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MUSA

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Flávio Carvalho

Edição Vol. 3, N. 1, 13 de Outubro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.10.13.006

Até que eu sou bem sem sorte, sabia? Enquanto meus colegas pegam os trabalhos mais fáceis, eu acabo aqui, tendo que ajudar um sujeito que só dorme. Ah, vou te contar, viu… Aposto que antigamente não era assim, aposto! Não é possível que Homero parava o verso no meio e ia tirar um cochilo embaixo da árvore!

Mas enquanto meu trabalho continua dormindo – e olha que já são onze horas –, é melhor eu contar mais um pouco sobre o que eu faço, já que me envolver em sonhos é bem penoso e nem sempre dá o resultado esperado. Eu estou aqui para inspirar essas criaturas terrenas, fazer a arte sair de dentro do sujeito e presentear o resto das pessoas. Isso mesmo, eu sou o que a maioria chama de Musa.

Meio piegas, não? Meio romântica demais essa coisa de presentear o mundo, de deixar a arte florescer… Mas isso é o melhor que eu posso fazer agora, pode ser? Se eu soubesse escrever seria escritora, ora! E aí minha vida seria bem mais fácil. Mas não, eu não sou artista e não entendo nada dessas coisas. Na verdade, a única coisa que eu sei é como fazer a poesia que está na cabeça do sujeito aparecer numa folha de papel, ok?

Vou continuar contando minha história, pode ficar tranquilo, mas eu preciso cuidar desse poeta aqui também… E ele parece que vai sair da cama agora. Meio tarde, não é, rapaz? Ainda mais que você já devia ter entregado esse trabalho há uns dois dias… Mas não, não foi dessa vez que ele levantou. É melhor eu abrir um pouquinho a janela, bem devagar…

É, é isso mesmo! Eu não sou humana, terrena, nada disso, mas eu preciso poder mexer em alguma coisa também, poxa! Hoje em dia aquela ideia de ser bonita, aquela imagem bucólica da Musa inspiradora… Isso tudo acabou, os tempos são outros, ok? Agora eu trabalho na filial quatro da casa de Melpômene, onde cada Musa tem sua meta pra cumprir e o serviço só anda aumentando. Afinal, quem vai ajudar a produzir tudo aquilo que está na loja de eBooks da Amazon? A correria sobra toda para nós!

Enquanto isso, meu jovem poeta aqui, agora com o a luz do sol entrando por uma fresta diretamente sobre seus olhos (parabéns para mim), não vai poder continuar dormindo. E eu também já desviei os papéis para o centro da mesa e apontei o lápis 2HB que ele gosta. Só não deixei o café pronto porque aí também já seria demais, não é mesmo? E eu também tenho que ser discreta, afinal ele não faz ideia que eu de fato existo.

Triste, não é? Ficar fazendo de tudo para o sujeito conseguir produzir alguma coisa e não ter nem mesmo o nome no último parágrafo de agradecimentos. Se bem que do jeito que esse aí escreve rápido, talvez essa página fique para o ano que vem. Enquanto isso, a Musa da filial três fica com a obrigação de inspirar o Stephen King! E tem gente aí cuidando da Dontsova, da Nora Roberts… E eu cuidando de um sujeito que nem despertador tem…

Aliás, não tem despertador, mas celular cheio de joguinhos ele tem sim! E lá vai ele direto para o banheiro com o telefone na mão. Lá ele deve agora gastar cinco vidas trocando doces de lugar, depois treinar um grupo de arqueiras e bárbaros, gastar outras cinco vidas, só que desta vez ligando quatro pontinhos, depois ele tem que coletar uns ovos e cumprir alguns pedidos e ainda combater a Guarda Sombria antes de tomar banho. E nem adianta eu desligar o Wi-fi: de qualquer jeito ele vai torrar cada pedacinho da sua internet móvel e cada um dos seus movimentos extras.

 Duvido que Dante jogava Candy Crush. Ora, é claro que não jogava, eu sei… Mas você entendeu, não entendeu? Quem tem que cuidar dessa coisa de contexto, de adaptação ao tempo e ao ambiente é o artista, eu falo o que eu quiser mesmo!

