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JEITINHO EM TARDISBURGO

JEITINHO EM TARDISBURGO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 15, 27 de Julho de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.07.27.001

– Eu ainda não acredito que você incluiu esse lugar no passeio, Renato! Não faz o menor sentido, aquela noite foi horrível!

– Horrível? Puxa, mas foi quando a gente se conheceu…

– Tudo bem, mas Tardisburgo é o pior lugar em que já estive!

– Rá! Elina, você nem pode falar que esteve lá, você não conseguiu sair do aeroporto!

– Humpf! Vamos, desça logo para o pessoal poder limpar o avião…

– Relaxe, vai ser mais divertido dessa vez! Trouxe tudo que eu pedi?

– Acho que sim. Nossa, não sei como esse prédio ainda está de pé… Parece mais acabado do que a gente viu daquela vez!

– É, parece que ninguém reformou nada, né? Olha lá, quatro anos e os vidros quebrados ainda são os mesmos!

– Vamos entrando, Renato. E você fala tudo, por favor! Não quero nem conversar com essas pessoas!

– Tudo bem, tudo bem! É só seguir o que eu estiver fazendo, ok?

– Ok! Vamos, aquele caracol horroroso dos guichês está logo ali. Nunca vou me esquecer daquele dia: “Suíça? Oitava fila, guichê quarenta!”. Argh!

– Deixa comigo! Boa tarde, senhorita! Como você se chama?

– Boa tarde, senhor! Sou Luna! Vocês vêm de onde?

– Brasil e Suíça, Luna! Que nome lindo o seu! Eu sou o Renato, aqui estão os nossos passaportes… Você é daqui mesmo? Aposto que é, com um sorriso desses vocês só pode ser daqui de Tardisburgo!

– Obrigada, senhor Renato, você é muito gentil! Bem, guichês um a oito para você e guichê quarenta para ela!

– Luna, essa moça com cara de ciúmes aqui ao meu lado é a Elina, minha esposa! Eu sei que nós temos que respeitar as filas que vocês determinam, afinal, quem gosta de descumprir uma regra, não é mesmo? Mas acontece que a gente está em lua de mel e seria tão ruim ter que deixá-la sozinha, não é, meu amor?

– É sim, eu ficaria bem triste…

– Então, Luna do sorriso lindo, tem certeza que não pode ajudar a gente? Por favor, vai!

– Infelizmente eu não posso, senhor. O que meu chefe iria dizer?

– Ah, com certeza ele diria que você é uma funcionária notável por tentar sempre agradar os passageiros! Olha, se o seu colega da próxima fila falar alguma coisa ao seu superior eu prometo que vou pessoalmente lá registrar a minha satisfação com você e deixar um elogio, tá bom? Vamos, Luna, deixa essa moça ciumenta aqui me vigiar o tempo todo!

– Eu acho que… Eu…

– Vamos, é só você olhar pro outro lado um pouquinho e a gente passa correndo!

– Ok. Mas vão rápido, tá? Senão vou ter problemas…

– Muitíssimo obrigado, Luna! Aqui os passaportes, pode carimbar os dois! Ela é um amor, não é, Elina?

– É, é sim… Muito obrigado, Luna. Ótima tarde para você!

– Aqui, fique com uma destas… Presente nosso, pra dar sorte! Pode amarrar essa fitinha no punho ou no tornozelo. Ótima tarde para você!

– Boa lua de mel para vocês também!

– Vamos indo, Elina? Vamos pelo guichê seis, a fila parece menor.

– Vamos! Mas quer dizer que nós nos casamos, Renato? Esposa?

– Deu certo, não deu? Você não esqueceu as canetas, não é?

– Pode deixar, estão aqui!

– E dessa sala aqui, você se lembra?

– Ah, mas como eu não me lembraria dela? Tive que vir aqui umas três vezes… Vamos ver o rapaz que aponta o apontador correto, não é mesmo? E ele, por sua vez, nos conta o número da nossa esteira, não é?

