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NO ANO QUE VEM EU PROMETO…

NO ANO QUE VEM EU PROMETO…

Hudson F. Golino, Ph.D

Professor de Psicologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia)

Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Salgado de Oliveira (Niterói – RJ)

Edição Vol. 3, N. 4, 15 de Dezembro 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.12.16.005

O final de ano é um período que sempre nos lembramos de fazer planejamentos de médio/longo prazo. Começar aquela tão sonhada (e às vezes necessárias) dieta, melhorar as contas da família de forma a poupar mais, em vista de um futuro mais confortável, organizar melhor o nosso tempo para não perder prazos, ou simplesmente para não ter que passar a noite em claro trabalhando nas vésperas de um deadline importante. Esses são alguns exemplos da enorme lista de planejamentos de final de ano. Ano que vem será diferente; ano que vem será melhor; ano que vem irei conseguir fazer o que eu sempre quis ou precisei. 

Bom, não precisa ser muito observador para descobrir que a grande maioria dos planos de médio/longo prazo pensados durante o final do ano não são executados. Os motivos para a não-execução desses planos não é o auto-engano, como as pessoas podem (e tendem a) pensar. O problema é de procrastinação. Trocar nossas metas de longo prazo por gratificações imediatas é procrastinar. Deixar para amanhã o que pode ser feito hoje, é procrastinar. 

Se alguém se enxerga nessa categoria, não precisa se sentir mal. Você não está sozinho(a). Há um exército de pessoas na mesma situação que você, e todos muito bem armados no combate ao planejamento de médio-longo prazo! O problema é tão sério, que se estima entre 80% e 95% dos estudantes universitários sejam procrastinadores (O’Brien, 2002). Obviamente, o período da faculdade é um período conturbado, e com muitas atividades concorrentes. Uma concorrência desleal, diga-se de passagem. Afinal de contas é melhor sentar e fazer aquele projeto da disciplina X durante duas semanas e garantir sua aprovação na mesma, ou ir para aquela festa dos calouros, repleto de coisas prazerosas? No entanto, não são os universitários os únicos com problemas de procrastinação. A população geral é acometida por comportamentos procrastinadores em uma taxa que varia entre 15% e 20% dos adultos (Harriot & Ferrari, 1996). O problema é sério, e parece que sua prevalência está aumentando…

O fato de a procrastinação ser um problema que ocorre em um número significativo de pessoas não significa que é algo bom, ou sem problemas. As pesquisas indicam, no geral, que há uma ligação entre a intensidade dos comportamentos de procrastinação e o desempenho em diferentes áreas, sempre com o mesmo cenário: procrastinadores vão pior em suas atividades (Steel, Brothen, & Wambach, 2001) e tendem a se sentir pior ao longo do tempo (Tice & Baumeister, 1997). Comportamentos procrastinadores levam ao pagamento de vultosas quantias de juros em bancos por atrasos de pagamento não relacionados à falta de dinheiro, a piores planejamentos de aposentadoria (O’Donoghue  & Rabin, 1999), à piora de quadros clínicos de saúde (Bogg & Roberts, 2004).

Há um grande número de pesquisas buscando compreender a natureza da procrastinação. Uma das pesquisas mais completas, que busca fazer uma revisão teórica e empírica do fenômeno, e que proporcionou boa parte dos argumentos apresentados anteriormente, foi publicada pelo Prof. Piers Steel em 2007 na excelente revista científica Psychological Bulletin com o título: “The Nature of Procrastination: A Meta-Analytic and Theoretical Review of Quintessential Self-Regulatory Failure”. Não irei entrar em mais detalhes sobre este estudo, mas os interessados podem encontrá-lo no link abaixo:

http://goo.gl/vTgdLh

Talvez uma das investigações mais elucidativas sobre o nosso comportamento de procrastinação tenha sido desenvolvida pelos pesquisadores Dan Ariely e Klaus Wertenbroch (2002) com seus alunos. Eles pegaram três turmas e apresentaram, no início do semestre, o planejamento da disciplina que iriam ministrar. Para a primeira turma, deixaram nas mãos dos estudantes a decisão sobre o prazo final de submissão de cada um dos três trabalhos das disciplinas. Os alunos deveriam decidir, na primeira aula do semestre, a data final para a entrega dos trabalhos. Caso os alunos os entregassem antes, não ganhariam pontos extras, mas também não perderiam pontos. Caso entregassem após o prazo por eles estabelecido, perderiam 1% da nota por dia de atraso. Na segunda turma o combinado foi diferente. Os alunos deveriam entregar os três trabalhos até o último dia de aula. Não ganhariam pontos extras caso entregassem antes, mas também não poderiam entregar após esse último dia de aula, por razões óbvias. Já para a terceira turma, o plano de aula continha as datas finais para entrega dos trabalhos estabelecida pelos próprios professores. Os alunos não tinham ingerência sobre essa data, que estava sendo imposta a eles. De forma similar à primeira turma, ninguém ganharia pontos extras por entregar antes do prazo, mas perderiam 1% da pontuação por dia de atraso. O resultado não poderia ser mais claro! A turma com a maior liberdade de escolha (turma 2, cujo único prazo era o último dia de aula) foi a que obteve a menor pontuação nos trabalhos, seguido pela turma que definia os seus próprios prazos. A turma com os prazos previamente definidos pelos professores foi a que obteve a maior nota nos trabalhos!

A conclusão desta pesquisa é que a falta de estrutura aumenta a chance da procrastinação. O simples fato de haver um prazo definido para cada tarefa já auxilia na execução da mesma. De forma bastante clara neste estudo, os alunos que tinham prazos bem definidos e espaçados entre si (turma 3) se prepararam melhor para a execução dos trabalhos, e obtiveram melhores notas. 

A falta de estrutura (seja por meio da ausência de prazos claros, bem estabelecidos e impostos por outras pessoas) impacta na realização das tarefas, e é um prato cheio para os procrastinadores. Essa é uma das conclusões do estudo de Steel (2007) sobre o aumento da incidência dos comportamentos de procrastinação das pessoas no trabalho, por exemplo. Com o passar dos anos, os trabalhos têm sido cada vez menos estruturados. Isso é ótimo, por um lado, pois permite a flexibilidade da sua execução. Por outro lado, é ruim pois facilita a procrastinação. 

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No final do ano, o melhor a se fazer é: caso vá fazer algum planejamento, defina metas e prazos, com espaçamentos coerentes de acordo com cada etapa. Ou então peça a algum conhecido para definir, e cobrar, os prazos para cada etapa do seu plano de final de ano. Preferencialmente, estabeleça a seguinte regra: Para cada prazo que eu perder, em cada etapa do meu planejamento, eu terei que pagar à pessoa que está me auxiliando (monitorando) R$200,00. Assim, você estará utilizando a ciência a seu favor. Primeiro porque as evidências apontam que o estabelecimento de prazos (principalmente quando feito por terceiros) nos ajuda a cumprir com os planejamentos. Em segundo lugar porque uma das leis globais do comportamento é que o impacto da perda é significativamente maior que o impacto do ganho. Evitamos perder mais do que buscamos ganhar. 

E você, é um procrastinador(a)? Quer descobrir? Entre no site abaixo e responda às perguntas. Lembre-se de colocar o seu e-mail, assim receberá o resultado (em termos de % de comportamentos procrastinadores)!

http://goo.gl/forms/1bMErtd6ZE

Ou LEIA COM SEU CELULAR

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 Referências:

Ariely, D., & Wertenbroch, K. (2002). Procrastination, deadlines, and performance: Self-control by precommitment. Psychological science13(3), 219-224.

Bogg, T., & Roberts, B. W. (2004). Conscientiousness and health-related behaviors: A meta-analysis of the leading behavioral contributors to mortality. Psychological Bulletin, 130, 887–919.

Harriott, J., & Ferrari, J. R. (1996). Prevalence of procrastination among samples of adults. Psychological Reports, 78, 611–616

O’Brien, W. K. (2002). Applying the transtheoretical model to academic procrastination. Unpublished doctoral dissertation, University of Houston

O’Donoghue, T., & Rabin, M. (1999). Incentives for procrastinators. Quarterly Journal of Economics, 114, 769–816

Steel, P. (2007). The nature of procrastination: a meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure. Psychological bulletin133(1), 65.

Steel, P., Brothen, T., & Wambach, C. (2001). Procrastination and personality, performance, and mood. Personality and Individual Differences, 30, 95–106

Tice, D. M., & Baumeister, R. F. (1997). Longitudinal study of procrastination, performance, stress, and health: The costs and benefits of dawdling. Psychological Science, 8, 454–458.

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