Já chegamos ao começo da tarde e nada de o sujeito começar a poesia. Depois de horas no banheiro, passando pelo almoço e pelo café bem lentamente, você acredita que ele ainda vai inventar de ver um filme? Rapaz, volta pra escrivaninha! É, não vai ter jeito… Mas pelo menos tentar acabar com o sinal da TV eu posso! Ele nem vai imaginar que fui eu, estranho seria se o sinal estivesse bom durante todo o dia!

Bem que eu tentei, mas ele só rodou os canais umas vinte vezes esperando o sinal voltar até cochilar no sofá. E quando acordou de novo, quase às três da tarde, foi fazer o almoço. E depois viu fotos da família, mandou mensagens para os antigos colegas da faculdade, ligou para a mãe, fez a lista de compras do natal do ano que vem e separou todas as cuecas por cores, depois por material e por fim por ocasião em que cada uma vai ser usada.

Ah, dias horríveis esses… Não sei se foi assim com Byron, ele não era problema meu, mas agora tudo o que a gente faz é ficar lutando para arrastar o sujeito para longe das distrações! Só isso! E como é fácil para um procrastinador arrumar distrações atualmente!

Pronto, lá vai ele para o computador agora. E com certeza não é para abrir o Word. Ah não, agora eu cansei também!

Eu não queria que fosse assim, mas hoje eu vou ter que apelar mesmo. Era muito mais digno quando a gente conseguia inspirar pela beleza, sabe? Dar ao poeta algo que o levasse começar a escrever pelo bem, pela admiração! Mas ultimamente o que anda funcionando mesmo é o contrário, são os sentimentos ruins que fazem o sujeito ao menos se mover na cadeira.

Vamos lá, é só colocar a rede social na página inicial do navegador. Aí eu coloco três fotos aqui, logo no topo da página: vou começar por aquele escritor de romance água com açúcar de 1,99. Esse é para matar de inveja o poeta improdutivo!

Depois vem aquele primo que ele chamava de imbecil quando criança, mas que herdou a fazenda do pai e passa o dia todo rodando de caminhonete importada pela cidade. Já até consigo ouvir o coitado gritar: “Maldito! Fica aí rodando de carrão, rasgando dinheiro em casa, e eu aqui, tentando produzir alguma coisa! E o cara não sabe nem separar sílabas!”.

Por último, aquela foto da ex-namorada que apareceu namorando um ator da Globo quatro dias depois de terminar com ele e que agora só posta fotos de Paris. É, eu sei, peguei pesado mesmo! Mas ele aguenta, e se ele fosse dos trabalhos fáceis, daqueles que marcam os horários certinhos para eu aparecer, sem ficar chorando achando que eu nunca venho, eu jamais precisaria desses recursos!

Agora é só esperar ele abrir o navegador… Ótimo! Agora ele já vai direto para as fotos… Ah, enquanto ele começa a sessão inveja, vou voltar a falar de mim, ok?

Eu sempre venho, sempre vou estar pertinho e sempre vou ajudar, mas fica bem mais fácil se você também tentar um pouco, sabe? Eu tenho metas pra cumprir, gente demais para ajudar, então se quiser que eu venha mais feliz, tenta fazer um pouquinho de esforço? Não só eu, mas o pessoal das outras filiais e das outras casas também adora quem tem compromisso consigo mesmo!

E quanto ao nosso poeta? Bem, posso dizer que o plano funcionou, até porque se a ideia fosse ruim eu já teria sido demitida… E talvez tivesse que escrever eu mesma, já pensou que horror? Não sei nem colocar um pronome!

Ufa, agora que ele escreveu a primeira palavra eu sei que já posso ir embora. Difícil mesmo é colocar o artista quieto na cadeira.

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  • MUSA
  • 2
  1. Ariana disse:

    Até quem inspira, transpira!

    21/outubro/2015 ás 14:48
  2. Dependendo do Artista até a Musa necessita de uma Musa inspiradora.

    05/novembro/2015 ás 16:48

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