– Errado! Vamos direto até uma das apontadoras, pode vir comigo, vamos até aquela ali… Boa tarde, senhorita! Como você se chama?

– Deixe-me ver os passaportes… Acho que houve um erro aqui, esse passaporte deveria estar na outra sala…

– Olívia! Bem, é o que diz o seu crachá… belo nome, Olívia! Aqui em Tardisburgo vocês têm muito bom gosto! Lindo uniforme também, adorei os detalhes roxos!

– Senhor, esse passaporte não pertence a esta sala. Lamento, mas vocês precisam voltar até o saguão onde a funcionária irá apontar…

– A Luna? Ah, Olívia, foi ela quem pediu que eu a procurasse! Ela disse que você seria a única que poderia nos ajudar, que só você teria competência para resolver nosso problema! É o seguinte, a Elina aqui, minha esposa, não está passando muito bem, então eu implorei à Luna que permitisse que ela entrasse na mesma sala que eu. Ela não queria deixar, de maneira alguma, afinal ela é uma perfeita cumpridora das suas funções, e nos deixar juntos nesse momento seria uma falha em seus procedimentos, não é mesmo?

– Senhor…

– Mas aí ela teve uma ótima ideia! Ela disse: “Tudo bem, eu vou permitir, mas vocês vão ter que procurar a Olívia na próxima sala. Ela é a nossa melhor funcionária, e somente ela vai conseguir trazer a bagagem da sua esposa para a mesma esteira que a sua. Ela é um amor de pessoa e vai fazer de tudo para ajudá-los!”.

– Ah, a Luna… Ela tem mesmo um coração de ouro, senhor!

– Ela também me falou que você adora chocolates, Olívia! E minha esposa tem excelentes chocolates suíços aqui na bolsa dela, não é mesmo, Elina?

– Claro, querido! Mas será que ela pode aceitar presentes? Você pode, Olívia?

– Na verdade, senhora, não posso. É estritamente proibido pelo nosso regulamento.

– Então vamos todos comer juntos! Eu duvido que nesse regulamento seu esteja escrito que é “estritamente proibido” dividir um lanche com um passageiro, não é mesmo? Elina, abra a caixa para a gente! Vamos Olívia, pode pegar um, o azul é uma delícia! Isso, pegue também mais um do vermelho, é espetacular!

– São mesmo deliciosos! Muito obrigada!

– Continue comendo, Olívia… Onde devemos buscar nossas bagagens? Você acha que consegue trazer as malas da minha esposa?

– Vou tentar, senhor Renato. Mas você já pode se dirigir à sala BG01, vou procurar mandar todas para lá.

– Obrigado, Olívia! A Luna estava certa, você é mesmo incrível! Vamos esquecer essa caixa de chocolates aqui, ok? Aí você pode dividir com ela e com o pessoal do setor de Achados e Perdidos. Vamos, Elina? Vamos passar pelo bar para você beber uma água e descansar um pouco! Num segundo você vai estar ótima!

– Obrigada, querido, vamos sim! Obrigada também, Olívia! Tenha uma ótima tarde!

– Uma ótima tarde para vocês também! Até mais!

– Estamos quase lá, Elina! Só falta retirar as bagagens e a gente consegue sair daqui! Nada de bar, vamos andando direto para a esteira, lá nunca é rápido mesmo!

– Ah, que ótimo! Ainda não estou acreditando que deu tudo certo até agora! Da última vez foi tão diferente…

– Da primeira vez que eu passei por aqui também não foi fácil… Mas depois eu entendi que as coisas aqui eram muito difíceis para eles também, imagine só: você vive em um país lindo, mas que não produz nada, então ao seu redor tem muita pobreza. As pessoas não têm muita coisa e você também não teria nada se não tivesse esse emprego… Então, de repente, esses carimbos que você tem que bater começam a valer demais, sabe?

