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POUCO SONO EM IDOSOS PODE LEVAR À PERDA DE MEMÓRIA

POUCO SONO EM IDOSOS PODE LEVAR À PERDA DE MEMÓRIA

 

Leandro H G Lacerda, Rodrigo R Resende

Edição Avulsa Vol. 1, N. 2, 25 de Setembro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.09.25.001

 

Pesquisadores descobrem uma ligação entre falta de sono, perda de memória e deterioração do cérebro.

Vocês já pararam para pensar que nós passamos cerca de um terço de nossa vida dormindo? Dormir bem é essencial não apenas para ficar acordado no dia seguinte, mas para manter-se saudável, melhorar a qualidade de vida e até aumentar a longevidade.

A queixa da dificuldade de se lembrar de fatos e datas é uma das mais frequentes em pessoas idosas. O que não significa, entretanto, sinônimo de perda significativa da memória.

A ligação entre uma noite mal dormida, perda de memória e deterioração do cérebro à medida que envelhecemos não havia sido esclarecida. Mas, pela primeira vez, os cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, descobriram uma ligação entre estes males característicos da idade avançada. A descoberta abre caminho para a busca da melhor qualidade do sono em idosos, melhorando e preservando a memória.

Pesquisadores da Universidade de Berkeley na Califórnia, EUA, liderados pelo professor Dr. Matthew Walke, sugeriram que a interrupção do sono em idosos, mediada por mudanças estruturais do cérebro, representa um fator que contribui para o declínio cognitivo relacionado com a idade avançada. Isto quer dizer que, a falta de sono em pessoas mais velhas leva a perdas neuronais que, por conseguinte, levam a perda de memória (1).

Segundo os pesquisadores, uma característica reconhecida e problemática do envelhecimento humano (idade a partir dos 40, 50 anos) é a deterioração do sono e da capacidade de armazenar informações, que é medida pelo declínio cognitivo, incluindo a retenção diminuída em longo prazo das memórias episódicas. Isto quer dizer que, eventos como assistir a um filme, por exemplo, podem não ser lembrados após uma noite mal dormida (1).

Estas alterações cognitivas estão relacionadas com duas proeminentes, embora consideradas independentes, características do envelhecimento. A primeira é a atrofia cerebral estrutural, que é a perda de células neuronais pronunciada em regiões do lobo mediano frontal, responsável em regular as funções cognitivas e relacionadas às emoções que incluem as faculdades intelectuais, de julgamento e preditivas, além do planejamento do comportamento (Figura 1). O segundo é o declínio da qualidade do sono, que pode ser caracterizada por perda de sono ou ter pesadelos, medida por parâmetros eletroencefalográficos como o sono de ondas lentas (do inglês, slow-wave sleep, SWS) e a fase de movimento rápido dos olhos (do inglês, rapid eye-movement, REM), ambas relacionadas à avaliação da qualidade do sono.

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Figura 1: Áreas do cérebro e suas relações com a memória. As ondas cerebrais lentas ou slow waves (SWS) geradas durante o sono profundo são restauradoras, que normalmente ocorre na juventude, desempenhando um papel fundamental no transporte de memórias do hipocampo (em vermelho na figura à direita, e atua como armazenamento da memória de curto prazo) para o córtex pré-frontal (armazenamento da memória de longo prazo).

Só para entendermos melhor, através da análise do eletroencefalograma (EEG), que “desenha” as ondas cerebrais, podemos dividir o sono em 2 fases distintas: a fase de ondas lentas (do inglês, slow-wave sleep, SWS) e a fase de movimento rápido dos olhos (do inglês, rapid eye-movement, REM). A fase SWS pode ainda ser subdividida em Fases 1, 2, 3 e 4. É nesta fase que ocorre a maioria dos sonhos. Em cada noite de sono, há uma alternância a cada 90 minutos, em média, entre as fases SWS e REM, mas na segunda parte da noite predomina a fase REM (Figura 2).

 

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Figura 2: A figura (A) mostra o perfil eletroencefalográfico do sono de ondas lentas ou slow wave sleep (SWS); Em (B) é mostrado o perfil eletroencefalográfico do sono rapid eye moviment (REM) ou movimento rápido dos olhos. E em (C) está representado um esquema de como o sono é dividido.

Os Neurocientistas descobriram que as ondas cerebrais lentas ou slow waves (SWS) geradas durante o sono profundo são restauradoras, que normalmente ocorre na juventude, desempenhando um papel fundamental no transporte de memórias do hipocampo (armazenamento da memória de curto prazo) para o córtex pré-frontal (armazenamento da memória de longo prazo) (1).

