorrisos diferentes, ensaiou alguns cumprimentos às demais autoridades e até tentou derramar algumas lágrimas para ver se ainda conseguia convencer ao fingir emoção. Sim, ele era bom nisso. Estava pronto para assumir a prefeitura.

Ao lado de sua companheira, desceu as escadas de sua casa e chegou à sala onde suas três filhas aguardavam impacientes. Brincou um pouco com as garotas, apertando suas bochechas até que suas faces ficassem vermelhas e desarrumando seus cabelos. Depois de irritá-las, perguntou a mais nova:

– Papai está bonito, Bruninha? Tenta achar algum cabelo branco!

Ele se abaixou e ela conferiu os fios:

– Lindo, papai! Não tem nada de errado aí! Você gostou do bolo que eu fiz pra você hoje?

– Adorei, filhona! Meu café hoje foi especial!

Ele deu um beijo na mais nova e se dirigiu à do meio:

– E os sapatos, Júlia? Alguma sujeira?

– Nada, papai! Está maravilhoso!

A do meio também ganhou um beijo. Quando chegou a mais velha, ela nem esperou a pergunta:

– Sim, papai, a camisa está ótima e o senhor está bem cheiroso! Podemos ir agora?

– Podemos sim, impaciente! O motorista já chegou?

– Há quinze minutos! Vamos, vamos!

E os cinco deixaram a casa e seguiram até a entrada da fazenda. As quatro mulheres entraram no carro da família, enquanto um motorista esperava por Vasco no carro oficial. Ao ver o político saindo de casa, o condutor desceu do veículo e segurou a porta de trás aberta:

– Bom dia, senhor Vasco!

– Para você é doutor Vasconcelos.

O motorista quis gargalhar, mas conseguiu manter a compostura e o emprego.

– E que roupas horríveis! Você deveria ter vergonha de andar assim! Olha esses sapatos, que sujeira é essa? – esbravejou o passageiro.

– Bem, sen… quer dizer, doutor Vasconcelos… é que nem todo mundo tem a sua elegância! Quem sabe um dia eu não fico igual ao doutor, não é mesmo?

– Acho difícil, rapaz. Bem difícil. – disse o político, entrando no carro.

O motorista fechou a porta e deu a volta por trás do veículo. Desta vez ele pelo menos teve a chance de rir um pouco enquanto o passageiro não podia vê-lo. Entrou no carro e começou a conduzir o prefeito até a cerimônia.

Pouco tempo depois, eles já estavam na metade do caminho entre a fazenda e o centro da cidade. Faltavam ainda alguns minutos de estrada e Vasco falava ao celular com algum padrinho político. Ria bastante alto e parecia se divertir bastante, mas ao desligar o telefone sua expressão tornou-se mais séria.

O motorista viu essa mudança pelo retrovisor, mas preferiu não perguntar nada. Afinal, o mais provável era que receberia mais uma resposta grosseira do passageiro. O prefeito, no entanto, não precisou de pergunta:

– O que foi, rapaz? Perdeu algo aqui? Melhor olhar para frente!

– Sim, doutor Vasconcelos.

O condutor então voltou o olhar para a estrada, mas não deixou de espiar pelo retrovisor de vez em quando. Na primeira vez, viu o prefeito sério, como se algo de repente o incomodasse. Pouco tempo depois, o político estava ficando mais agitado, tentando talvez buscar uma posição mais confortável.

Na terceira vez em que olhou pelo retrovisor, o motorista viu Vasco relaxar um pouco a gravata e não se conteve:

– Doutor Vasconcelos, algum problema?

– Nada, rapaz! Volte a prestar atenção na estrada!

– Mas assim o senhor não fica tão elegante, ora! Está tudo bem mesmo?

O político apenas gesticulou para que ele se calasse. O condutor atendeu, mas insistiu em observar o passageiro pelo espelho. Vasco passava as mãos na testa, enxugando um suor que se tornava cada vez mais abundante, e não conseguia ficar em nenhuma posição por muito tempo.

– Rapaz, não dá pra ir mais rápido não?

– Posso tentar, doutor.

O prefeito parecia ainda mais suado e agitado do que há poucos minutos. Juntando a súbita pressa ao suor e aos calafrios que via seu passageiro sentir no banco traseiro, o motorista resolveu tentar adivinhar:

– É diarreia, doutor?

Vasco apenas balançou a cabeça para confirmar. Enquanto isso, o condutor não resistiu e acabou soltando uma risada:

– Nada melhor para acabar com uma pompa, não é mesmo?

– Rapaz, vamos logo com essa estrada!

– Ok, doutor Vasconcelos! Melhor corrermos mesmo!

O motorista então acelerou o carro pela estrada e, a cada curva que fazia, o passageiro parecia que não ia aguentar mais. O prefeito então gritou do banco de trás:

– Mais devagar, rapaz! Quer me matar?

– Mas é pra ir rápido ou devagar, doutor?