– Hum… Mas isso é culpa deles mesmos! Eles é que vivem dessa forma!

– É, tudo bem, mas essa insanidade que você vê aqui não é construída da noite para o dia… O que a gente vê aqui é o produto de décadas de improdutividade, de investimentos sem planejamento e de pessoas sem esperança. São várias gerações que não têm possibilidade de desenvolver nada e cujo objetivo de vida acaba sendo trabalhar para o governo.

– Quer dizer que é para eu sentir compaixão por essas pessoas, Renato?

– Calma, Elina. Mas imagine que, além disso, os funcionários passam vários anos fazendo a mesma coisa, cumprindo cada linha do regulamento como se valesse toda a sua vida. É bem provável que eles nem se lembrem mais de que são humanos… E de que nós, passageiros, também não somos apenas passaportes carimbados e formulários assinados.

– Tudo bem, mas você tem solução para isso?

– Para o problema deles? De jeito nenhum! Isso envolve mudanças estruturais, educação do povo, bons governos… Lá no Brasil a gente não é bom em resolver as coisas assim, isso é mais a praia de vocês. Mas improvisar e dar um jeitinho de dobrar os outros é nosso esporte nacional!

– Nossa, que triste…

– Aqui, chegamos! BG01! Aqui eu acho que o jogo vai ser mais duro… Boa tarde, amigo! Como estamos hoje?

– Boa tarde, senhor. Passaporte, por favor.

– Ok. Aqui está! Diga, como você se chama?

– Deixe-me ver o passaporte… Ok, a sua bagagem é aquela ali. Aqui estão os formulários. Três vias, por favor. Pode preenchê-los ali.

– Ok… Pablo! Está no crachá, eu nem consegui ver de longe, acredita? Então, Pablo, minha esposa vai preencher por mim, é possível? Não enxergo muito bem as cores e sei que cada campo tem sua cor correta… Enquanto ela preenche, você me permite uma pergunta? As bagagens dela também foram transferidas para essa esteira, você pode verificar se já chegaram?

– Impossível, senhor. As bagagens nunca são transferidas para outra esteira, é estritamente proibido.

– Sim, Pablo, eu entendo. Mas eu acredito que elas estejam aqui, você pode dar uma olhadinha? Enquanto isso ela preenche meu formulário, já que estamos esperando mesmo… É bem rápido, vai…

– Não está nos procedimentos, senhor. Lamento.

– Pablo, meu amigo, veja bem: as bagagens foram transferidas sim, eu estou vendo a mala dela bem ali. Então, raciocine um pouco comigo: se esse procedimento é estritamente proibido, como você mesmo disse, como essas malas vieram parar aqui? Enquanto você pensa, aqui estão os meus formulários. Pode liberar a minha bagagem, por favor?

– Ok, senhor, vou pegá-las… Aqui estão.

– Elina, pode ficar com elas por um segundo?

– Posso sim. Aqui estão meus documentos também…

– Obrigado, querida! Então, Pablo, já tem sua resposta? Imaginei. É o seguinte, se as malas estão aqui, é porque outros funcionários trouxeram pra cá, não é mesmo? Eles também têm procedimentos a cumprir e regras que não devem ser quebradas, então o motivo pelo qual algo tão grave tenha sido feito deve ser igualmente grave, você não acha?

– Eu… Eu não posso, desculpe.

