Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

INFERNO

INFERNO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 16, 17 de Agosto de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.08.17.009

Alberto não podia ver quantas vezes a fila fazia curvas em sua frente, guiada por fitas pretas presas a cones de sinalização de trânsito, mas já estava de pé há uns quarenta minutos e ninguém havia se movido. Ele segurava um envelope lacrado e não fazia ideia de onde estava.

Enquanto aguardava algum movimento, procurou lembrar-se do que fazia ali. Olhou para baixo e viu que estava de bermuda térmica e camiseta, então só poderia estar vindo de um dos seus exercícios com a bicicleta. Lembrou-se então de que tinha saído mesmo para pedalar pela manhã, seguindo o mesmo trajeto que fazia todos os dias: saía de casa, descia pela avenida principal do bairro e fazia a volta pela estrada que circundava a cidade. E era só, daí para frente só se lembrava de estar ali.

Decidiu observar o lugar em que estava. Olhou para cima e viu um telhado enorme, provavelmente de amianto, que se estendia por todo o alcance de sua visão. Era sustentado por pilastras antigas, feitas de pedra. À sua frente estavam os guichês de entrada, que impediam que ele visse o restante do lugar. O chão tinha um carpete marrom, que parecia ter sido limpo pela última vez antes de Pedro Álvares Cabral vestir calças longas. Ah, um caminhão branco! Ele tinha visto um caminhão branco antes de vir parar aqui.

Alberto então teve os pensamentos interrompidos por um cutucão no antebraço:

– E aí, amigo! Vai querer o city tour?

Ele virou o pescoço e viu um homem do outro lado da corda, segurando uma prancheta.

City tour? Tour do quê, isso aqui é um galpão!

O homem, que trajava calças sociais sobre tênis vermelhos e amarelos, não perdeu o largo sorriso:

– Ora, tudo bem que vivemos fechados aqui, mas o que impede uma cidade de estar localizada sob uma gigante telha de amianto? Vamos lá, não vai demorar!

– Como assim, rapaz? Eu nem sei onde eu estou!

Ampliando um pouco o sorriso, o homem aliviou a gravata no colarinho e prosseguiu:

– Ah, essa é a minha parte preferida! – ele então ajeitou os óculos escuros. – Vamos lá, vamos lá! Você está no… no… – flexionou as pernas e colocou as mãos sobre os joelhos. – Inferno! Inferno! – gritou, enquanto saltitava e começava a dar rodopios no mesmo lugar.

– Como é que é?

– Inferno, ué! Tártaro, Diyu, Hades, Lago de Fogo, Duat, Abismo, Seol, Xibalba, Casa do Capeta, pode chamar do que quiser! Mas você, amigão, desceu! Rá! Empacotou e veio parar aqui, no meio do inferno! E agora vai fazer City Tour comigo!

O homem então puxou Alberto pelo braço, rasgando uma das fitas que delimitavam a fila:

– Vamos, eu não tenho o dia todo! Espera… Tenho sim! Rá! Vamos dar uma volta, a fila não vai andar mesmo… São oitenta guichês, mas só temos três funcionários por turno nessa época…

Alberto relutou, mas decidiu seguir o homem. Afinal, por mais chato que o sujeito pudesse ser, nunca poderia ser pior do que uma eternidade numa fila.

– Ah! – disse o sujeito. – Só uma coisa! Acredita que eu me chamo Virgílio? Rá!

Alberto franziu as sobrancelhas, mas o homem nem esperou a resposta:

– Brincadeira, amigo! Funcionário aqui não tem nome, só número. Acredita que o meu é 666? Rá! Brincadeira de novo, esse número é só da chefia! Vamos, sorria um pouco!

– Como é que eu vou sorrir se eu estou no Inferno, rapaz?

– Você não sorria na Terra? Então, sorrir aqui não é nada de outro mundo… Espera, é sim! Rá! Ié-Ié! Essa foi boa, não foi? Diz que foi, vai!

– Foi… Foi sim. Parabéns.

– Amigo, deixa eu te explicar uma coisa: você já desceu! Já dançou! Olha pra frente, vem cá…

Alberto seguiu o funcionário, que o levava por um corredor que passava ao lado dos guichês. O recém-chegado então teve ideia da dimensão do Inferno: ainda não era possível ver onde o gigantesco telhado de amianto terminava, mas ele já conseguia ver os principais pontos turísticos. Sempre em meio a risadas, o funcionário apontava os já conhecidos Lago e Rio de Fogo, as cachoeiras de sangue, os diversos calabouços, abismos e castelos que estavam todos ao lado direito dos dois:

– … e ali, bem lá atrás, dá pra você ver? É a Cidade de Dite! Das últimas gestões, ela é a minha preferida! Acredita que aquela torre ainda está de pé? Rá!

