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Ronaldo Moraes Preto1, Morgana K. Borges Prado2

1 Graduando em Biotecnologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiás, Brasil

2 Biomédica, mestre e doutora em Ciências pelo programa de pós-graduação em Imunologia Básica e Aplicada da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (FMRP/USP) e docente do Centro Universitário de Mineiros, Campus de Trindade (UNIFIMES), Goiás, Brasil

Edição Vol. 8, N. 11, 01 de novembro de 2021

Figura 1: Esquema ilustrando a chuva de citocinas associada a SARA na Covid-19 e o mecanismo de ação da dexametasona. Fonte: adaptado de Noreen et al., 2021.

Os corticosteróides são hormônios esteroides utilizados para regular processos inflamatórios, e portanto, são considerados medicamentos anti-inflamatórios e imunossupressores. Para a utilização sistêmica, os corticosteróides mais utilizados são dexametasona, hidrocortisona, prednisolona e metilprednisolona (1). Esses medicamentos têm sido utilizados no tratamento de diversas doenças, como a asma, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, dermatites e mais recentemente, para o tratamento da Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA) observada em alguns pacientes com COVID-19 (1, 2). A COVID-19 é uma doença viral, causada pelo SARS-COV-2, que emergiu em 2019 e se espalhou pelo mundo provocando uma pandemia que acumula mais de 4.9 milhões de mortes (3,4).

Durante a infecção pelo SARS-COV-2, o vírus induz uma resposta imunológica e ativa vias inflamatórias, que ocasionalmente, podem provocar o fenômeno conhecido como “cytokine storm”, ou chuva de citocinas. Neste processo, as citocinas, como o interferon-gama (IFN-γ), o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), a interleucina-1 (IL-1), a interleucina-6 (IL-6) e a interleucina-12 (IL-12) são produzidas de maneira exacerbada, provocando lesões nos órgãos do indivíduo acometido, como a SARA, falência renal e lesão cardíaca aguda (5). A SARA é a causa primária de morte na COVID-19 e é caracterizada pela infiltração de células imunes nos pulmões, inflamação, aumento da permeabilidade da membrana alvéolo-capilar, que promove acúmulo de exsudato inflamatório nos sacos alveolares e cursam com redução da troca gasosa e hipoxemia (2).

A dexametasona é um corticosteróide que atua em diferentes vias do sistema imunológico. De forma geral, a dexametasona inibe o processo inflamatório em curso reduzindo a dilatação dos vasos e reduzindo a migração celular. A dexametasona se liga ao receptor para glicocorticoide (GR) presente na membrana citoplasmática e induz a sinalização de várias moléculas intracelulares que bloqueiam a produção das citocinas pró-inflamatórias IL-1, IL-2, IL-6, IL-8, TNF-α e IFN-γ. Ainda, a dexametasona age interrompendo etapas importantes do processo inflamatório, como a migração (redução das quimiocinas) e a ligação dos neutrófilos ao endotélio dos vasos (redução das moléculas de adesão). A dexametasona também exerce um efeito supressor sobre a liberação de enzimas lisossomais e inibe a ativação dos macrófagos, uma das células mais importantes na exacerbação da inflamação pulmonar em pacientes com COVID-19 (2).

Em março de 2020 um estudo clínico randomizado, denominado RECOVERY, foi iniciado com o objetivo de avaliar a eficácia terapêutica de várias drogas incluindo, a dexametasona em baixa dosagem, o lopinavir-ritonavir (antivirais), a hidroxicloroquina (antiparasitário e anti-inflamatório) e a azitromicina (antibiótico). Neste estudo apenas a dexametasona apresentou resultados satisfatórios reduzindo a taxa de mortalidade por COVID-19 em casos graves. Ainda, observou-se que o uso de dexametasona não demonstrou efeitos adversos significativos (6). Por outro lado, há de se considerar que o uso da dexametasona e outros corticosteróides não deve ser realizado em casos leves e moderados de COVID-19 por dois motivos. Uma vez que o medicamento atua como um imunossupressor, há risco de aumento na susceptibilidade do usuário a infecções secundárias, bem como, o atraso na eliminação do próprio SARS-COV-2 dos pulmões. Além disso, deve-se considerar que todo tratamento possui alguns efeitos adversos, dentre os quais, o desbalanço hormonal, a retenção de fluidos, o ganho de peso, a ansiedade e distúrbios do sono têm sido observados após o uso dos corticosteroides (2).

Em setembro de 2020 a Organização mundial de saúde (OMS) declarou efetivo o uso de corticosteróides para o tratamento da COVID-19 em pacientes graves e críticos e estabeleceu diretrizes para a sua utilização. Os fatores a se considerar ao prescrever os corticosteróides incluem a estimativa do risco-benefício a partir da avaliação de fatores que comprovam a gravidade da doença e a inexistência de comorbidades. Uma vez considerado o risco-benefício no uso dos corticosteróides, a administração desses medicamentos em pacientes graves e moderados com COVID-19 contribuem substancialmente no tratamento da doença (2).

Referências

  1. TORRES, Rafael Carvalho et al. Mecanismos celulares e moleculares da ação antiinflamatória dos glicocorticoides. Corpus et Scientia, v. 8, n.2, p.36-51, out. 2012.
  2. NOREEN, Sobia; MAQBOOL, Irsah; MADNI, Asadullah. Dexamethasone: Therapeutic potential, risks, and future projection during COVID-19 pandemic. European journal of pharmacology, p. 173854, 2021.
  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). COVID-19 weekly epidemiological update, edição 62, 19 outubro 2021. 2021. Diponível em: https://www.who.int/publications/m/item/weekly-epidemiological-update-on-covid-19—19-october-2021
  4. LIU, Yen-Chin; KUO, Rei-Lin; SHIH, Shin-Ru. COVID-19: The first documented coronavirus pandemic in history. Biomedical journal, v. 43, n. 4, p. 328-333, 2020.
  5. COSTELA-RUIZ, Víctor J. et al. SARS-CoV-2 infection: The role of cytokines in COVID-19 disease. Cytokine & growth factor reviews, v. 54, p. 62-75, 2020.
  6. RECOVERY COLLABORATIVE GROUP. Dexamethasone in hospitalized patients with Covid-19. New England Journal of Medicine, v. 384, n. 8, p. 693-704, 2021.

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