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NOVA REDE

NOVA REDE

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 07, 3 de Fevereiro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.02.02.007

Amanda tinha terminado o café da manhã e estava pronta para sair de casa quando o entregador tocou a campainha. Finalmente seu aparelho havia chegado e ela poderia conhecer a tal “Nova Rede” que os colegas tanto insistiram para que ela experimentasse!

Ela colocou o pacote sobre a mesa e começou a rasgar a embalagem. O único objeto que encontrou foi um aparelho azul escuro e pouco menor que uma carteira. Além da tela, o eletrônico contava apenas com um botão na lateral esquerda. Amanda ainda virou a caixa de cabeça para baixo e balançou para ver se não tinha deixado o manual de instruções dentro dos restos do embrulho.

Não, Amanda. Não tem manual nenhum.

Ela então apertou o único botão do aparelho e, segundos depois, percebeu que estava em uma sala redonda. O cômodo era espaçoso, com uma mesa igualmente redonda no centro e um mural formando uma faixa que percorria toda a parede na altura dos seus olhos. As únicas fontes de luz eram uma luminária moderna, que emitia uma luz branca e forte sobre a mesa vazia, e uma luz de fundo que iluminava o painel, também vazio.

Depois do susto, Amanda pressionou novamente o botão. Estava de volta à sala da sua casa. Seus retratos ainda estavam colocados no seu quadro magnético e a mesa do café ainda estava com a louça suja. Tudo como antes. Ela então apertou o botão mais algumas vezes e ficou saltando de uma sala para a outra até decidir que era melhor experimentar logo o cômodo novo.

Caminhou um pouco pela sala e não viu nada além do mural e da mesa. Olhou de novo para o aparelho e viu que a sua tela estava acesa e com mais dois botões coloridos. Decidiu apertar o da esquerda e viu que uma luz vermelha saiu como um laser da parte de cima do aparelho e iluminou um ponto na parede. Resolveu então apertar o segundo e nada obteve além de um clique e uma linha preta na tela.

– Oi? – disse ela, aproximando sua boca do aparelho. A linha se mexeu pelo curto tempo em que ela falava e depois voltou a ficar parada. Sob um dos novos botões agora piscava a mensagem “Pressione e segure para ajuda”.

A moça então executou o comando e seguiu a ajuda, que sugeriu que ela adicionasse o seu primeiro amigo. Ela disse o nome do seu irmão para o aparelho e em menos de um segundo um retrato com o garoto sorrindo apareceu no mural da sua sala. Que divertido!

Ela então se lembrou do botão da esquerda e apontou a luz vermelha para a foto do irmão. Uma projeção holográfica do rapaz surgiu e caminhou do quadro até a mesa. Ele vestia uma camisa azul clara comum, mas Amanda estranhou os quase duzentos broches pregados à peça. Quando ela desligou a luz vermelha, o holograma de seu irmão se afastou da mesa e ficou encostado à parede embaixo do seu retrato.

Amanda estava adorando a ideia! Resolveu começar a colocar mais fotografias no mural e foi procurando os nomes das pessoas que conhecia. Primeiro a família, depois os amigos mais próximos e os colegas do trabalho. A parede já estava cheia de fotos e ela já tinha dado uma olhadinha rápida nos hologramas de cada um. E todos ainda estavam sorrindo o tempo todo, não podia ser melhor!

Passou a procurar pessoas que não encontrava há algum tempo e foi colocando suas fotografias lá também. Achou o Pedrinho, colega do colégio, que continuava um gato e agora tinha casado com a chata da Sarah. Melhor adicionar os dois, não é? Encontrou a Camila, a caixa da padaria da esquina e que era um amor! Melhor adicionar também. Até a Míriam, que também fez natação no clube quando ela tinha uns sete anos, estava lá! É claro que foi para a parede.

E assim o mural de Amanda já contava com mais de quatrocentas fotos e hologramas encostados. Era incrível pensar que já tinha conhecido tantas pessoas durante a vida, e mais incrível ainda era poder interagir com elas novamente! Essa Nova Rede era espetacular!

Queria então conversar com essas pessoas. Resolveu começar pela Luíza, que tinha ficado de confirmar se iria mesmo viajar com ela no final do ano. Apontou a luz vermelha e chamou o holograma para a mesa. A projeção da amiga se aproximou.

– Ei, Luíza! – disse para o holograma.

A projeção não respondeu, apenas ficou olhando para ela com o mesmo sorriso da foto. Amanda ainda tentou cumprimentar a amiga mais duas vezes, mas nada de resposta. Voltou os olhos para o aparelho e viu que nele estava escrito que Luíza não estava disponível, mas que era possível ouvir as gravações que ela tinha feito.

Amanda então tocou a tela para ouvir as gravações de Luíza e o holograma começou a falar:

– Almoço com o Marquinhos hoje! Oba!

Essa rede era mesmo excelente! Ela podia ouvir a amiga falando quando quisesse!