Os resultados do estudo sugerem que em adultos mais velhos, a má qualidade do sono pode fazer com que a memória fique presa no hipocampo, e, consequentemente, estas memórias serão substituídas por novas memórias. Isso leva ao esquecimento, mas nem tudo é representado pelo lado negativo. Uma grande possibilidade para isso é que lembranças ruins podem se tornar boas lembranças, desde que se faça uma apresentação sociável agradável da pessoa quando em contato com a lembrança ruim. Isso poderia condicionar a lembrança ruim a uma ação agradável, sendo a lembrança ruim substituída pela agradável (2).

O que foi descoberto é um caminho disfuncional que ajuda a explicar a relação entre a deterioração cerebral, distúrbios do sono e perda de memória à medida que envelhecemos, e, com isso, uma via potencial de tratamento. As descobertas visam contribuir para a elucidação do por que nos idosos ocorrem alguns esquecimentos, como, por exemplo, dificuldade para lembrar nomes de pessoas.

Quando somos jovens, temos o sono profundo que ajuda o cérebro a armazenar e fixar novos fatos e informações, mas à medida que envelhecemos, a qualidade do nosso sono se deteriora e impede que essas memórias sejam armazenadas pelo cérebro durante a noite.

Adultos saudáveis ​​normalmente gastam um quarto da noite no sono profundo em non-rapid eye movement (NREM), que é um sono dito sincronizado, que corresponde a aproximadamente 75% do sono total (Figura 2).

Ondas lentas são geradas por meio do lóbulo frontal do cérebro. A deterioração da região frontal do cérebro em pessoas idosas está associada à sua incapacidade de gerar o sono profundo, segundo o estudo.

A descoberta de que as ondas lentas no córtex pré-frontal do cérebro podem ajudar a fortalecer as memórias, abre caminhos para futuros tratamentos terapêuticos para evitar a perda de memória em idosos, como a estimulação transcraniana de corrente contínua ou terapia medicamentosa. Por exemplo, em um estudo anterior, neurocientistas na Alemanha utilizaram com sucesso a estimulação elétrica do cérebro em adultos jovens para melhorar o sono profundo resultando em obtenção do dobro de sua memória durante a noite.

Os pesquisadores simularam um estudo de aumento de sono em adultos mais velhos com o objetivo de avaliar se ocorreria uma maior preservação da memória durante a noite. Com isso, poderia se induzir sono de ondas lentas e ajudar as pessoas a lembrar de momentos importantes de suas vidas e ajudá-las a preservar as memórias. É uma possibilidade empolgante.

Para o estudo da UC Berkeley, o Dr. Mander e seus colegas testaram a memória de 18 adultos saudáveis ​​jovens (a maioria na faixa dos 20 anos) e 15 idosos saudáveis ​​(principalmente na faixa dos 70 anos) depois de uma noite inteira de sono. Antes de ir para a cama, os participantes aprenderam e foram testados com 120 conjuntos de palavras que foram utilizadas para avaliar suas memórias (1).

Enquanto dormiam, a atividade de suas ondas cerebrais fora mensurada por um eletroencefalograma (EEG). Na manhã seguinte, eles foram testados novamente com os pares de palavras, mas desta vez, foi utilizado a técnica de ressonância magnética para avaliação funcional e estrutural do cérebro (1).

Em adultos mais velhos, os resultados mostraram uma clara relação entre o grau de deterioração cerebral no lobo frontal médio e da gravidade da deficiência (a atividade de onda lenta) durante o sono. Em média, a qualidade do sono profundo nos idosos foi 75% menor do que a dos participantes mais jovens, e a memorização dos pares de palavras no dia seguinte foi de 55% pior (Figura 3) (1).

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 Figura 3: A qualidade do sono em idosos leva à perda de memória. Em adultos mais velhos, os resultados mostraram uma clara relação entre o grau de deterioração cerebral no lobo frontal médio e da gravidade da deficiência (a atividade de onda lenta) durante o sono. Em média, a qualidade do sono profundo nos idosos foi 75% menor do que a dos participantes mais jovens, e a memorização dos pares de palavras no dia seguinte foi de 55% pior.

