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O ÚLTIMO BRILHO DE UMA LEMBRANÇA RUIM

O ÚLTIMO BRILHO DE UMA LEMBRANÇA RUIM

Mauro Cunha Xavier Pinto

Laboratório de Neurociências, Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo e

Edição Vol. 2, N. 1, 01 de Outubro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.09.29.005

Todas as pessoas guardam na mente uma coleção de memórias boas ou ruins. Lembranças como o primeiro dia na escola, o dia do casamento ou a morte de um ente querido. Estas memórias são aquelas que têm maior relevância em nossas vidas, sempre voltando a povoar nossa mente mesmo após anos de sua ocorrência. Memórias que têm fortes associações emocionais, ou valências, são aquelas mais bem armazenadas pelo cérebro, podendo ser muitas vezes fonte de problemas como nos casos de transtorno do estresse pós-traumático e fobias.

Um novo estudo publicado na revista Nature por neurocientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, Massachusetts Institute of Technology) joga uma luz sobre os mecanismos neurais envolvidos na formação das valências das memórias. Neste estudo, os pesquisadores foram capazes de reverter a valência de uma memória, ou seja, mudaram a associação da memória de ruim para boa, e vice-versa, através da ativação de populações de células nas regiões do hipocampo e amígdala (1).

O hipocampo e a amígdala são duas estruturas cerebrais fundamentais para a formação, armazenamento e interpretação de novas memórias (Figura 1). O hipocampo é responsável pela conversão de memórias de curto prazo em memórias de longo prazo, na prática, isto significa que esta região forma, organiza e armazena novas informações no cérebro. Já a amígdala é fundamental para a formação de memórias associadas a um contexto emocional, sendo o núcleo que determina a relevância positiva ou negativa de uma nova informação.

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Figura 1. Principais estruturas cerebrais envolvidas na formação das valências das memórias.

Para entender como o hipocampo e a amígdala interagem para formar as valências das memórias, os pesquisadores do MIT utilizaram uma técnica que permite a estimulação de células neurais através de feixes de luz. Inicialmente, neurônios do giro denteado (DG) no hipocampo e da amígdala basolateral (BLA) receberam uma proteína sensível à luz, que permite a estimulação das células, e uma proteína fluorescente, que permite a identificação das células, através de um vírus injetado diretamente nestas áreas (2, 3) (para saber mais sobre proteínas fluorescentes veja mais em http://www.nanocell.org.br/avancos-no-diagnostico-para-deteccao-de-trombose-e-cancer-colorretal-atraves-de-amostra-de-urina/ ou http://www.nanocell.org.br/transgenia-de-peixes-a-microinjecao-em-foco/).

Na primeira etapa do estudo, os animais geneticamente modificados foram colocados em gaiolas especiais para identificar seu local preferido ou aversivo. Uma vez identificado o local, os neurônios destes animais eram estimulados com um feixe de luz, condicionando os animais a escolherem estes locais. Posteriormente, um estímulo aversivo (choque na pata) ou uma recompensa (encontro com uma fêmea) eram apresentados aos animais. Os pesquisadores observaram que os estímulos dos neurônios do hipocampo e da amídala potencializaram a retenção destas memórias (aversiva ou recompensa) (1).

Na segunda etapa, os pesquisadores tentaram reverter a valência das memórias (aversiva ou recompensa) através de uma ativação dos mesmos neurônios do giro dentado (DG) do hipocampo ou da amígdala. Neste caso, os animais receberem estímulos quando faziam tarefas opostas ao condicionamento inicial, ou seja, os animais que levaram um leve choque foram estimulados quando viram as fêmeas, e vice-versa. Como resultado, os animais que antes evitavam a região do choque, quando tiveram seus hipocampos estimulados, começaram a explorar a região, sugerindo uma mudança na valência da memória. Este efeito também aconteceu com os animais que antes haviam recebido a recompensa (1).

Este estudo sugere que as valências das memórias são codificadas no circuito que liga o DG do hipocampo à amígdala e podem ser reprogramadas por estímulos de valência oposta. Já as células da amígdala são programadas para codificar uma valência positiva ou negativa, não podendo alternar entre elas. A mudança da valência das memórias pode representar um futuro promissor para o tratamento de distúrbios do estresse pós-traumático, fobias e até mesmo a depressão (4) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/pouco-sono-em-idosos-pode-levar-a-perda-de-memoria/). Entender este processo é o primeiro passo para o desenvolvimento de novos fármacos e tratamentos.

Referências

1. Redondo RL, Kim J, Arons AL, Ramirez S, Liu X, Tonegawa S. Bidirectional switch of the valence associated with a hippocampal contextual memory engram. Nature. 2014 Sep 18;513(7518):426-30. PubMed PMID: 25162525. Pubmed Central PMCID: 4169316. Epub 2014/08/28. eng.

2. Tonelli FMP, Tonelli FCP, Resende RR. AVANÇOS NO DIAGNÓSTICO PARA DETECÇÃO DE TROMBOSE E CÂNCER COLORRETAL ATRAVÉS DE AMOSTRA DE URINA. Nanocell News. 2014 04/01/2014;1(9). Epub 03/31/2014.

3. Tonelli FCP, Araújo AR, Resende RR. Transgenia de peixes: a microinjeção em foco. Nanocell News. 2013 10/07/2013;1(1). Epub 10/07/2013.

4. Lacerda LHG, Resende RR. POUCO SONO EM IDOSOS PODE LEVAR À PERDA DE MEMÓRIA. Nanocell News. 2014 09/25/2014;1(2). Epub 09/25/2014.

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  • 1
  1. Nelson disse:

    Super interessante!

    13/outubro/2014 ás 11:22

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