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PEQUENOS SENTIMENTOS

PEQUENOS SENTIMENTOS

Edição Vol. 3, N. 15, 31 de Agosto de 2016

Flávio Carvalho

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.09.01.005

– Então, quinto ano… Vamos lá? Quinze minutos para vocês terminarem!

A professora, depois de distribuir a tarefa, deixou os meninos trabalharem sozinhos. A tarefa era simples: um desenho utilizando aquarela, giz de cera ou lápis de cor. No final do tempo, os alunos entregariam seu trabalho de presente a um dos colegas.

Simples para a professora, que ganhou um tempo para ir até a sua sala e tomar um café na volta. Bruninho, todavia, já começava a suar:

– Ô, Lucas! – e cutucou o colega ao seu lado. – Como que eu faço, hein?

– Desenha, ué!

– Mas eu não sei desenhar!

– Ah, Bruninho… Você é o mais inteligente daqui, se vira!

Lucas então molhou seu pincel e começou a pintar sua folha. Bruninho olhava por cima do braço do colega, tentando aprender alguma coisa. No papel, começava a tomar forma um casal de mãos dadas sobre o que parecia ser um gramado.

– Você vai entregar pra quem, Lucas?

– Não te interessa! – respondeu, encobrindo a folha com um dos braços.

– Eu só queria saber se…

– Não é pra Carol, tá? Pode ficar tranquilo!

Bruninho arregalou os olhos e virou o pescoço para a esquerda. A menina estava a umas quatro fileiras dali e continuava colorindo o seu papel. O garoto respirou mais aliviado:

– Pô, Lucas… Fala baixo…

– Pra quê? Todo mundo já sabe, Bruninho!

Ele olhou para ela mais uma vez. A menina estava abraçada à carteira, com pelo menos dez lápis diferentes espalhados sobre o seu desenho. Coloria devagar e usava até o lápis branco de vez em quando. Fazia tudo sem tirar os olhos do papel.

Lucas já estava terminando o seu trabalho enquanto seu colega continuava olhando para a folha em branco. Bruninho suspirava, começava a fazer um rascunho com seu lápis preto e acabava apagando tudo antes de completar a primeira forma. Também já estava incomodado com a bagunça da sala sem supervisão, com os gritos das meninas lá da frente e com as reclamações da Rafaela toda vez que Lucas roubava sua caneta brilhante.

Um dos meninos gritou para a turma que a professora já estava voltando. Depois de algum corre-corre, aqueles que estavam de pé retornaram aos seus lugares e todos voltaram seus olhos para seus próprios desenhos. Bruninho já estava com os cotovelos sobre a carteira e com as duas mãos sobre o rosto quando a professora entrou na sala e lhes deu mais cinco minutos para terminarem os desenhos.

– Quê isso, Bruninho? – disse Lucas, com um tapa no braço do colega. – Você não fez nada?

– Eu não sei desenhar! Já te falei!

– Me dá logo isso aqui! – e puxou o papel da mão para a sua própria carteira. – O que você quer fazer?

– Eu não sei também! Me ajuda!

– Tá, faz assim… – e começou a desenhar um garoto que ocupava toda a folha. – Você vai dar pra ela, não vai?

– Sei lá, eu não…

– Agora vai ter que dar!

Depois de mais alguns rabiscos rápidos, Lucas devolveu o papel para o colega. Na folha estava um menino com o mesmo cabelo partido de lado de Bruninho segurando um cartaz ao lado do rosto sorridente.

– Escreve aí no quadrado o que você quiser e entrega!

Bruninho recolocou o papel sobre a carteira. Apoiou novamente o rosto nas mãos e ficou olhando por entre os dedos para o quadrado que sua caricatura segurava.

– Vou ter que escrever pra você também? – perguntou Lucas.

– Não! – disse o garoto, puxando a folha com força e se debruçando sobre a carteira. Encobrindo o papel, completou o espaço no desenho. – Valeu, Lucas!

Alguns minutos depois, a professora ordenou que os alunos entregassem os presentes aos colegas. Os garotos do fundo da sala trocaram seus desenhos dentro da sua turminha, todos recheados de caveiras e palavrões, o que gerou uma gritaria entre eles. A bagunça na sala ajudou a encorajar os mais tímidos, que começaram a sair dos seus lugares.