Enquanto isso, em adultos jovens, exames cerebrais mostraram que o sono profundo foi fundamental no processo de mudança da memória de curto prazo para memória de longo prazo, ou seja, a fixação do armazenamento em curto prazo, no hipocampo, sendo transmitida para o armazenamento de longo prazo, no córtex pré-frontal (1).

Com base nestes resultados, abre-se possibilidades para se testar se tais alterações relacionadas ao sono representam um fator predisponente ao início, ou acelerador de declínio cognitivo em idosos (3), e, ainda, qual o papel, se é que existe, de uma perturbação semelhante do sono NREM (sem movimento rápido dos olhos) com o de ondas lentas (SWA) tem em relação à doenças degenerativas com anormalidades do sono (4)(5). Estes resultados ainda mais se relacionam com a proposta emergente de que, fatores como o sono, são características importantes que determinam um envelhecimento saudável, além da idade por si (5). Em nível clínico ou médico, e à luz dessa literatura, esse trabalho endossa a possibilidade de que melhorias do sono com ondas lentas (SWA) em adultos mais velhos, através de meios fisiológicos, comportamentais ou farmacológicos (6, 7), podem representar um alvo de tratamento para minimizar o declínio cognitivo associado com a retenção deficiente da memória de longo prazo na vida adulta.

Com esses estudos, fica claro que, todos os meios que possam levar a um sono mais agradável e, por conseguinte, com menos estresse, podem ajudar na memória. Uma proposta que deixamos é que, como a meditação é capaz de realizar variadas alterações no cérebro e essas mudanças podem resultar em mais saúde, boas reflexões, menos estresse, menos ansiedade, resumindo, uma melhor qualidade de vida e um sono mais agradável, seria bom que cada um de nós reservasse um tempo para fazer essa atividade e enriquecer sua mente. Alguns pesquisadores acreditam que 10 minutos de meditação por dia são suficientes para conseguir boa parte desses benefícios (8) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/os-efeitos-da-meditacao-no-cerebro/).

 Referências

  1. Mander BA, Rao V, Lu B, Saletin JM, Lindquist JR, Ancoli-Israel S, et al. Prefrontal atrophy, disrupted NREM slow waves and impaired hippocampal-dependent memory in aging. Nature neuroscience. 2013 Mar;16(3):357-64. PubMed PMID: 23354332. Epub 2013/01/29. eng.
  2. Redondo RL, Kim J, Arons AL, Ramirez S, Liu X, Tonegawa S. Bidirectional switch of the valence associated with a hippocampal contextual memory engram. Nature. 2014 Aug 27. PubMed PMID: 25162525. Epub 2014/08/28. Eng.
  3. Kang JE, Lim MM, Bateman RJ, Lee JJ, Smyth LP, Cirrito JR, et al. Amyloid-beta dynamics are regulated by orexin and the sleep-wake cycle. Science. 2009 Nov 13;326(5955):1005-7. PubMed PMID: 19779148. Pubmed Central PMCID: 2789838. Epub 2009/09/26. eng.
  4. Westerberg CE, Mander BA, Florczak SM, Weintraub S, Mesulam MM, Zee PC, et al. Concurrent impairments in sleep and memory in amnestic mild cognitive impairment. Journal of the International Neuropsychological Society : JINS. 2012 May;18(3):490-500. PubMed PMID: 22300710. Pubmed Central PMCID: 3468412. Epub 2012/02/04. eng.
  5. Vitiello MV. Recent Advances in Understanding Sleep and Sleep Disturbances in Older Adults: Growing Older Does Not Mean Sleeping Poorly. Curr Dir Psychol Sci. 2009 Dec;18(6):316-20. PubMed PMID: ISI:000272537300003. English.
  6. Naylor E, Penev PD, Orbeta L, Janssen I, Ortiz R, Colecchia EF, et al. Daily social and physical activity increases slow-wave sleep and daytime neuropsychological performance in the elderly. Sleep. 2000 Feb 1;23(1):87-95. PubMed PMID: ISI:000085218200009. English.
  7. VanCauter E, Plat L, Scharf MB, Leproult R, Cespedes S, LHermiteBaleriaux M, et al. Simultaneous stimulation of slow-wave sleep and growth hormone secretion by gamma-hydroxybutyrate in normal young men. J Clin Invest. 1997 Aug 1;100(3):745-53. PubMed PMID: ISI:A1997XQ28000032. English.
  8. Campos DL, Kihara AH, Paschon V. Os efeitos da meditação no cérebro. Nanocell News. 2014 06/24/2014;1(13). Epub 06/24/2014.

 

 

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