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O PRIMEIRO PASSAGEIRO

O PRIMEIRO PASSAGEIRO

Flávio Carvalho

É escritor, educador físico e começa como colaborador no NANOCELL NEWS escrevendo trisemanalmente na seção CONTOS

Vol. 1, N. 16, 26 de Agosto de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.08.26.001

– Começou! – exclamou o rapaz ao ver as imagens aparecerem no seu monitor portátil. Aguardava seu ônibus de pé, sem saber se olhava para a ação do seu aparelho, para o relógio ou para a rua da qual deveria vir seu transporte, tamanha era a ansiedade para que seu trabalho começasse logo. Retirou o olhar do relógio no seu punho esquerdo e decidiu se concentrar na tela em suas mãos.

No aparelho ele via um senhor no supermercado passando pelos corredores sem desviar o olhar para nenhuma das prateleiras. Observou quando o sujeito chegou à seção de materiais de construção, pegou diversos modelos de cordas, esticou cada uma delas com o máximo de força e finalmente se decidiu pela primeira que havia testado. O homem, que após enrolar a corda apressadamente colocou embaixo do braço um banco de plástico, pegou a primeira garrafa de uísque que viu e se dirigiu ao caixa. Após acrescentar um maço de cigarros à sua compra, gargalhou ao dizer à atendente que pagaria no cartão de crédito.

– Finalmente! – disse o jovem ao ver o ônibus azul virar a esquina. Guardou todos os pertences de forma atabalhoada na mochila e desceu do meio-fio com um salto. Hoje era seu primeiro dia de campo. Sempre fazia serviço burocrático, recebendo as fichas e as distribuindo de acordo com o endereço do sujeito. Ainda pensava em como hoje seria diferente quando a porta do transporte se abriu lentamente, com o usual ruído.

– Que barulho terrível! – reclamou enquanto subia as escadas. Colocou a mochila em um dos bancos e se sentou na primeira cadeira atrás do condutor. – Esse ônibus tem quantos anos, quarenta?

– Quarenta e sete, pelo bem da exatidão. – respondeu friamente o condutor. – Já leu a ficha, estagiário? Já conhece o endereço? Estamos atrasados, muito atrasados. E nem queira saber o que acontece se não chegarmos a tempo!

O estagiário começou a procurar o papel com a referida ficha, mas ele não estava em sua mochila. – Eu… eu acho que esqueci a ficha, senhor…

O condutor então jogou o papel sobre o colo de seu pupilo.

– Perdão, senhor. – O estagiário, ainda com as mãos trêmulas, pegou a ficha sobre suas pernas. – Ah, achei! Roger, quarenta e seis anos, casado…

– Isso sim é importante, estagiário. Como você é sempre atento ao indispensável. Ele também tem um cachorrinho? É um labrador, não é? Ah não, é um buldogue. Nunca aprendi essas raças. Isso também é muito importante, não é? É imprescindível para o nosso trabalho. Ainda mais quando estamos atrasados, não sabemos como chegar ao destino e eu ainda não tenho a rota. E sabe qual a razão de eu ainda não ter a rota?

O pupilo abaixou a cabeça, deixou o papel junto ao monitor e abriu a mochila em busca do seu aparelho de GPS. As ironias de seu tutor eram arrasadoras, e ele ainda não havia se adaptado a tais indelicadezas.

– Aqui está. O caminho está no visor. – Entregou o aparelho e se sentou com as mãos entre os joelhos. – Senhor, o que acontece quando não chegamos no horário?

– Bem, acho que isso realmente se torna importante hoje. É bem possível que passemos por tal aborrecimento. Ernest Hemingway, abril de 1961.

Ao perceber que a resposta não teria maior explicação, o estagiário balançou a cabeça negativamente, mas não retrucou. Era mais oportuno aguardar por outro momento para buscar o complemento. Ou então, na pior das hipóteses, aguardar o fim desta busca.

– Esqueça isso. – prosseguiu o tutor. – E nosso amigo Roger, o que faz agora?

O estagiário, ainda trêmulo, pegou o monitor sobre o banco. – Ele acabou de descer do carro. – respondeu com a voz quase inaudível. – Sua garrafa de uísque está quase na metade e ele está carregando a corda na mão esquerda.

Observando o congestionamento formado na avenida, o preceptor coçou a cabeça. Com um suspiro, disse ao seu pupilo:

– Sem chance. Dez quilômetros nesse trânsito? Roger está perdido.

– Espere aí! – gritou o estagiário. – Ele deixou o banco no carro! Com certeza ele vai precisar dele, não vai?

– O tutor abriu um pequeno sorriso pelo canto da boca antes de dizer: – Ah, a previsibilidade da estupidez… sempre do nosso lado. Não tem nenhuma rota mais tranquila, estagiário? Realmente só existe esta avenida nesta cidade?

– Senhor, nosso ônibus está caindo aos pedaços! Como podemos passar por uma rua estreita ou por uma estrada sem asfalto? E agora já estamos passando ao redor do parque, não há mais o que ser feito!

– Estagiário, não sei por qual motivo você veio. Mas isso vai para o relatório, agora o que me importa é o meu amigo Roger. O que o seu lindo e cheiroso monitor japonês de última geração tem pra mostrar agora?

– Senhor… o seu amigo já voltou ao carro… acabou de pegar o banco… – O estagiário passou as mãos pelo rosto e coçou seu pomo-de-adão antes de prosseguir: – E aqui no canto do monitor apareceu um relógio… o tempo está decrescendo… significa que temos apenas mais nove minutos?