– Espera! Últimas gestões?

– É, a gente vai mudando as coisas aqui de vez em quando! Ou você achou que tinha gente apanhando do vento até hoje? Rá! A gente também tem que se atualizar, ué! Não é assim lá na Terra? Como é mesmo que vocês dizem? Camarão morto a água leva? Rá!

– Parado. Camarão parado.

– E morto não fica parado? Espera…

– Argh. Então, já que eu vou ficar por aqui, melhor saber como funciona, não?

– Calma, moço! Nós temos milênios pra você entender isso aqui! Mas é o seguinte: tudo aqui é um reflexo da Terra, ok? Tudo. Então essa parte que você está vendo à sua direita é quase um museu. Esses são os antigos infernos formados pelos antigos conceitos… Tudo ok até aqui?

Alberto assentiu e gesticulou para que o funcionário prosseguisse.

– Bem, antigamente, há uns setecentos mil anos, Dante escreveu a Comédia e muita gente passou a tomar aquele Inferno como o real, certo?

– Espera! Setecentos mil anos? Mil?

– Cada milênio equivale a um ano na Terra, meu jovem! Rá! Já imaginou quanta história eu vou poder te contar? Ié-Ié! Prosseguindo, a gente então passou a ter as instalações parecidas com a dele. Trouxemos o Cérbero, o Minotauro, Quíron… Olha a balsa do Caronte ali, dá um tchau pra ele! Gente fina demais, você precisa ver! Ah, bons tempos aqueles, aquilo sim era um Inferno de verdade!

– Mas ele virou museu?

– Vamos andando, vou te mostrar… Aqui tem uma bifurcação, à direita fica o caminho para o lado do museu, é melhor tomar cuidado por aqui, ok? Atrás das torres fica a Casa das Mentiras e, mais ao fundo, Niflheim. E lá faz um frio danado, viu? Vamos para o lado de cá!

Os dois seguiram o caminho da esquerda. Alberto tentava pensar no motivo de ele ter descido e também tentava entender como aquele galpão poderia caber tantas instalações, mas o funcionário não dava a ele um minuto de sossego:

– Então, o que acontece é o seguinte: conforme as crenças vão mudando, nós também temos que variar! Não se esqueça, meu jovem, de que somos um espelho do mundinho de onde você veio! O que vocês fazem por lá, nós absorvemos aqui!

– E por que eu vim parar aqui? Eu sou gente boa!

– Ah sim, claro! Todo mundo é! Rá! “Ah, eu nunca fiz nada!”, “Eu? Eu sou santo!”… Já ouvi de tudo, mas no final das contas ninguém vem sem motivo para os domínios do Diabo. Passa o envelope para cá, vou ver o que você fez!

O funcionário abriu o envelope entregue por Alberto e começou a passar os papéis. Chegando à décima folha, olhou para o recém-chegado e pediu:

– Pode subir a manga esquerda da camisa, por favor?

– Ué, claro… – e subiu a manga. Lá estava uma tatuagem tribal no braço esquerdo.

– Está aí o motivo. Tatuagem.

– Hein? Eu dancei por causa da tatuagem?

– É. E pode anotar: quem condena não somos nós, são os vivos! E pra maioria deles, tatuagem ainda é coisa suficiente para tornar um sujeito condenado a vir para o time do Capiroto.

– Mas isso é ridículo!

– Eu não faço julgamentos. Espera… Tribal? Sério? Rá! Desculpe, eu fui humano também um dia… Continuando, nós não julgamos, apenas recebemos vocês de braços bem abertos! Afinal, também precisamos crescer, entende? O Tranca-rua precisa de muita gente para fazer isso aqui funcionar bem!

– Eu não acredito. Só pode ser piada…

– Se é assim, você vai ter bastante tempo para aprender a rir por aqui! Rá! Viu como eu também aprendi?

– Mas tinha que aprender a rir igual ao Sérgio Mallandro?

– Rá! Ié-ié! Nós somos incentivados a roubar uma risada lá da Terra também, para deixar vocês mais confortáveis! Gostou da minha?

– Ah, adorei… Mas eu não posso apelar para ninguém? Isso é um absurdo! É arbitrário!

– Arbitrários são os vivos. Nós só recebemos, já esqueceu? Bem, quando as tatuagens não forem mais motivo de visita ao Belzebu para maioria lá da Terra, você vai ter sua descida reconsiderada.