– Pablo, meu jovem… Seus superiores já estão sabendo do nosso caso, você não tem medo de que eles fiquem bastante irritados se você interromper o trabalho que eles já começaram? Veja bem, lá embaixo, na entrada, já fomos obrigados a conversar com a chefia daquela moça adorável, a Luna. Eles revisaram todo o regulamento da Associação Latino-Americana de Transporte Aéreo e lá não havia nada que proibisse que a minha esposa me acompanhasse por dentro dos corredores. Sendo assim, nos deixaram passar, e a chefe da Luna ficou irritadíssima com ela pelo incômodo, tive até que intervir na discussão para que ela não fosse demitida. Mais tarde, com a também adorável Olívia, travamos mais uma discussão sobre as bagagens… Tivemos até que apelar para as normas da Associação de Transportes Aéreos Internacionais para que ela visse que não havia problema nenhum em transferir a bagagem da minha esposa para essa esteira. Você já imagina o que aconteceu com ela, não imagina?

– Talvez.

– Então… Fomos obrigados a chamar sua supervisora, que por sua vez acabou tendo que ser orientada pela sua gerente e por fim o próprio diretor do aeroporto teve que intervir em nome do bom senso para que a gente pudesse ter o nosso direito resguardado. Tudo por causa da intransigência da Olívia, coitada… Acho que no caso dela não vai ser possível continuar trabalhando por aqui, os chefes estavam todos tão irritados, nem deram ouvidos quando a gente tentou ajudar dizendo que ela só estava cumprindo o regulamento… Que tristeza, dizem que lá fora a situação está horrível para arranjar um emprego desses…

– Senhor, desculpe, mas não acredito.

– Então eu sou mentiroso, Pablo?

– Não é assim, senhor, é que…

– É, Elina, acho que o diretor vai ficar bem irritado com esse rapaz aqui também. Vamos dar uma passada lá na sala dele, mais uma vez… Pablo, obrigado pela atenção, até daqui a pouco!

– Até mais.

– Meu jovem, antes que eu vá até o diretor, você tem certeza do que está fazendo? Você não precisa desse risco, só estamos nós aqui… Ninguém vai ver se você nos entregar essa mala…

– Mas eu não posso… Não é certo!

– Rapaz, é só pegar! Vai correr risco à toa? A mala está logo ali, basta você dar dois passos, puxar pela alça e nos entregar… Rapidinho a gente sai daqui e você ainda se livra de um problema! Vamos lá…

– Argh… Tá bom, leve logo isso daqui! E saia rápido, por favor. Antes que eu tenha problemas.

– Muito obrigado, Pablo! Ele não é ótimo, Elina?

– É…

– Mais uma vez, obrigado, Pablo! Você tomou a decisão certa. Fique com essa camisa do Neymar, aposto que você gosta de futebol! E leve também essa fitinha, deixei uma também com a Luna lá na entrada! São pela dor de cabeça que nós te demos!

– Não me sinto confortável. É contra os procedimentos.

– Vamos, não tem problema nenhum, pode pegar! Todo mundo tem que poder ganhar um presente, ora!

– Ok. Obrigado, senhor. Tenham uma ótima tarde.

– Vamos, Elina! É só passar por aquela porta agora… Olhe para frente, não é o lugar mais bonito que você já viu?

– Nossa, é mesmo lindo, Renato! Não sabia que Tardisburgo era assim…

– Não falei que você iria gostar? É mesmo muito bonito! E você vai ver como é agradável!

– É verdade… Até porque nada pode ser mais feio e desagradável que seus jeitinhos de nos trazer até aqui.

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  • JEITINHO EM TARDISBURGO
  • 3
  1. Ariana disse:

    Muito boa essa nova situação em Tardisburgo.
    Fico pensando: o que leva as pessoas a fazer uso do jeitinho…

    29/julho/2015 ás 21:03
  2. Eliana Mara disse:

    Adorei ter voltado em Tardisburgo. Fiquei imaginando minha reação diante das mesmas situações formais e conclui que eu utilizaria, também, o discurso emocional para um desfecho menos dramático possível.

    30/julho/2015 ás 21:55
  3. Tardisburgo nunca mais será o mesmo depois do curso de jeitinho dado por um brasileiro.
    Quero ver agora, Flávio, é como você conseguirá tirá-los de lá…

    31/julho/2015 ás 15:37

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