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O BICHO

O BICHO

Edição Vol. 3, N. 16, 21 de Setembro de 2016

Flávio Carvalho

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.09.21.005

– Amor, nós temos que conversar sobre o bicho.

Ele nem havia terminado de trancar a porta quando ouviu a frase. Girou a chave e se virou para ela, que estava sentada no chão da sala com a bolsa entre suas pernas.

– Qual bicho?

– Só existe um, amor. Não me enrole.

Ele começou a coçar a parte de trás da cabeça. Deu alguns passos de um lado para o outro, ajeitou o cabelo sobre a testa e atrás da orelha antes de se sentar ao lado dela.

– E o que você quer falar sobre ele?

– Você também já sabe. – disse ela, virando o rosto do outro para o seu. – Amor, eu não aguento mais. Acho que já está mais do que na hora de você dar um jeito nele.

Ele se pôs de pé novamente. Foi até a porta da cozinha batendo os dedos contra o peito, abriu a porta da geladeira e serviu meio copo de água para si mesmo. A outra metade, serviu para o chão. Bebeu tudo de uma vez e foi pegar um pano para limpar a bagunça.

– Deixa isso aí e senta aqui de volta, por favor. Eu limpo depois.

– Eu não vou deixar isso aqui!

– Volta pra cá! É só água e eu já falei que vou limpar. Nós temos que resolver isso, e tem que ser agora.

Ele ficou parado ao lado da pia por alguns segundos até que cedeu e voltou ao seu lugar. Sentou-se novamente e começou a cutucar alguma cutícula.

– Eu não consigo mais. Eu entendo o seu apego, mas tudo chegou a um ponto que não tem mais jeito. Eu juro que queria conseguir lidar com ele, e eu tentei, tentei de verdade…

– E você quer que eu faça o quê? Simplesmente pegue e mate? Aí fica tudo lindo pra você? É isso?

Depois de pensar por alguns segundos, ela respondeu:

É. Acho que isso me faria a mulher mais feliz desse mundo! Ou pelo menos desse prédio, sei lá, mas eu tenho certeza de que isso faria você bem mais feliz também!

– E quem é você pra pressupor uma coisa dessas?

– Não tem nada de pressuposição. Eu te conheço quando você fica longe dele, e nessas horas você é a pessoa mais incrível que eu já vi! Mas aí alguma coisa acontece… Chove na Malásia ou alguém do seu trabalho pega caxumba e pronto: lá vai você entrar no quarto e sair carregando essa porcaria!

– Porcaria não!

– Porcaria sim! E aí tudo o que eu quero é ir embora… E voltar pra casa da minha mãe e chorar durante uns três meses! A única vontade que eu tenho nessa hora é de ficar longe de vocês, longe do buraco pra onde vocês começam a me levar!

Ele se manteve sentado, batendo os pés um contra o outro. Ela segurou a sua mão:

– Nessas horas eu fico em dúvida, você entende? E não dá pra viver pra sempre assim, sem saber o que eu vou encontrar quando abrir essa porta! Quem vai estar lá? Você ou vocês?

– Sempre sou eu! É isso que importa!

– Mas qual versão?

– A única! É sempre assim, sempre! – batendo a ponta do indicador no chão. –Todo mundo cria caso com ele! Mas não tem nada a ver, se vocês não criassem caso não teria problema! Ele é meu, eu que criei, eu que alimentei! Não é problema de mais ninguém!

É sim! Presta atenção, não é possível! Você mesmo está falando, eu não sou a primeira! E se você não acabar com isso, também não vou ser a última!

Ele se levantou e voltou a coçar a cabeça. Ela também ficou de pé e prosseguiu:

– Você mesmo já me falou que foi por isso que a Manuela foi embora. Sua mãe também já tinha me falado sobre esse inferno e como isso fez com que seu pai também fosse. Mas eu achei que dava pra consertar, sabe? Achei que eles tinham desistido antes do tempo, que você só precisaria de um pouco mais de tempo e de conforto pra poder acabar com ele.

– Consertar? Quem é você pra consertar alguém?

– Eu não, de jeito nenhum! Você que tinha que resolver! Eu só achava que ficando aqui você poderia parar de alimentar essa coisa. E talvez você até matasse ela de uma vez… Mas assim eu não posso ficar mais! Ela vai matar a mim também!

– Ele é meu! Vocês sempre vão embora! Sempre! – gritou, agitando os braços em frente a seu corpo. – Quem ficou comigo o tempo todo foi só ele!

– Aí, lá vai você de novo! Você não enxerga que esse que é o problema? Se eu passar por aquela porta, sei que estou deixando você todo pra esse bicho! Eu sei que ele vai te envolver mais ainda e tudo vai ficar ainda pior! E como que eu entrego alguém que eu amo de bandeja para o seu inimigo? Justamente para aquilo que me dá vontade de ir embora?

– Então fica, ué!

– Você não entende, né? Eu já cheguei ao meu limite! E também não posso incentivar esse tipo de comportamento.

– Não é tão simples assim, eu…

– Simples ou não, isso tem que acabar! E é melhor que seja de uma vez!

– Eu não posso fazer isso. É impossível!

Ela então caminhou até a bolsa e a levantou do chão. Ele foi atrás e também puxou a mala:

– Não! – gritou ele. – A gente dá um jeito!

– O único jeito é acabar com ele. E agora.

– Não! – disse novamente, puxando a bolsa. – Eu escondo o bicho e deixo ele morrer devagar, vou parando de alimentar e…

– Não enrola! – gritou ela depois de arrancar a mala da mão dele com um puxão. – Você adia e aí nós vamos ficar mais quantos meses, quantos anos com ele adormecido, até algum deslize fazer tudo começar de novo? Não dá mais!

Ela então foi até a porta e começou a girar a chave. Vendo a porta já aberta, ele gritou:

– Calma! Tá bom, tá bom… Eu prometo que mato! Deixa eu ir lá no quarto, um segundo! – e saiu pelo corredor.

Pouco tempo depois, saíram do quarto. Encontraram o chão da cozinha seco e a sala vazia.

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  1. Elene Maria disse:

    Professora Elene Maria​, de Divinópolis – MG, sobre o conto

    ” … Quem vai estar lá ? Você ou vocês ? …”
    “Surpreendente !
    Inovador e contemporâneo o conto de Flávio Carvalho – O Bicho – instiga -nos a uma reflexão introspectiva : quem é ou quem somos nessa viagem do coração batendo em busca de resposta para a resposta que não existe.
    Lê – lo é buscar a visualização do ” Bicho ” em seus sentidos metafóricos .
    Não há respostas , apenas a suspensão das categorias tempo / espaço que nos provoca a imensa curiosidade…
    O vazio , creio eu , é transbordante de barulhos e arrancos .
    … a Luta do personagem é consigo próprio e a sua liberdade depende , talvez , ” do girar da chave e a porta aberta ”
    … História que se renova … Talvez não ter nascido bicho é a mais profunda estranheza desse homem …
    e enfim – atinge o silêncio -
    ” … a sala vazia ”
    Tudo é um raro encontro ; apenas a hipótese da existência é real ou não.

    O encontro entre o homem , a mulher e o ” bicho ” é o sensível e o tenso alvo do conto .
    É no domínio da escrita que se transborda a complexidade da nossa indagação : – O que é o BICHO ?

    … INUSITADO MARAVILHOSO CONTO . Parabéns grande Escritor pela ousadia da criação.”

    02/novembro/2016 ás 19:52
  2. Ariana disse:

    Excelente conto!

    04/novembro/2016 ás 13:50

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