Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

O USO DE PROTEÍNA BMP-2 NA REABILITAÇÃO DE INDIVÍDUOS COM FISSURA LABIOPALATINA

O USO DE PROTEÍNA BMP-2 NA REABILITAÇÃO DE INDIVÍDUOS COM FISSURA LABIOPALATINA

Marcos Roberto Tovani Palone

Especialista em Odontopediatria, Mestrando em Ciências da Reabilitação, Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo

Vol. 1, N. 6, 28 de janeiro de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.01.28.002

A fissura labiopalatina é a malformação craniofacial mais prevalente na espécie humana, com cerca de 1 caso para cada 650 nascidos vivos. Apresenta etiologia multifatorial, resultante da interação entre fatores genéticos e ambientais. Os indivíduos com fissura podem apresentar defeitos anatômicos nos tecidos labiais, alveolares e palatinos da maxila, que variam de acordo com a extensão e severidade de cada tipo 1,2.

No município de Bauru-SP, localiza-se o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), um centro especializado no tratamento de anomalias craniofaciais com reconhecimento nacional e internacional, contando com equipe altamente especializada, sobretudo para o tratamento da fissura labiopalatina 1,2.

No HRAC/USP, para a reabilitação dos pacientes com fissuras completas, as quais comprometem o tecido ósseo do rebordo alveolar (Figura 1), foi utilizado durante muitos anos o osso autógeno, do próprio paciente, obtido de sua crista ilíaca ou comumente chamado de bacia, com vistas a reconstruir a anatomia da maxila 3. A partir do avanço dos conhecimentos acerca da bioengenharia tecidual e suas aplicações na área da saúde, o procedimento de enxertia utilizado para o reparo do defeito ósseo, passou a substituir o uso do osso autógeno pelo Indutor Ósseo INFUSE® .

 proteina-bmp

Figura 1- Defeito ósseo em rebordo alveolar.

Fonte: Carvalho RM, 2011.

Este Indutor consiste de dois componentes: um recombinante humano, representado pela Proteína Morfogenética Óssea – 2 (BMP-2, do inglês, Bone Morphogenetic Protein – 2) e um veículo/arcabouço para essa proteína, a esponja de colágeno absorvível (Figuras 2A e 2B). A proteína constitui uma versão de engenharia genética da proteína natural humana, normalmente encontrada em pequenas quantidades no corpo, com o propósito de estimular a formação óssea. A Proteína Morfogenética Óssea Recombinante Humana Tipo-2 (rhBMP-2) e excipientes são liofilizados, ou seja, tem a água do composto retirada até virar um pó. A esponja de colágeno absorvível é uma matriz implantável absorvente, leve, branca, maleável de rhBMP-2, sendo composta por colágeno bovino tipo I, obtido do tendão flexor profundo (Tendão de Aquiles). A esponja age como um veículo (carreador) para a rhBMP-2 e funciona como uma armação para a formação do novo osso 5,6.

proteina-bmp-2

Figura 2A- Frascos com proteína liofilizada e água destilada.

Fonte: Carvalho RM, 2011.

 proteina-bmp-3

Figura 2B- Membrana de Colágeno.

Fonte: Carvalho RM, 2011.

A molécula de rhBMP-2, quando colocada em meio adequado induz formação óssea. O início do processo não se faz necessariamente pela introdução de células que formam osso. Ao contrário, a rhBMP-2 age localmente para concentrar as células mesenquimais hospedeiras ali e influenciar sua diferenciação em células formadoras de tecido ósseo (osteoblastos). Ela tem atividade mitogênica, mas esta é seletiva. Para que se tenha um efeito que possa ser observado clinicamente são necessárias doses superfisiológicas, algo em torno de 200.000 vezes a concentração fisiológica estimada da BMP-2 natural, encontrada no osso 4 (Figuras 3 e 4).

proteina-bmp-4

Figura 3- Recorte das membranas, após solubilização da proteína e embebição das membranas.