– E você, sapientíssimo, não gritou “Eureca!” antes de anunciar sua brilhante descoberta? É claro que o significado é este, Einstein. Mas sabe o que isso realmente significa? Isso quer dizer que nós não vamos chegar a não ser que esse ônibus magicamente se torne um helicóptero. Você crê nessa possibilidade, estagiário?

– Não, senhor. – respondeu o rapaz, que agora mal conseguia soltar a voz. Com o queixo quase colado ao peito, colocou o monitor no painel do veículo para que seu tutor pudesse acompanhar a ação diretamente.

O ônibus se encontrava parado em frente ao parque quando ambos passaram a olhar em silêncio para o monitor. Roger estava sentado à mesa da sala. Após escrever por alguns minutos ele dobrou um papel e colocou no bolso da camisa. Levantou-se e foi em direção à garagem. Cambaleava um pouco, mas isso não o impediu de chegar aonde pretendia. Arrastou o banco para debaixo de uma das vigas de madeira, pegou a corda que acabara de comprar e a lançou por cima do barrote. O relógio marcava ainda seis minutos.

– Estagiário, dando a volta pelo parque eu levo quinze minutos, talvez? – perguntou o preceptor, passando os dedos pelo queixo.

– Exato, senhor!

– E passando por dentro do parque? Seu lindo GPS consegue calcular?

E antes que o estagiário pudesse responder, o preceptor virou o volante com vigor e pisou firme no acelerador. As pupilas de seu pupilo denunciavam o terror e a surpresa vivenciados por ele.

– Senhor! Isso é proibido!

– E existe proibição para mim, estagiário? Não perco esse suicida por nada. – disse o preceptor enquanto rompia pelo portão do parque em alta velocidade. Pela primeira vez houve uma mudança no seu tom de voz. – Não vou permitir que um congestionamento inesperado, um ônibus velho ou um estagiário de pouca inteligência me impeçam de completar a ordem que me foi dada! Nada foi capaz de me impedir de chegar a Sócrates, van Gogh ou Nero! Isso para citar apenas os mais conhecidos que ficaram na minha alçada. Quer saber mais? Você acha que eles poderiam mandar qualquer um à Alemanha fazer aquela limpeza em 1945? E também em 1971…

– Senhor, mas e Hemingway? – interrompeu com certa insolência o pupilo. – Isso já aconteceu uma vez, não foi?

– Sim. E qual o resultado final, Einstein? Mesmo assim, ele foi o único que perdi. Os demais eram atribuições do setor quatro. – A voz do tutor retornou ao tom seco de anteriormente. – Agora, por favor, mantenha-se em silêncio.

E a dupla continuou sua feroz jornada pelo parque. O tremor e o barulho ensurdecedor do ônibus fizeram com que o pupilo entrasse em completo desespero. Enquanto o veículo causava terror por onde passava, o estagiário se agarrava ao banco da frente e torcia para sair ileso. Apenas o preceptor observava ocasionalmente o monitor, que nesse momento mostrava Roger terminando de amarrar sua corda à roda de seu carro. Ao tentar subir pela primeira vez em seu banco, acabou por derrubar a garrafa de bebida, formando um filete de uísque que criou uma poça na borracha do pneu do seu veículo. Depois de mais algumas tentativas, conseguiu se equilibrar sobre o banco e cuidadosamente ajeitou a corda ao redor do seu pescoço.

O relógio do monitor marcava apenas um minuto e quarenta segundos quando a parada brusca do ônibus o derrubou do painel. O tutor desceu correndo do transporte em direção à garagem da casa do suicida, enquanto o estagiário buscava o aparelho no assoalho do veículo. Roger já fumava seu último cigarro enquanto faltavam apenas noventa segundos. O estagiário ainda não podia ver seu preceptor no enquadramento quando o suicida se desequilibrou. Ainda tentou instintivamente buscar alguma estabilidade, mas foi em vão. Seus olhos se arregalaram com o súbito tranco da corda e seu cigarro caiu de sua boca. Faltavam cinquenta segundos.

Enquanto Roger se debatia, segurando a corda com toda a força que lhe restava, o cigarro aceso entrou em contato com o uísque. O estagiário agora conseguiu compreender o que aconteceria. Enquanto uma pequena labareda se formava em direção ao pneu do carro, ele percebeu que esta era a última chance de seu preceptor. Restavam-lhe trinta segundos e o tutor ainda não estava na garagem.

As chamas por fim entraram em contato com a corda amarrada ao pneu do carro, enquanto no relógio ainda restavam vinte segundos. O estagiário então olhou pela janela do ônibus. Viu seu tutor quebrando o cadeado da garagem com um extintor de incêndio. Com as mãos na cabeça e mordendo os lábios, voltou seu olhar para o monitor, onde pôde ver Roger quase sem forças para se debater.

O relógio, no entanto, ainda apontava que faltavam cinco segundos. O suicida ainda estava vivo e a corda ainda poderia se arrebentar, não fosse o repentino jato branco que surgiu no monitor. Um segundo depois a mão firme da Morte manteve inteira a corda, e Roger não mais respirou.

– Não no meu turno. – disse o tutor, ao subir novamente no ônibus que agora recebia o primeiro passageiro. – Agora, preencha o quadrado ao lado do nome deste suicida, troque a frequência do seu monitor e me dê a próxima ficha. – O estagiário cumpriu o comando. O ônibus azul continuou seu itinerário.

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  1. Ariana disse:

    Texto inteligente e instigante.

    14/setembro/2014 ás 11:50

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