Reparou na roupa de Luíza e em seus adornos. Havia broches de bandas, filmes, artistas, programas de TV e tudo mais que Amanda pudesse imaginar. E como ela conhecia algumas coisas de que sua amiga gostava, concluiu que era para isso que aqueles botões serviam. Que fantástico, ela poderia ver os gostos dos amigos e também quem gostava do mesmo que ela! A rede era tão boa que ela poderia ficar ali para sempre!

Ela então começou a dizer para o aparelho as coisas de que gostava e pouco tempo depois sua blusa estava cheia de broches também. A cada novo adorno que se colava à sua blusa, alguns hologramas que estavam encostados à parede faziam sinal de positivo com a cabeça ou com as mãos. Foi aí que ela sentiu a primeira sensação estranha da experiência.

Todos aqueles retratos e hologramas sorridentes estavam ali, prontos para julgar qualquer declaração ou atitude dela enquanto estivesse na sala branca. Para a garota, preencher aquela blusa com novos broches era definir a forma como ela gostaria de ser vista por aquelas projeções. E se a própria Amanda estava começando a se preocupar com que tipo de imagem estava criando, talvez ela não fosse ser tão sincera assim enquanto estivesse lá. E se ela, que tinha acabado de chegar, não sabia se seria verdadeira ali, o que esperar dos que já estão há mais tempo sorrindo encostados sob suas próprias fotografias?

Amanda balançou a cabeça para afastar os pensamentos ruins. Era melhor aproveitar o que tinha de bom, não é mesmo? Pediu ao aparelho para ouvir as últimas gravações de todos os amigos. Afinal, ela estava ali era para ter contato com eles.

Os hologramas deixaram a parede e vieram em fila para perto dela. O primeiro começou:

– Boate hoje! Companheiros! Vida leve! Uhul! – e saiu.

Amanda ainda procurava o verbo daquela frase quando o outro começou:

– Olha que lindas as fotos do Jorginho! – segurando um pôster de um garotinho.

Os demais seguiram a fila:

– Vota no vermelho! Tem que votar no vermelho!

– Almoço hoje? Churrasco! – segurando a foto do espeto.

– Gente, não é possível que ainda tem gente que vota no vermelho! O negócio é o azul! Vamos lá!

– Paris, estou chegando! Oui oui!

– Meu avô morreu hoje. Adeus, Vovô! – exibindo uma foto do avô doente na cama.

– Jantar hoje? Foie gras! – com a respectiva foto.

– Gente, estou solteiro!

– Vem jogar comigo? Esse jogo é bom demais!

Amanda começou a ficar assustada. Tanto barulho! Tanta gente com alguma coisa pra falar! Os hologramas seguiam falando com ela e voltando para a parede. Eles continuavam discorrendo sobre as mesmas ideias, brigando por qualquer motivo, exibindo as mesmas fotos e os mesmos comportamentos.

Depois de alguns minutos de bombardeio, Amanda percebeu que na verdade quase todos queriam dizer a mesma coisa:

– Olha pra mim? Por favor, só um pouquinho?

Ela pensou e decidiu que não era possível olhar para todo mundo um pouquinho. Procurou então uma forma de sumir com algumas pessoas da sala. Tocou a tela do aparelho e pediu para apagar uma das projeções. O holograma de Clara, sua prima, foi sugado para dentro da sua foto sorridente na parede e segundos depois desapareceu do mural juntamente com o retrato.

Amanda gostou de ver o holograma de Clara sumir, mas ainda queria ter a foto dela na parede. Era bom poder vê-la de vez em quando, mesmo que não fosse pra ouvir ou conversar todos os dias. Pediu então ao aparelho para sumir apenas com a projeção de outro conhecido, mas manter a foto. A imagem de Pedrinho foi sugada, mas sua foto mantida no mural. Ótimo negócio!

Ela seguiu com esses comandos para o aparelho e, depois de apagar a maioria das fotos e esconder quase todos os hologramas restantes, o que sentiu foi alívio. Era informação demais, problemas demais, gente demais. Agora pelo menos voltou a ter algum espaço no cômodo para os seus preferidos.

Amanda então parou e observou a sala branca. Lá estavam apenas cinco ou seis amigos próximos à sua mesa e algumas dezenas de retratos na parede. Bem parecido com a sua própria casa! A diferença, lembrou, é que ali eram apenas hologramas, projeções. Nada além de imagens bem construídas.

Bem, não é sem motivo que alguns ficam mais próximos e outros são apenas porta-retratos, ela pensou. Não dá para ser tão íntimo de tantas pessoas.

Até que essa nova rede foi bem útil, concluiu. Mas é bem melhor voltar e deixar o aparelho num canto, só pra uma diversão rápida mesmo.

Apertou o botão e voltou para a sua sala com a louça suja e pessoas de verdade.

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  • 2
  1. Ariana disse:

    Representação visual de uma suposta realidade não é realidade.

    02/fevereiro/2015 ás 22:18
  2. Felizmente a realidade descrita pelo autor, é apenas um sonho.
    Felizmente.

    02/março/2015 ás 22:44

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