Fonte: Carvalho RM, 2011.

proteina-bmp-5

Figura 4- Acomodação das membranas na área da fissura.

Fonte: Carvalho RM, 2011.

Estudo recente realizado por Carvalho (2011) mostra que a cirurgia de enxerto alveolar para a reconstituição do defeito ósseo ocasionado pela fissura com a utilização da rhBMP-2 tem apresentado taxas de sucesso semelhantes aos de enxerto com osso autógeno obtido da crista ilíaca. Temos assim, uma alternativa para o tratamento de fissura labiopalatina, uma tecnologia totalmente brasileira.

Referências

1. Palone MRT, Silva TR, Vieira NA, Dalben GS. Microbiota do trato gastrintestinal de crianças com fissura envolvendo o palato. Microbiologia in foco. 2013; 5(21):11-18.

2. Freitas JADS, Neves LT, Almeida ALPF, Garib DG, Trindade-Suedam IK, Yaedú RYF et al. Rehabilitative treatment of cleft lip and palate: experience of the Hospital for Rehabilitation of Craniofacial Anomalies/USP (HRAC/USP)-Part 1: overall aspects. Journal of Applied Oral Science. 2012;20(1):9-15.

3. Palone MRT, Silva TR, Vieira NA, Dalben GS. A importância do controle da microbiota bucal e uso de biomaterial em cirurgias de enxerto alveolar secundário nos pacientes com fissura labiopalatina. Investigação. 2013 (no prelo).

4. Carvalho, RM. Reparo do defeito alveolar com proteína morfogenética óssea (rhBMP-2) em pacientes com fissura labiopalatina [tese]. Bauru: Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais; 2011 [acesso 2014-01-06]. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/61/61132/tde-14022012-100227/.

5. McKay WF, Peckham SM, Badura JM. A comprehensive clinical review of recombinant human bone morphogenetic protein-2 (INFUSE® Bone Graft). International orthopaedics. 2007;31(6):729-734.

6. Kraiwattanapong C, Boden SD, Louis-Ugbo J, Attallah E, Barnes B, Hutton WC. Comparison of Healos/bone marrow to INFUSE (rhBMP-2/ACS) with a collagen-ceramic sponge bulking agent as graft substitutes for lumbar spine fusion. Spine. 2005;30(9):1001-1007.

Print Friendly
  • O USO DE PROTEÍNA BMP-2 NA REABILITAÇÃO DE INDIVÍDUOS COM FISSURA LABIOPALATINA
  • 4
  1. renato da Silva Freitas disse:

    Caro Dr Palone
    Infelizmente esta tecnologia não brasileira. Este material é fabricado por uma empresa multinacional, e importada para o Brasil. Também o Sr. deve sempre colocar que este é um tratamento OFF-LABEL, ou seja, não liberado pela ANVISA para pacientes fissurados. Muito bom o caso.

    03/julho/2014 ás 16:09
  2. Marcos Roberto Tovani Palone disse:

    Prezado Dr. Renato da Silva Freitas,

    Agradeço suas considerações, no entanto, quando o texto refere-se à tecnologia “brasileira”, seria no sentido de valorizar a pratica pioneira dentre os grandes centros mundiais do HRAC/USP neste tipo de procedimento, apesar de o material empregado ser importado e de elevado custo. E, com relação ao emprego desta técnica, ela vem sendo aplicada rotineiramente nos pacientes do HRAC/USP que necessitam de reparo por meio de enxerto alveolar secundário e encontram-se dentro das indicações preconizadas para o emprego deste biomaterial.

    08/julho/2014 ás 09:43
  3. sueli disse:

    Afinal a ANS liberou ou nao o uso do rhBMP2?

    06/fevereiro/2015 ás 14:46
  4. ervino siebel neto disse:

    Boa tarde, parabéns pelo trabalho!
    gostaria de saber a indade dos pacientes que estão sendo submetidos a procedimentos de enxerto ósseo utilizando as BMP´s ? muito bobrigado!

    20/janeiro/2017 ás 16:51

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>