Antes que o político pudesse responder, o condutor acrescentou:

– Tem um posto de gasolina ali na frente, o doutor quer que eu pare lá?

– De jeito nenhum! Aquilo lá é um horror!

– Ok. Vou seguir então.

A diarreia de Vasco, todavia, parecia ter outros planos. Uma dor ainda mais intensa atacou o prefeito, que acabou tendo que aceitar a realidade:

– Pode parar no posto, rapaz.

Assim que o carro parou, o político abriu a porta e desceu o mais rápido que pôde em direção ao banheiro. O motorista ficou no carro se divertindo com a desajeitada tentativa do doutor Vasconcelos de correr sem mexer demais os quadris. Bendita diarreia!

O banheiro do posto parecia ter sido limpo pela última vez há pelo menos uma década. O chão tinha uma camada de sujeira que aparentava já ter se juntado ao piso e se tornado parte da estrutura, e um vazamento em todas as pias ainda acrescentava água à mistura e criava algumas poças de imundície. O prefeito pensou que não poderia jamais entrar naquela pocilga, mas esse segundo de hesitação foi interrompido por mais um violento chamado do seu intestino. Teria que ser ali mesmo.

Ele então entrou no chiqueiro da mesma forma que o motorista o havia levado até ali: rápido, mas devagar. A cada passo até o sanitário seus sapatos grudavam ao chão, mas isso não o incomodava nesse momento. Finalmente ele conseguiu chegar ao assento imundo e pôde apaziguar seu intestino.

Apenas depois do alívio é que ele se deu conta de que ali não havia papel, de que o cheiro do banheiro era o pior que ele já havia sentido e de que na pressa ele tinha deixado as calças descansarem naquele chão terrível. Maldita diarreia!

Vasco então saiu do lavatório e passou pelas bombas até chegar ao carro. O motorista estava segurando a porta de trás aberta, da mesma maneira que tinha feito na fazenda do prefeito. A imagem do político, no entanto, estava bem diferente. Ele tinha o cabelo despenteado, a gravata solta e a sua camisa ensopada de suor. Isso sem falar na sujeira das calças, que ficaram arrastando pelo chão do banheiro.

O condutor buscou o celular no bolso para registrar o momento, mas desistiu: já era sofrimento demais para o doutor Vasconcelos, isso seria até covardia. No entanto, pelo menos brincar com a situação ele imaginou que poderia:

– É, doutor… Que roupas horríveis! E esses sapatos, você não tem vergonha de andar assim?

Vasco então olhou para baixo e viu toda a sujeira. Além das calças, seus sapatos eram um espelho da bagunça do chão do banheiro. Como poderia tomar posse nessas condições?

– Rapaz, como que eu vou fazer? Sem meias, sem sapatos?

– Sem meias? – perguntou o condutor antes de iniciar mais uma gargalhada.

O prefeito continuava olhando para suas roupas com tristeza, mas acabou conseguindo abrir um breve sorriso.

– Bem, doutor Vasconcelos… quer usar os meus sapatos? Experimenta, talvez a gente não seja tão diferente assim, não é mesmo?

– Me dê isso logo, rapaz! – ordenou o político, mas desta vez com a mão no ombro do motorista e com uma voz bem mais cortês. Ele calçou os sapatos e exclamou:

– Ficaram ótimos, veja só! – disse, virando os pés e mostrando os sapatos para o motorista. – Até que são bem confortáveis! Muito obrigado!

– Eita! – exclamou o motorista. – Mas cadê aquela pompa toda, doutor? Cadê toda aquela vaidade, toda aquela prepotência?

– Ficaram na privada, meu amigo! O lugar dessas porcarias é lá mesmo!

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  • 4
  1. Eliana Mara disse:

    Parabéns, Flávio!
    Adorei ler e compartilhar. Este conto é um incentivo para refletirmos sobre as diversas oportunidades que a vida nos oferecem (no caso do “prefeito” a diarreia) para percebermos que de forma “robotizada” estamos nos tornando mais e mais hipócritas, demonstrando aos outros o que não somos. Infelizmente, a cada dia a aparência está valendo mais, e com isso a essência das pessoas tem sido gradativamente ignorada, menosprezada.
    Este conto nos ajuda a entender sobre a importância, para nós mesmos, das pequenas coisas que podemos fazer de uma forma grandiosa, como por exemplo, um simples sorriso tem a capacidade de mudar o dia das pessoas.

    27/fevereiro/2015 ás 09:04
  2. Ariana disse:

    A prepotência é um mal de alto poder negativo nas relações humanas.

    27/fevereiro/2015 ás 19:23
  3. Flávio,
    O ideal seria se desse diarreia em cada deputado de nossas
    Câmaras.

    02/março/2015 ás 22:33
  4. Rodrigo Resende disse:

    boa, boa, boa, Márcio Teixeira!

    04/março/2015 ás 22:51

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