– Argh. Pelo menos meu caso não é tão grave, acho que daqui a pouco o pessoal lá da Terra já deve aceitar…

– Bem, não se esqueça de que eu disse maioria. E se você está pensando nos seus amigos bonitinhos e vanguardistas que fizeram faculdade com você, melhor lembrar de que para cada um deles tem pelo menos cinco menos modernos espalhados pelos quatro cantos da Terra… Espera, quatro cantos de uma esfera? Enfim, enquanto o número de conservadores superar o de inovadores, esse Inferno aqui não muda! E não se esqueça, para cada ano que eles demoram por lá, você fica um milênio aqui… Rá!

– Que imbecilidade!

– Epa, calma lá! Olha o vocabulário, meu jovem! Tudo bem que aqui é o reino do Cramulhão, mas ele negociou isso com o dono lá do Céu, eles que entenderam que isso era mais correto!

– Ah, eles são amigos, então?

– Claro que não! São rivais em tudo! E eles brigavam tanto pelos mortos que tiveram que adotar um critério. E assim foi feito. Veja bem: dessa forma, nós aqui não julgamos, nem eles lá. Quem define tudo são os vivos, assim não tem briga nenhuma!

– Como assim?

– Rá! Quer que eu desenhe para você? Mas veja bem, é melhor assim… Pensa comigo: Galileu e Giordano Bruno já passaram uns bons milênios aqui, você acha isso certo? A geração deles condenou, mas as que vieram depois consertaram a bobagem, não é assim que tem que ser?

– Mas e se ninguém consertar as asneiras dessa geração? Eu fico aqui para sempre?

– Bem, aí elas nunca vão ser asneiras, não é mesmo? Ié-ié! Mas veja, chegamos ao meu lugar preferido! Era aqui que eu queria te trazer desde o começo!

Eles estavam em frente a uma parede de gesso que chegava até o telhado de amianto. Sobre a porta estava a placa: “Centro Infernal de Entreterimentos do Inferno”.

– Entreterimentos? – gritou Alberto. – Infernal do Inferno? – continuou, começando a gargalhar. – Quer dizer que o Pé de Gancho é analfabeto?

– Mais respeito, amigo, mais respeito. Satanás não gosta de ser alvo de piadas. E mesmo assim, isso foi coisa do estagiário.

– Agora sim eu estou entendendo melhor essa coisa de espelho…

– Enfim! Vamos entrando, você deve passar a maior parte do tempo aqui dentro!

Atrás da porta havia uma estreita estrada de pregos, cercada por finas cordas de pele de serpente presas a pequenos postes de madeira podre. Seguindo pela estrada, Alberto observou que havia algumas saídas que levavam a outras paredes e suas portas. Ele apontou para a primeira, e o funcionário nem aguardou a pergunta:

– Aqui é o Centro Esportivo! Temos vários estádios atrás daquela porta, quadras de tênis, pistas de ciclismo, piscinas… Tudo para a boa prática dos esportes aprovados pelo Tinhoso!

– Aprovados?

– É, aqui só se praticam os mais diabólicos. E todos com pequenas modificações instituídas pelo próprio Sapucaio, é claro. Veja bem, para cá vêm os melhores atletas da Terra, e eles são condenados a continuar praticando seus esportes para sempre.

– Mas não parece tão ruim…

– Rá! Aí que vem a engenhosidade do Excomungado! Eles jogam descalços sobre quadras de esterco ou nadam em piscinas de bílis. Mas não é só isso, veja só: eles também não são mais os mesmos atletas que foram quando vivos, de jeito nenhum! Todos eles são obrigados a conviver com corpos flácidos e pesados, além de possuírem a coordenação motora da uma criança comum de cinco anos. Meu chefe é um gênio, esse aqui é o melhor show do Inferno!

– E não deve faltar atleta para descer, não é?

– Claro que não, os vivos condenam o doping… E você não acredita na quantidade de gente que usa… Mas você quer entrar para ver? No City Tour nós só permitimos a entrada em uma das salas do nosso Centro sem a compra do ingresso. E é claro, só temos ingressos disponíveis com os cambistas. Rá!

– Quais as outras opções?

– Temos os Centros de Cinema, Pintura, Música…

– Música, música! Deve estar bem cheio, não?

Os dois então seguiram a estrada até chegarem ao Centro Musical. Assim que abriram a porta, entraram em um grande auditório, lotado de condenados assistindo ao show de um jovem de bigode que dançava sem camisa pelo palco.

