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O VÍCIO PELO SABOR DOCE: É POSSÍVEL CONTROLAR NOSSO PALADAR?

Patrícia de Carvalho Ribeiro, Daniel Mendes Filho, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 5, N. 11, 13 de Agosto de 2018

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2018.08.13.004

Nosso paladar é capaz de reconhecer e responder a cinco diferentes estímulos: doce, salgado, amargo, azedo e umami (sendo que esse último é representado principalmente pelo sabor de alimentos que contém o aminoácido glutamato em grandes quantidades – carnes, por exemplo). Cada sabor é identificado por receptores específicos, localizados no epitélio da língua e do palato. Em relação ao doce, quando nosso paladar reconhece seu gosto, muitas vezes ocorre até certa forma de compulsão enquanto comemos (quando devoramos quase uma barra inteira de chocolate ao invés de comer apenas um pedaço, por exemplo). Mas e se fosse possível reverter esse gosto por doces? Ou reverter ainda a aversão que sentimos por alimentos amargos? 

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Figura 1 retirada do site https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Colors_dol%C3%A7os.jpg

Estudando como o cérebro processa os sabores doce e amargo, Li Wang e outros cientistas colaboradores dos Estados Unidos descobriram dados muito interessantes. Eles estudaram o paladar e as respostas cerebrais frente aos estímulos de sabores doce e amargo em camundongos, de forma a entender como o cérebro diferencia algo apetitoso de algo que causa aversão.

Para este estudo, foram utilizados camundongos modificados geneticamente, que apresentavam neurônios capazes de expressar proteínas fluorescentes: proteína verde para os neurônios das áreas do córtex relacionados ao gosto doce, e proteína vermelha para os neurônios das áreas do córtex relacionados ao sabor azedo. Após estudos por imagem, foi possível observar que as projeções dos neurônios das áreas dos sabores doce e azedo atingiram múltiplas áreas cerebrais, incluindo a amígdala. Esta área do cérebro está envolvida no processamento de emoção, motivação e na atribuição de valores (positivos ou negativos). O cientistas observaram que as projeções dos neurônios da área doce do córtex se conectavam em uma área da amígdala diferente das projeções dos neurônios da área de sabor azedo do córtex. Enquanto os neurônios da área doce se conectavam com a região basolateral anterior da amígdala, os neurônios da área de sabor azedo se conectavam principalmente com a região central.

Após essa descoberta, os pesquisadores presumiram então que cada área da amígdala era responsável pelo comportamento de compulsão ao comermos um doce ou ao comportamento de aversão ao sentirmos o gosto de alimentos azedos. Portanto, o próximo passo dos cientistas foi utilizar a optogenética (metodologia que combina o uso de luz, genética, e bioengenharia para diversos estudos), para observar o comportamento dos camundongos quando havia a fotoestimulação da região da amígdala relacionada ao doce, e quando eram fotoestimulados na região relacionada ao sabor azedo. Os resultados observados foram que os animais evitaram se deslocar e adentrar na câmara onde ocorria fotoestimualçao na amígdala das projeções relacionados ao gosto azedo, e eram atraídos para o local onde era fotoestimulada a região relacionada ao sabor doce. 

Além disso, os cientistas avaliaram se a estimulação destas áreas específicas da amígdala poderiam influenciar o comportamento de ingestão de alimentos nos animais. Ao se estimular a região relacionada ao doce, foi possível observar que os animais beberam água compulsivamente, enquanto durante a estimulação da região relacionada ao azedo, eles evitaram ingerir água. Em seguida, os camundongos foram expostos a um composto químico azedo e a uma solução doce. Quando ocorria a estimulação da região da amígdala relacionada ao doce, a ingestão do composto químico azedo apresentado aos camundongos aumentava, sendo que o contrário foi observado para a estimulação da área relacionada ao sabor azedo: os animais diminuíam a ingestão da solução doce.

O próximo experimento que os pesquisadores propuseram foi então avaliar se seria possível dissociar o gosto do alimento ingerido da atração ou aversão relacionada a ele, ou seja, sentir que está comendo algo doce mas não sentir compulsão por isso, ou sentir que está ingerindo algo amargo, mas sem experimentar a aversão que isso causa. Bloqueando as respostas da amígdala, tanto geneticamente quanto farmacologicamente, foi possível abolir as respostas comportamentais de atração ou aversão, quando os animais eram expostos a sabores doces e azedos. Dessa forma, foi possível suprimir a atração por doces observada no início dos experimentos.

Os dados apresentados por este trabalho são de extrema importância, pois podem contribuir para o futuro desenvolvimento de medicamentos que auxiliem no bloqueio das respostas aos sabores, contribuindo para o tratamentos de obesidade. Os resultados podem ajudar a entender ainda desordens alimentares, auxiliando na compreensão entre comportamento alimentar e sentimentos, como o de culpa observado na anorexia. 

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Figura 2 retirada do site https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Schokoladen-Genuss_06022015_133.jpg

É a ciência trazendo novos conhecimentos! É por isso que ciência é tão importante. Invista você também em ciências! 

REFERÊNCIAS:

Scientific American [homepage na internet A Matter of Taste: Can a Sweet Tooth Be Switched Off in the Brain? [acesso em 31 de maio de 2018]. Disponível em: https://www.scientificamerican.com/article/a-matter-of-taste-can-a-sweet-tooth-be-switched-off-in-the-brain/

Wang L, Gillis-Smith S, Peng Y, Zhang J, Chen X, Salzman CD, et al. The coding of valence and identity in the mammalian taste system. Nature. 2018 May 30.

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