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INVISIBILIDADE DO MORADOR DE RUA É MITO SOCIAL

INVISIBILIDADE DO MORADOR DE RUA É MITO SOCIAL

Igor Rodrigues

Doutorando em ciências sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Edição Vol. 2, N. 09, 17 de Março de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.03.16.006

Os moradores de rua são, constantemente, considerados pessoas “invisíveis”. Na rede social Facebook, surgiram diversas comunidades para retratar essa suposta invisibilidade através das trajetórias de vida das pessoas que moram nas ruas: “SP invisível”, “Rio invisível”, “Curitiba invisível”, “Fortaleza invisível”.

A primeira comunidade é descrita da seguinte forma: “O SP invisível é um projeto que visa abrir os olhos e a mente através das histórias dos invisíveis para motivar as pessoas a terem um olhar mais humano.”. Esse tipo de discurso também é reforçado no livro “Cama de Cimento” (2007), de Tomás Chiaverini (1). O autor, que se “disfarçou” de morador de rua – como se essa condição fosse meramente uma questão de vestimenta – para tentar perceber o tipo de vivência experimentada por essas pessoas, busca relatar a “invisibilidade” do povo de rua.

A perspectiva aparentemente crítica da invisibilidade, embora possa parecer uma delação à exclusão ou a negação da existência destes indivíduos, é uma forma equivocada de perceber os efeitos da dominação e do controle social, pois acaba criando uma falsa ideia de indiferença geral e ocultando a enorme visibilidade desta população em termos de controle penal, repressão e punição. Nesse sentido, a sociedade repressora passa a ser identificada tão-somente como a sociedade omissa, ou cuja solidariedade (inclusive de classe) não se manifesta. Ela também reforça o mito de que todos nós estamos igualmente submetidos à repressão e da mesma maneira ao controle social, teatralizando e espetacularizando o drama e o sofrimento de milhares de indivíduos como “histórias interessantes” a serem lidas e descobertas em momentos de lazer por indivíduos privilegiados.

A invisibilidade também pode ser travestida através da perspectiva do anonimato; o fato desses indivíduos serem categorizados a partir do despertencimento (familiar, residencial, laboral), no qual a localização social como morador de rua acaba encobrindo aspectos da identidade individual, como o próprio nome, não os leva ao anonimato. O anônimo não é ninguém, mas qualquer um, assim, sua invisibilidade deriva de seu não (re)conhecimento. Na pesquisa que realizei durante estudos na Universidade Federal de Juiz de Fora, entre os anos 2011 e 2014, intitulada “A construção social do morador de rua: o controle simbólico da identidade“, moradores de rua retrataram algo que não pode ser pensado somente através da perspectiva invisibilidade ou visibilidade, do panóptico, ou do anônimo, pois o que está em jogo não é apenas uma questão de visão ou vigilância – existe uma visibilidade eletiva: se por um lado os sofrimentos destas pessoas são ignorados e não reconhecidos, por outro há mais do que uma visibilidade ou vigilância do controle social. Há uma naturalização da intolerância, forma de autoritarismo presente na relação entre as classes sociais brasileiras, que no limite, é o aguilhão do Estado penal, da ação policial, do controle social e da repressão.

Assim, a invisibilidade em termos sociais e a visibilidade em termos do controle, podem ser melhor expressos diante da perspectiva da naturalização; em vez dos invisíveis, devemos pensá-los, então, como os naturalizados, pois os mecanismos de percepção em questão são tornados irrefletidos e automatizados no cotidiano das cidades, como uma espécie de “theory of everyday”, que revela como a base da opressão e da omissão é a naturalização ou rotinização do próprio tratamento: a tolerância aos dramas e sofrimentos dessas pessoas e a intolerância do controle penal.

Referências

  1. CHIAVERINI, Tomás. Cama de Cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007

  1. FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1977

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  • INVISIBILIDADE DO MORADOR DE RUA É MITO SOCIAL
  • 1
  1. waldemar alves fuilho disse:

    Gostei da abordagem. Minha esposa esta fazendo um trabalho referente este assunto. Então estou fazendo um levantamento a respeito. Pena que não se consegue implementar um serviço mais amplo, para que não acabar mas diminuir o número deles.

    15/agosto/2017 ás 15:04

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