– Ei, espera aí! Aquele é o Freddie Mercury?

– É, mas não é! Rá! Vamos chegar mais perto…

– Mas ele está aqui? Puxa…

– Os vivos condenam. E a sua geração ainda condena homossexuais. Aliás, tem gente até perdendo a cabeça por isso! Literalmente.

– De jeito nenhum! Nós já progredimos…

– Não, não, não… – interrompeu o funcionário. – Você e seus amigos vanguardistas podem até aceitar, mas vocês ainda são minoria! Bem, você já não pode mais nada, não é mesmo? Rá!

Chegando próximo ao palco, Alberto ficou surpreso com a voz que saía das caixas de som:

– Ué, eu me lembrava dele cantando bem melhor que isso…

– Rá! Mais uma obra genial do Anhangá! Imagina você chegando ao Inferno e caindo em um show do Freddie Mercury? Isso aqui não poderia mais se chamar Inferno, não é mesmo? Então o chefe troca a voz do condenado por outra bem pior, e o coitado ainda tem que passar a eternidade cantando para uma plateia que só dá risadas… É triste, mas também é bem divertido!

– Quer dizer que vocês vivem rindo da desgraça alheia?

– Espelho, meu jovem! Espelho! E também, é só disso que podemos rir por aqui, não é mesmo? Rá!

– E de quem é a voz que eu estou ouvindo?

– Ah, hoje é de um dos rapazes do One Direction. Entenda bem, o Pai do Fogo é criterioso, ele não sai simplesmente escolhendo vozes para os condenados, ele também tem seus afazeres, ora! Então é bem simples, ele coloca sempre a voz de quem está em primeiro nas paradas. Funciona que é uma maravilha! No caso de a voz ser boa, aí ele vem e resolve o problema!

– E isso acontece?

– Sabe que aconteceu uma vez? Quando a Etta James desceu, há uns três milênios, todo mundo veio aqui para o auditório! Poxa, era a Etta James! Até fiquei tenso nesse dia, juro! Tanta gente esperando para ver que horror de voz nossos procedimentos iam colocar naquela senhora! Mas quando ela começou a cantar, saiu a voz da Adele, você sabe quem é, não sabe?

– Claro!

– Meu jovem, você imagina a Etta James cantando com a voz da Adele no palco do Inferno? Seríamos mesmo obrigados a mudar de nome! Rá! Tinha gente do Céu tentando ver o show pela janela! Ninguém queria mais trabalhar, os cambistas não tinham ingressos suficientes… Isso aqui virou uma bagunça! Até que nossa farra chegou aos ouvidos do Cornudo e ele acabou com tudo…

– O que ele fez?

– Deu um pulo lá na Terra e causou aquele problema nas cordas vocais da moça. Aí os vivos acabaram se esquecendo dela e colocaram a Kesha no lugar. Pobre Etta, e agora nós temos que esperar a Adele descer para pelo menos a gente poder vê-la um pouco…

– Adele? Descer?

– Meu jovem, os vivos condenam os gordinhos também. Não você e…

– Tá bom, tá bom! Meus amiguinhos vanguardistas… Já entendi! Vocês trabalham com maioria, ok! Chega desse lugar, podemos sair daqui?

– Claro, vamos acabar o City Tour por aqui, já deu para você entender o básico da sua nova casa!

Alberto e o funcionário deixaram o auditório. Enquanto seguiam de volta pelo estreito caminho, viram o mesmo Freddie Mercury debruçado a uma fresta nas paredes.

– Ei, o que ele está fazendo? – perguntou o recém-chegado.

– Ah, coitado… Ele fica tentando ver um pedaço do Céu por aquela janelinha. É de dar pena, não é? Mas isso não é culpa nossa, esse Inferno não fomos nós que criamos, foram os vivos! E enquanto eles inventam motivos para infernizar gente boa, o Rabo de Seta agradece!

 

 

Print Friendly
  • INFERNO
  • 4
  1. Ariana disse:

    Espelhos e seus mistérios…, quem tem medo de ir pro inferno?

    19/agosto/2015 ás 21:31
  2. Não concordo com os critérios do Pai do Fogo.
    Se eu for para lá, ( o que é quase certo), exigirei
    a voz do Derrick Green do Sepultura.

    21/agosto/2015 ás 17:13
  3. Lourdinha Medeiros disse:

    Mais fácil cuidar da própria do que da alheia…
    Gostei demais!

    22/agosto/2015 ás 18:48
  4. eliana mara disse:

    E tudo que somos é uma impressão alheia….

    24/agosto/2015 ás 21:55

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>