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O DIVÓRCIO DA SANIDADE

O DIVÓRCIO DA SANIDADE

Márcio Bambirra Santos

Administrador e Economista. Professor no CEFET-MG

Edição Vol. 3, N. 1, 13 de Outubro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.10.13.003

Há muito se discute a qualidade e produtividade de nossas empresas e, principalmente, da qualificação dos profissionais que atuam nas mesmas. Temos estatísticas estarrecedoras que sempre põe o Brasil muito aquém da média mundial: http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/09/estudo-do-ipea-mostra-estagnacao-na-produtividade-brasileira.html

Não é preciso fazer muitos esforços para entender que baixa produtividade significa preços altos por custos realizados e de oportunidades cada vez mais insustentáveis, e o resultado é um só: desemprego. Quem quer comprar um bem (produto ou serviço) que custa R$ 100,00, se pode comprar o mesmo bem por R$60,00 , com qualidade igual ou melhor?

Nas últimas décadas viemos reforçando o papel que as grandes potências nos reservaram: o de entreposto comercial, isto é, compra e venda de commodities. Não conseguimos unir esforços e alinhar objetivos para uma mudança urgente e necessária na qual o que fazemos possa ter competitividade no mercado mundial. Como já perdemos as batalhas do momento presente pela politicagem e corrupção, continuamos acreditando no “mais do mesmo”. Cursinho técnico daqui, dali, mais dinheiro ao Sistema S, mais Pronatec acolá, e os resultados são apenas residuais. Ta´ bom tá, mas poderia ser muito melhor.

Isso passa por uma nova e radical postura de prepararmos a nossa juventude para os futuros desafios. Chega do “aprender fazendo”, “se colar-colou”, “vamos em frente prá ver como é que fica”, e outras formas mirabolantes que escondem a incompetência de muitos e não valoriza o comprometimento de poucos. Se não houver um planejamento integrado e um consequente gerenciamento de indicadores que reflitam os valores necessários ao crescimento da competitividade brasileira, a mágica só vai ocorrer nos estudos teóricos academicistas que saem do nada e chegam a lugar algum.

A competência que precisamos necessita de conhecimento e experiência profissional, habilidades focadas ao exercício da carreira, atitudes que devem ser lapidadas por pessoas éticas e ambiente (físico/instalações, equipamentos e relações interpessoais), propícias para desdobramentos de múltiplos interesses.

O que observamos há décadas, sobretudo nas universidades públicas? Uma dissociação entre a teoria e a prática. Cursos de graduação e pós-graduação que empregam meninos e meninas como professores, sem qualquer preparação didático-pedagógica, e que simplesmente passam no mestrado e/ou doutorado, e por falta de opções mais vantajosas, migram para os concursos de professores de diversas áreas. E o que é pior, viram professores! Não há qualquer forma de encaminhá-los para uma vivência empresarial ou educacional, por que, afinal, isso (a experiência) não vale nada para aqueles que avaliam e para os que são avaliados. E o mais contundente: sabem por quê? Avaliação por competências dá trabalho! Afinal, tudo por uma vida fácil…

A outra face da moeda (docência) foi evidenciada pelo filosofo e ensaísta Luiz Felipe Pondé, no artigo “A ratazana com PhD”

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/195937-a-ratazana-com-phd.shtml

No texto, de forma bem direta e elucidativa, o autor compara o nosso modelo universitário com uma fábrica de salsichas, onde o único propósito real é alimentar a burocracia de uma (suposta) avaliação. O produto final: alunos pasteurizados, formatados como salsichas e prontos para repetir o modelo.

É certo que existem cursos de formação bem mais teórica que outros: Matemática, Geografia, Biologia, Pedagogia, Computação, Economia, Música, Artes, etc, mas dizer que tudo é igual é no mínimo jogar pedra em avião. Um estudante de Administração, Engenharia, Medicina, Direito, Enfermagem, dentre outros, não podem prescindir de professores com experiência profissional. Como isso vem acontecendo há décadas, só reforçaram a dependência intelectual que hoje sofremos de nações que defendem os seus trabalhadores com a intensidade de leoas.

Basta ver o plano de carreira para o Magistério Superior existente no MEC e criado pela CAPES: a turma de sindicalistas que povoa esses órgãos, pelo fato de nunca ter entrado em uma empresa e exercido uma carreira, muitos deles nem de professores, só valoriza titulação, artigos publicados e exercício de funções na máquina pública. E o pior é o efeito cascata que isso produz dentro das instituições. Profissionais de grande conhecimento profissional, valorizados e enaltecidos pela comunidade empresarial, sendo relegados a uma condição marginal por não possuírem títulos e artigos (dito) científicos. É o divórcio da sanidade no exercício da cegueira educacional. Daí vem as perseguições políticas, assédio moral, vício funcional, banalização do ensino, disputa pelo poder de chefias e, sobretudo, uma péssima formação dos futuros profissionais.

Como esses responsáveis pelo sistema vigente não possuem qualquer pudor coletivo ou social e que comungam e praticam esse avesso de um padrão de gestão, eu torço para que eles possam em algum momento, contar com um profissional formado nessa esbórnia: trafegando por uma estrada, ponte ou edificação ou ainda ter a sua casa projetada por um desses engenheiros meia colher; ou ainda rodar nesses automóveis que possuem componentes fabricados por um desses graduados salsichas.

A desfaçatez do “eu finjo que te ensino e você finge que aprende” já é tão reconhecida que alguns cursos como a Medicina, ainda tentam diminuir o risco de ter alguém atendido por um médico na mesa de cirurgia ou na consulta médica, sem residência (prática profissional), assim como os advogados precisam se habilitar no exame da OAB, para exercerem a advocacia; estes sabem que a universidade não significa padrão de qualidade. Para outros profissionais, entretanto, o risco é como a água: inodora, insípida e incolor, e também pode destruir. Economistas, Administradores, Contadores podem levar toda uma nação ou empresa a bancarrota dando um golpe de misericórdia em uma sociedade de bom desempenho, ou ainda os professores de Educação Física podem levar um time inteiro a exaustão e perderem um campeonato, ou comprometerem a saúde de seus treinandos. Exemplos são tantos que parece que a vida copia a ficção, ou a normalidade copia a loucura.

*Administrador e Economista. Professor no CEFET-MG

mb@mbambirra.com.br

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