web analytics

Lucas Araújo Ferreira1

1 Biomédico, Especialista, Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários pela UFPA

Edição Vol. 8, N. 6, 23 de Abril de 2021

Figura 1: Camelos dromedários e possíveis ecto, endo ou hemoparasitos. Fonte: Sazmand et al., 2019.

Os camelos são uma importante fonte de carne e leite em muitas regiões do mundo, principalmente na Ásia e na África. O animal que apresenta uma corcova, também conhecido como dromedário (Camelus dromedarius), representa aproximadamente 95% de toda a população de camelos do Velho Mundo, estando distribuído em 47 países e normalmente desempenhando um papel crucial na economia.

Por serem importantes fontes de alimento nas zonas semiáridas e áridas, o papel dos dromedários passou de “Navio do Deserto” para espécie de “Gado de Segurança Alimentar”. O presente artigo revisa o conhecimento atual sobre parasitos zoonóticos relatados em camelos e lacunas sobre o tema que devem ser abordadas em pesquisas futuras.

No que se refere a doenças zoonóticas de camelos publicados entre 1970 e 2018, a maioria abordar a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), hidatidose, brucelose e febre do Vale do Rift. A equinococose de camelo é a infecção parasitária zoonótica mais estudada que afeta humanos, mas Toxoplasma gondii (Toxoplasmose), Cryptosporidium spp., Fasciola spp., Trichinella spp. e Linguatula serrata originária de camelos também são considerados grandes riscos à saúde pública. Relativamente poucos parasitos de camelos são específicos para esta espécie hospedeira. Desse modo, a transmissão de parasitas zoonóticos inclui diferentes rotas de infecção, como contaminação fecal ou consumo de tecidos infectados crus ou malcozidos e leite.

Além disso, os camelos servem como hospedeiros reservatórios para Trypanosoma evansi ou podem ser infectados por trematódeos transmitidos por gastrópodes, bem como por vários ectoparasitas hematófagos, como carrapatos e pulgas – os quais podem transmitir patógenos zoonóticos virais e bacterianos. Esses parasitas e infecções foram detectados em camelos na Ásia e na África (não se sabe muito sobre a fauna parasitária de camelos na Austrália).

A criptosporidiose é um dos principais parasitas zoonóticos associados a surtos de origem alimentar e hídrica. Das 39 espécies válidas e aproximadamente 70 genótipos de Cryptosporidium adaptados ao hospedeiro, mais de 20 foram identificados em pacientes humanos causando doença gastrointestinal assintomática ou leve a grave. Até o presente estudo apenas um relato oficial documentou a zoonose ligada a camelos do Irã, onde 24 de 100 pessoas em contato de longo prazo com os animais foram infectadas com Cryptosporidium spp.

A giardíase é extremamente comum em nações industrializadas e países em desenvolvimento, e é responsável por cerca de 280 milhões de casos humanos de diarreia todos os anos. Há apenas um relatório sobre o diagnóstico microscópico de cistos e trofozoítos de Giardia em camelos dromedários, sem estudo de base molecular sobre as espécies e genótipos.

Devido à sua variedade excepcionalmente ampla de hospedeiros de sangue quente e frio, o T. gondii é um dos parasitos zoonóticos de maior sucesso no que se refere a adaptação na Terra. Como outros animais, os camelos adquirem a infecções através da ingestão de oocistos esporulados eliminados por gatos ou felinos selvagens no meio ambiente, já tendo sido relatado tanto a presença de anticorpos contra T. gondii em soros de dromedários de diferentes países como também o próprio DNA do parasito no sangue de dromedários iranianos.

Cistos de Toxoplasma gondii foram isolados de carne de camelo, apesar de os locais de predileção de cistos não terem sido completamente investigados nessa espécie hospedeira. Por outro lado, o consumo de fígado de camelo cru, hábito adotado por populações nômades de algumas comunidades africanas e asiáticas, pode representar um fator de risco para infecção em humanos, já que o T. gondii é frequentemente isolado de fígados de ruminantes domésticos e cavalos.

Além disso, o consumo de leite de camelo está se tornando cada vez mais popular nos últimos anos porque é mais rico em vitamina C e ferro do que o leite de vaca, com importantes efeitos terapêuticos para o tratamento da Diabetes Tipo 1 e redução de alergias em crianças. A implicação do leite de camelo não pasteurizado como fonte de toxoplasmose humana sugere que o consumo de leite cru ou produtos lácteos sem pasteurização ou tratamento térmico pode ser um risco para a saúde humana.

Devido à sua crescente importância como animal de criação em áreas marginais desérticas de países em desenvolvimento, o papel dos camelos na epidemiologia das infecções parasitárias zoonóticas precisa ser mais investigado – especialmente em vista dos fatores de risco associados a eles. Até agora, a pesquisa sobre parasitos de camelos têm se concentrado em relatos de casos ou pesquisas de prevalência por exame microscópico de amostras fecais ou esfregaços de sangue, enquanto a identificação de parasitas por ferramentas moleculares e análises filogenéticas são escassas.

Como grande parte da população de camelos é mantida em comunidades carentes de equipamentos e de pessoal treinado para a realização de exames parasitológicos, é necessário o desenvolvimento de testes de diagnóstico rápido para a detecção dos mais importantes parasitos de camelos. Além disso, as organizações internacionais e locais devem trabalhar para aumentar a conscientização sobre o risco zoonótico de parasitoses e as formas de transmissão de patógenos para pessoas que trabalham em contato próximo com camelos. Por fim, é importante que as comunidades em contato com camelos tenham consciência do alto risco de adquirir infecções zoonóticas pelo consumo de leite cru, carne e fígado desses animais caso estejam infectados.

REFERÊNCIAS

(1) Sazmand et al., “Zoonotic parasites of dromedary camels: so important, so ignored”. Parasites Vectors (2019) 12:610 https://doi.org/10.1186/s13071-019-3863-3

admin_cms

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*

Anuncie
Seja um parceiro do Nanocell News. Saiba como aqui.

Inscrição Newsletter

Deseja receber notícias de divulgação científica em seu e-mail?

Aqui você irá encontrar as últimas novidades da ciência com linguagem para o público leigo. É a divulgação científica para os brasileiros! O cadastro é gratuito!

Alô, Escolas!

Alô, Escolas! é um espaço destinado ao diálogo com as escolas, públicas e privadas, seus professores e alunos de todas as áreas (humanas, exatas ou ciências) do ensino médio e superior. A seção Desperte o cientista em você traz notícias, dicas de atividades e experimentos para uso em sala. Aqui você encontra também informações sobre a coleção de livros publicados pelo NANOCELL NEWS sobre ciências e saúde, e sobre o Programa Instituto Nanocell de Apoio à Educação.

Edições Anteriores

Curta a nossa página

css.php