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NOVOS BIOMARCADORES E ALVOS POTENCIAIS PARA TRATAMENTO DO CÂNCER INFANTIL

NOVOS BIOMARCADORES E ALVOS POTENCIAIS PARA TRATAMENTO DO CÂNCER INFANTIL

Edição Vol. 3, N. 14, 10 de Agosto de 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.08.11.001

Algumas substâncias, naturalmente encontradas em nosso corpo, podem alterar seus níveis e indicar ou causar possíveis problemas de saúde. Identificar uma dessas moléculas ou, como as chamamos na prática biomarcadores, pode ser a chave para aumentar a sobrevida do paciente ou até mesmo a chance de uma cura. É assim com o colesterol e assim também o é, como descoberto por um grupo de cientistas brasileiros, que as neurotrofinas, proteínas que atuam no desenvolvimento normal e saudável do cérebro, podem desencadear tumores infantis.

Pesquisadores do Instituto do Câncer Infantil (ICI), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), liderados pelo prof. Dr. Rafael Roesler, um dos grandes cientistas indicados ao Prêmio Cientistas e Empreendedor do Ano Instituto Nanocell transformam a ciência nacional.

O prof Dr. Rafael Roesler também participará do Congresso do Instituto Nanocell que será realizado entre os dias 17-20 de Outubro no INPA, Manaus (Acesse e faça sua inscrição pelo site www.institutonanocell.org.br/events/).

O grupo do prof. Roesler obteve evidências sugerindo que as proteínas conhecidas por regularem o desenvolvimento e a plasticidade neuronal podem ser biomarcadores úteis e possíveis alvos terapêuticos em cânceres infantis. Estas proteínas, denominadas neurotrofinas, são moléculas bem conhecidas na sinalização do desenvolvimento e função cerebrais normais. A família de proteínas neurotrofina, que inclui o fator neurotrófico derivado do cérebro (brain-derived neurotrophic factor, BDNF) e o fator de crescimento do nervo (nerve growth factor, NGF), ativa a família Trk, representada por receptores de proteína da superfície celular. Há um crescente interesse em investigar como a super-expressão de neurotrofinas e receptores Trk em tumores pode estimular o crescimento do câncer e contribuir para a resistência aos quimioterápicos, os medicamentos que combatem ao câncer (Figura 1).

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Figura 1: Biomarcadores são substâncias encontradas em nossos líquidos corporais (sangue, saliva, urina, líquor, entre outros) que podem ser usadas para avaliar nossa saúde, indicando se estamos no risco de uma doença ou não. Também podem ser possíveis alvos terapêuticos. Medicamentos podem ser desenvolvidos para atacar o próprio biomarcador ou o local onde é produzido, dentre diversas outras possibilidades.

O sarcoma de Ewing é um câncer pediátrico altamente agressivo que ocorre no osso ou em tecidos moles nas proximidades dos ossos, e é caracterizado por células azuis redondas pequenas. Ele parece surgir a partir de células-tronco mesenquimais ou da crista neural. As alterações biológicas subjacentes do sarcoma de Ewing normalmente incluem fusões de genes que envolvem os genes EWS e FLI-1. Avanços na terapia multimodal, em que a quimioterapia citotóxica é combinada com cirurgia ou radioterapia, têm melhores resultados clínicos. No entanto, as taxas de sobrevivência continuam a ser insatisfatórias, com taxas de sobrevida de até 5 anos, sendo atualmente cerca de 70% do total, mas apenas 56% entre os adolescentes mais velhos e apenas 15-30%, se já ocorreu metástase evidente antes de iniciar o tratamento (1).

Em um estudo publicado na revista Oncotarget, o grupo do cientista Rafael Roesler, mostrou que os receptores Trks são expressos em tumores de Ewing de pacientes. Quando os cientistas utilizaram inibidores seletivos para bloquear TrkA e TrkB (receptores para os fatores de crescimento NGF e BDNF, respectivamente) em cultura do sarcoma de Ewing, o crescimento das células tumorais e sua sobrevivência foram inibidas, tendo uma inibição mais forte quando ambos os receptores foram inibidos simultaneamente (1). Além disso, a inibição do Trk também tornou as células tumorais mais susceptíveis às drogas quimioterapêuticas atualmente utilizadas para tratarem doentes com sarcoma de Ewing, mesmo quando as células foram condicionadas a tornarem-se resistentes à quimioterapia. Notavelmente, os níveis de beta-tubulina III, uma proteína envolvida na agressividade do tumor, foram reduzidos em células tratadas com inibidores de Trk (1).

Em um estudo anterior pelo mesmo grupo, em colaboração com a profa Dra Caroline Brunetto de Farias, os cientistas descobriram que a inibição do receptor TrkB (receptor para o fator de crescimento BDNF) reduziu a viabilidade e a sobrevivência das células de meduloblastoma (2). Atualmente, um terço dos pacientes com meduloblastoma, a forma mais comum de câncer cerebral pediátrico, têm uma baixa chance de ser curado. Os sobreviventes muitas vezes sofrem de deficiências neurológicas de longo prazo, devido aos efeitos adversos dos quimioterápicos, radioterapia e cirurgia.

“Estes estudos fornecem a primeira evidência de que a inibição da sinalização de neurotrofinas pode produzir efeitos anticancerígenos sobre sarcomas de Ewing e meduloblastoma. As descobertas podem levar a melhorias na eficácia do tratamento”, diz o professor da UFRGS e autor sênior do estudo, Dr. Rafael Roesler.

Além de ser alvos de drogas, as neurotrofinas podem também servir como biomarcadores do câncer infantil. Em um estudo envolvendo 71 crianças (incluindo adolescentes) com leucemia mieloide aguda ou leucemia linfoide aguda e 44 controles saudáveis, Julia Portich, Mirela Gil, e colegas descobriram que os níveis de BDNF no plasma ou sangue de medula de pacientes com leucemia foram significativamente reduzidos durante os estágios ativos da doença (diagnóstico e recidiva), e voltou ao normal durante a remissão. É importante ressaltar que os níveis de BDNF no momento do diagnóstico foram significativamente menores nos pacientes que, em última análise, morreram do que em aqueles que sobreviveram. Essas descobertas sugerem que a dosagem dos níveis sanguíneos de BDNF no momento do diagnóstico pode fornecer informações sobre a atividade da doença e o risco de morte, que seriam úteis para orientar as decisões terapêuticas. São pesquisas básicas como essa, desenvolvida por cientistas brasileiros, que devem ter continuidade e financiamento, promovendo o avanço do conhecimento, melhorias no tratamento de pacientes, além de possibilitar a geração de novos produtos, desde a confecção de kits de diagnóstico até drogas para tratamentos de cânceres infantis. Continuamos com as dicas para nossos governantes e que eles são convidados para participarem do Congresso Biotecnologia Sustentável na Biodiversidade Amazônica.

Fonte: http://www.eurekalert.org/pub_releases/2016-05/wsr-sun051816.php

Referências

1.Heinen TE, Dos Santos RP, da Rocha A, Dos Santos MP, Lopez PL, Filho MA, et al. Trk inhibition reduces cell proliferation and potentiates the effects of chemotherapeutic agents in Ewing sarcoma. Oncotarget. 2016.

2.Thomaz A, Jaeger M, Buendia M, Bambini-Junior V, Gregianin LJ, Brunetto AL, et al. BDNF/TrkB Signaling as a Potential Novel Target in Pediatric Brain Tumors: Anticancer Activity of Selective TrkB Inhibition in Medulloblastoma Cells. J Mol Neurosci. 2016;59(3):326-33.

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