– Aproveita a zona, Bruninho! Corre lá!

– Eu tenho vergonha, Lucas…

– Vai lá! Anda! – e empurrou o colega para fora da carteira.

Bruninho quase caiu, mas se apoiou em uma das pernas e se colocou de pé. Por mais que andasse com passos rápidos, a caminhada até a carteira da garota parecia interminável. Ela ainda acertava os últimos detalhes do seu desenho, faltava uma dobra para fechar o pequeno envelope…

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– Ei, Carol!

– Oi, Bruninho!

– Eu… Eu fiz pra você. Toma! – e estendeu com tanta firmeza o seu desenho que fez a garota jogar o rosto para trás.

– Ô, Bruninho… Que fofo! – respondeu, desdobrando o papel úmido. – Obrigada, viu?

– Você gostou mesmo?

– Gostei sim!

Ele ainda ficou de pé ao lado da carteira dela por alguns segundos. Colocou as mãos nos bolsos, desviou o olhar para os pés e depois para a parede. A menina continuava sentada, batendo seu desenho na carteira.

– Bruninho, você me faz um favor?

– Faço sim! Pode falar!

– Fala pro Lucas correr aqui um pouquinho?

O garoto fez que sim com a cabeça e caminhou de volta até a sua carteira. Voltou apressado, com o olhar fixo no chão até se sentar ao lado de Lucas. O colega, ansioso pela volta de Bruninho, perguntou:

– E aí, cara? Deu certo?

– Não sei, vai lá. – respondeu sem virar o rosto para Lucas.

– Lá onde?

– Vai lá, ela tá te chamando.

Lucas não disse nada e voltou seu olhar para o papel que segurava. Bruninho também manteve o silêncio e o olhar fixo no quadro negro enquanto mastigava a ponta da lapiseira.

– Você não vai? – Bruninho quebrou o silêncio.

– Não.

– Pode ir. Anda!

– Não.

E desta vez foi Bruninho quem empurrou o amigo. Sem soltar o seu desenho, Lucas aproveitou o empurrão para iniciar a sua caminhada até a garota. Na metade do caminho, porém, voltou até a carteira do colega:

– Bruninho, me ajuda também? Entrega o meu? – e estendeu seu desenho.

– Pode me dar. – respondeu, ainda sem levantar os olhos. – Pra quem que é?

– Tá escrito aí… Valeu!

Dividido entre alívio a abatimento, Bruninho olhou para o papel que Lucas acabara de lhe entregar enquanto o outro caminhava até Carol. No cantinho do papel estava escrito “Para Rafaela”.

A garota estava ao alcance do seu braço, então Bruninho cutucou seu ombro. Quando ela se virou, ele entregou o papel a ela:

– O Lucas pediu pra te entregar.

– Argh! Menino chato esse!

– Ele é gente boa, Rafa…

– Só se for com você!

Ela então abriu o desenho, olhou por uns dois segundos e o jogou dentro da sua mochila. Enquanto isso, Lucas estava ao lado da carteira de Carol. Bruninho observou enquanto ela entregava o papel ao outro garoto. Ele parecia agradecer com a cabeça enquanto desfazia o pequeno envelope que ela havia dobrado. Depois de poucos segundos olhando para o papel, o menino refez a dobra e colocou o desenho no bolso da bermuda antes de dar dois tapinhas nas costas da menina e iniciar a volta até sua carteira.

Evitando cruzar olhares com Lucas ou Carol, Bruninho ajeitou rapidamente seu corpo e virou-se para o quadro. Sobre sua carteira ele encontrou um papel dobrado ao meio com seu nome escrito em letras brilhantes.

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  • 2
  1. Ariana disse:

    Será que alguém escapou de pequenos sentimentos na flor da juventude?

    04/setembro/2016 ás 12:53
  2. henrique disse:

    Olá Flávio,
    Gostaria de saber de sua experiência com a fosfo ?
    Ainda está tomando ? Como vc está ?

    Abs
    H

    17/outubro/2016 ás 21:23

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