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Patrícia de Carvalho Ribeiro, Daniel Mendes Filho, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 6, N. 1, 28 de Janeiro de 2019

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Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Abdominal_obesity#/media/File:Buclin.jpg

A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. Suas causas podem ser diversas, desde alimentação inadequada a fatores genéticos e psicológicos. A prevalência da doença tem crescido no mundo inteiro. No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que houve um aumento de 60% no número de obesos entre os anos de 2006 e 2016, sendo que a prevalência da doença passou de 11,8% para 18,9%. Ou seja, a cada cinco brasileiros um está obeso1.

A obesidade pode trazer ainda sérios riscos à saúde, como o desenvolvimento de outras doenças crônicas, sendo exemplos o diabetes tipo 2 e as doenças cardiovasculares 1. É por isso que cientistas do mundo inteiro tem trabalhado para tentar entender melhor a doença e buscar formas eficazes de tratamento.

Existe um hormônio em nosso corpo, chamado leptina, que é capaz de controlar o gasto energético. Este hormônio, que é secretado principalmente pelo tecido adiposo branco (um tipo de tecido rico em gorduras em nosso organismo), atua controlando o apetite e metabolismo, ao se ligar em receptores de células-alvo em uma região do cérebro chamada hipotálamo2. Ou seja, ao se comunicar com células específicas – através da ligação aos seus receptores – o hormônio é capaz de causar diversas alterações, as quais resultam no seu efeito como regulador do gasto energético, diminuindo o apetite quando os nossos estoques de energia estão cheios.

Tanto em roedores quanto em humanos, a obesidade causada por dieta rica em gordura está relacionada a altos níveis de leptina no sangue e, ao mesmo tempo, a um menor número de receptores de leptina nas células-alvo, o que chamamos de resistência a leptina3. Devido ao menor número de receptores nas células, a leptina não consegue controlar o apetite e atuar no metabolismo, e assim o indivíduo não perde peso. Os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da resistência a este hormônio são ainda muito incertos, e foi por isso que um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, Israel e Austrália escolheram estudar o porquê tal resistência é observada na obesidade3.

No trabalho, publicado recentemente na Science Translational Medicine, foi possível observar que a obesidade, induzida em camundongos por dieta rica em gorduras, aumenta a atividade de uma enzima (ou seja, uma proteína capaz de catalisar reações químicas) chamada metaloproteinase de matriz-2, a MMP-23. Através de um ensaio que permite separar e identificar as proteínas de uma amostra, chamado de Western Blot, foi possível observar que o domínio extracelular do receptor da leptina estava reduzido nos animais obesos, não permitindo a ligação do hormônio. Para analisar se a MMP-2 era capaz de atuar no domínio extracelular do receptor e clivá-lo, a enzima foi incubada juntamente com esta porção extracelular do receptor. Após a incubação, foram encontrados fragmentos distintos do receptor, ou seja, a MMP-2 é capaz de “quebrar” o domínio extracelular e inativá-lo.

Utilizando camundongos, submetidos a uma dieta rica em gordura e modificados geneticamente para não produzirem MMP-2, e, os cientistas descobriram que o domínio extracelular do receptor de leptina se encontrava em níveis normais3. Portanto, sem a MMP-2, não havia redução dessa região do receptor, comprovando mais uma vez o papel da enzima na obesidade.

O próximo passo dos pesquisadores foi então avaliar se a inativação da MMP-2 seria capaz de restaurar a função da leptina na perda de peso. Para isso, eles utilizaram a técnica de silenciamento gênico, injetando um trecho de RNA para atuar no hipotálamo e inativar a enzima. Como esperado, o ganho de peso foi menor nos animais tratados, mesmo recebendo dieta rica em gorduras. Além disso, não houve redução dos níveis do domínio extracelular do receptor da leptina3.

Como em indivíduos obesos é observada também inflamação crônica, os cientistas avaliaram se, ao tratar células do hipotálamo com compostos que aumentam a inflamação, ocorreria alteração na expressão da MMP-2. O que eles observaram foi que a MMP-2 aumentou sua expressão na presença de inflamação, o que poderia sugerir o motivo pelo qual ela se encontra em maiores quantidades na presença de obesidade3.

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Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Obesity.jpg

Com este trabalho, foi possível concluir que a inativação da enzima MMP-2 representa um tratamento promissor para obesidade. Os autores esperam, no futuro, identificar uma droga capaz de atuar na enzima, inativando-a e, dessa forma, diminuindo a resistência a leptina e favorecendo a ação do hormônio e a perda de peso.

Este estudo representa mais um passo em direção à compreensão da obesidade e desenvolvimento de novas estratégias de terapia, extremamente necessárias em nosso cenário mundial.

REFERÊNCIAS:

1. Governo do Brasil [homepage na internet] Obesidade cresce 60% em dez anos no Brasil [acesso em 31 de agosto de 2018]. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/editoria/saude/2017/04/obesidade-cresce-60-em-dez-anos-no-brasil.

2. Mazor R, Friedmann-Morvinski D, Alsaigh T, Kleifeld O6, Kistler EB, Rousso-Noori L, et al. Cleavage of the leptin receptor by matrix metalloproteinase-2 promotes leptin resistance and obesity in mice. Sci Transl Med. 2018 Aug 22;10(455).

3. Scientific American [homepage na internet] A Molecular Reason Why Obese People Have Trouble Losing Weight [acesso em 31 de agosto de 2018]. Disponível em: https://www.scientificamerican.com/article/a-molecular-reason-why-obese-people-have-trouble-losing-weight/.

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