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POSSÍVEL CURA PARA A ANEMIA CRÔNICA PODE ESTAR À CAMINHO

 POSSÍVEL CURA PARA A ANEMIA CRÔNICA PODE ESTAR À CAMINHO

Marcos Alexandre Bezerraa, Nathália Alves dos Santosb

a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo/USP

b Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo/USP

Vol. 1, N. 10, 22 de Abril de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.04.22.005

Anemia crônica é uma complicação debilitante comum caracterizada pela baixa quantidade de eritrócitos (hemácias), estando presente em diversos casos clínicos, incluindo a síndrome mielodisplásica (SMD) – uma síndrome de produção ineficiente de células mieloides e em particular de células vermelhas do sangue (hemácias) – talassemia, quimioterapia do câncer, doença crônica dos rins e hemorragia (1), além de contribuir para o aumento da morbidez e mortalidade, estando associada com a diminuição da qualidade de vida.

Além do quadro de anemia, também os pacientes apresentam hipóxia, ou seja, o portador de talassemia beta ou qualquer doença que causa anemia crônica, como hepatite C, quimioterapia do câncer, doença crônica dos rins e hemorragia, mesmo respirando normalmente, as células de seu corpo não conseguem aproveitar o oxigênio respirado e, consequentemente, tem baixa energia, ficam sonolentos, podendo levar até à morte.

Clinicamente, a terapia de transfusão sanguínea ou o tratamento com eritropoetina recombinante (EPO) – um hormônio primário que direciona o processo da eritropoiese ou produção de células sanguíneas – tem sido a linha de frente de terapias para o tratamento da anemia (2). Entretanto, ambos os tratamentos não excluem os fatores de risco e, em alguns casos, eles não são efetivos (3,4). Além disso, o tratamento pode ser complicado em alguns casos de anemia decorrente da eritropoiese ineficiente, o que agrava a oferta de oxigênio aos tecidos podendo levar à sobrecarga de ferro nos mesmos, causando uma doença ou patologia secundária (2).

De ante da necessidade em se obter um tratamento que não traga riscos ao paciente e que ao mesmo tempo seja efetivo contra a eritropoiese ineficaz, dois estudos publicados recentemente na revista Nature Medicine, sugerem um novo caminho para o tratamento da anemia crônica através da inibição sobre a sinalização de GDF11 (do inglês, Growth Differentiation Factor,Fator de Diferenciação do Crescimento) – um regulador da eritropoiese recentemente identificado. Os grupos de pesquisa dos Profs Dussiot e Suragani usaram diferentes versões de uma superfamília de um fator de crescimento de transformação do tipo β (sigla em inglês para TGF-β, Transforming Growth Factor β) ligados aos receptores de ativina humana com domínio extracelular dos tipos IIA (sotatercept (5)) e IIB (ACE-536 (6)) em modelos de ratos anêmicos decorrentes de eritropoiese ou produção de células sanguíneas ineficiente para induzir a diferenciação de células eritroides nestes animais (5).

O esquema da figura 1 (modificado de Katie Vicari) mostrado abaixo representa o modelo experimental utilizado pelas equipes dos pesquisadores responsáveis pelos estudos com a indução de β-talassemia – uma anemia congênita, que é hereditária ou passada dos pais para os filhos, associada à eritropoiese deficitária – levando assim a um quadro de anemia com consequente supressão de oxigênio ou elevação sobre os níveis de hipóxia nos tecidos, promovendo a produção de eritropoietina (hormônio de diferenciação de células eritroides ou hemácias). A partir deste modelo experimental, os pesquisadores observaram que a diferenciação deficitária de células eritroides resultante da síndrome β-talassêmica, levou a um aumento de eritroides progenitores expressando o fator de diferenciação de crescimento GDF11. O GDF11 mantém a sobrevivência destes progenitores e inibe sua diferenciação, agravando ainda mais a ineficiência da eritropoiese, isto é, quando as células precursoras, que dão origem às hemácias do sangue, expressam o GDF11, elas não se diferenciam mais em hemácias, não podendo assim, carregar o oxigênio respirado e eliminar a anemia (Figura 1A). A partir disso, os cientistas observaram que a inibição sobre do GDF11 com as proteínas sotatercept ou ACE-536 induzia apoptose ou morte de células eritroides progenitoras expressando GDF11, restaurando sua habilidade em se diferenciar, e assim, aliviar a anemia através da produção de um maior número de hemácias (Figura 1B).

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Figura 1. Aliviando a hematopoiese ineficiente com TGF-β. (A) Anemia decorrente da β-talassemia gera uma carência de oxigênio nos tecidos, promovendo a produção de eritropoietina (EPO) _ um hormônio primário que direciona o processo da eritropoiese ou produção de células sanguíneas. Em pacientes com β-talassemia a EPO induz a produção de células eritroides progenitores deficitários expressando GDF11, que inibem a produção de hemácias a partir destas células. (B) A inibição da expressão de GDF11 sobre células eritroides progenitores, através da ligação das proteínas sotarcept or ACE-563, possibilita a diferenciação destes eritroides em hemácias, normalizando o quadro de anemia.

Os resultados obtidos a partir destes dois estudos envolvendo a ação de proteínas sobre a via de sinalização do GDF11, um fator envolvido na diferenciação de células eritroides durante o processo de eritropoiese, são extremamente relevantes, pois abrem não só um novo caminho para o entendimento sobre a regulação de eritroides a partir da sinalização deste fator de diferenciação, como também cria a perspectiva de que no futuro próximo o conhecimento sobre esses mecanismos possam vir a contribuir para amenização ou até mesmo o combate da anemia, uma doença que é responsável ainda hoje por um grave problema de saúde pública no Brasil acometendo principalmente crianças e mulheres.

Glossário

O termo mieloide sugere uma origem na medula óssea ou na medula espinhal. Na hematopoiese ou produção de células do sangue, o termo “célula mieloide” é usado para descrever qualquer leucócito que não seja um linfócito.

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Referências Bibliográficas:

1. Smith RE. The clinical and economic burden of anemia. Am. J. Manag. 2010; 16 (suppl): 59-66.

2. Robert FP. Targeting a new regulator of erythropoiesis to alleviate anemia. Nature medicine. News and views. 2014; 20: 334-335.

3. Shander A, Javidroozi M, Ozawa S, Hare, GM. What is really dangerous: anaemia or transfusion?. British Journal of Anaesthesia. 2011;107(suppl. 1): i41–i59.

4. Dicato M, Plawny L. Anemia in cancer. Annals of Oncology. 2010;22: 307–311.

5. Dussiot M, Maciel TT, Fricot A, Chartier A, Negre O, Veiga J et al. An activina receptor IIA ligand trap corrects ineffective erythropoiesis in β-thalassemia.Nature Medicine. 2014; 20: 398–407.

6. Suragani, RNVS, Cadena SM, Cawley SM, Saco D, Mitchell D, Li R et al. Transforming growth factor-β ligand trap ACE-536 corrects anemia by promoting late-stage erythropoiesis. Nature Medicine. 2014; 20: 408–414.

 

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