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INCONVENIENTE

INCONVENIENTE

Edição Vol. 3, N. 12, 27 de Junho de 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.06.29.006

Flávio Carvalho

Adalberto não podia ver através dos corpos enfileirados entre as fitas pretas presas aos cones de sinalização de trânsito. Mas é claro, quem pode ver através de corpos? Talvez o operador de Raio X? Que horror, Adalberto.

Além da usual enxurrada de piadas de gosto duvidoso, ele também tentava usar sua cabeça para descobrir o motivo de estar ali. Segurava um envelope lacrado e só se lembrava de ter ido escovar os dentes antes de ir dormir. Mas tinha dormido de calça social e tênis? Ah, Zolpidem dá essas coisas esquisitas mesmo.

Tentou puxar conversa com o homem à sua frente. Cutucou o antebraço do rapaz, mas foi completamente ignorado. Arriscou um “bom dia”, mesmo sem ter noção das horas. Deu alguns saltos no mesmo lugar, fingiu uma tosse e assoprou a nuca do sujeito. Tudo sem sucesso.

Gritou então que o galpão estava pegando fogo, o que, aliás, não lhe parecia mentira: a temperatura sob aquelas telhas de amianto parecia mesmo a de um incêndio. Mais uma vez, todos continuaram no mesmo lugar. Berrou mais, puxou paletós e até bateu com seu envelope em algumas nucas, mas nada fez com que alguém se movesse. Resignado, decidiu se sentar.

– Com licença, senhor. – disse uma moça que surgiu do outro lado da corda. – Você quer que eu te apresente o lugar?

– Ora, mas é claro! Sua companhia vai ser bem melhor do que a desse bando de carrancudos dessa fila!

Adalberto então levantou-se de salto e ofereceu a mão à mulher. Ela manteve as duas mãos na prancheta e assentiu com a cabeça:

– Que bom. Vamos logo. – e se virou, caminhando por um corredor que passava ao lado de alguns guichês e ia para a parte de trás do galpão.

– Olha, moça… – disse, enquanto terminava de se levantar. – Tá achando que eu sou fácil assim? – pulando a corda. – Você não vai nem sequer me falar seu nome?

– Eu não tenho nome. – respondeu sem olhar para trás. – E eu também não tenho o dia todo, dá pra andar logo?

– Mas vejam só que mocinha brava, gente! Parece filha do Capeta!

– Filha não, funcionária. E já que você parece estar se divertindo, já posso deixá-lo sozinho. É só seguir ao lado dessa parede até a estradinha de cascalho. Tenha uma ótima eternidade. – e continuou caminhando.

– Ei, calma lá! – retrucou Adalberto. – Você falou coisa demais aí, ué! Vamos mais devagar… – correndo e estendendo a mão até o ombro da moça.

– Não encosta em mim!

– Então me espera! Senão o dedinho aqui vai te pegar… – girando o indicador em frente ao nariz da garota.

– Cara, com dois minutos de conversa eu já vi que você é insuportável! Nem preciso ver sua ficha pra saber por que você veio parar aqui!

– Aqui?

– Aham. Olha, hoje eu não estou com graça e nem com paciência pra te explicar com calma, tá? Mas você morreu e veio pro inferno. Só isso. E eu só tenho que te apresentar tudo e voltar pra minha sala pra poder curtir minha enxaqueca eterna, ok?

– Ah… Inferno… Aham…

– Bem, você perguntou e eu respondi. Até nunca mais.

– Não, não, não! Calma lá! Em Inferno eu não acredito, é claro que uma bobagem dessas não existe…

– Ih, tadinho… Você é desses que não acreditam nessas coisas, né?

– Desses? Tá bom… Mas como que isso aqui é a Casa do Capeta se eu não vi diabo nenhum até agora! Que porcaria de inferno é essa?

– O seu.

– Ora, se é assim nós não estamos em lugar nenhum! Se o lugar é meu e pra mim ele não existe… Como assim? Hein? Hein?

– O que você pensa não importa, rapaz. Vamos andando, estou com pressa!

Eles caminharam pela estradinha de cascalho. A moça seguiu na frente, apontando as diversas seções:

– Ali na frente ficam o Lago e o Rio de Fogo, na parte de trás fica a Cidade de Dite…

– E lá tem torre ainda? – respondeu Adalberto, que estava alguns passos atrás dela com os olhos arregalados como uma criança pela primeira vez no fliperama. – Sabe, eu sempre li que lá é que ficava a Megera… Mas é mentira, né? Ela está aqui comigo! Ha-ha-ha!

– Ridículo. Esses são os Infernos antigos, você vai ter bastante tempo para passar em cada um, ok?

– Nossa! Esse lugar é incrível! Sério, vocês têm o Inferno de Dante inteiro aqui? Jura? Eu adoro a Comédia! Vou poder fazer amizade com o Caronte e a gente vai…

– Cara, fica calado! Que inferno! – gritou a mulher, apertando a parte de cima do nariz. – Ali, depois da bifurcação, ficam a Casa das Mentiras e Niflheim.

– Ah, até que enfim um lugar frio! Aqui tá um calor danado!

– E por último, ali à esquerda, o Centro de Entretenimentos.

– Entretenimentos? Isso aqui já está melhor que minha casa, ué!

– Sim, lá temos música, esportes e tudo mais que você quiser. Tudo à moda do Capiroto, claro. Já posso ir embora?

– Calma, me explica direito!

– Não, daqui pra frente é tudo com você. Boa eternidade!

– Ah, se for assim pra sempre está ótimo mesmo! Adalberto vai deitar o cabelo! Ha-ha-ha!

– Espera aí… Adalberto? – e tomou o envelope da mão dele.

– Espero. – respondeu e ficou imóvel, como brincando de estátua.

Enquanto ele continuava a piada, a mulher rasgou o pacote e começou a passar pelos documentos. Quando chegou à identidade do sujeito, gritou:

– Pode parar, gente! Deu tudo errado! É pra carregar o quinze, esse aqui é o doze!

Depois do grito, todos os que estavam enfileirados, os funcionários dos guichês e os demais figurantes retiraram alguns papéis do bolso. Enquanto liam, uns trocavam de posição enquanto outros iam embora. Uma pequena fila se formou na direção de onde estavam os guichês e onde agora se via uma saleta dividida em pequenos escritórios. O restante do cenário estava verde e os dois continuavam no mesmo lugar:

– Calma lá! – disse ele. – Chroma key? Sério? Rá! Sabia que tudo isso era enrolação! Não existe Inferno, eu até já estava imaginando que fosse sonho, sabe? Eu sei que Zolpidem é bruto, mas um sonho lúcido desses eu nunca tinha tido… Aliás, normalmente quando eu tomo essas coisas eu não me lembro de nada, mas vai saber, né?

– Adalberto… Peço desculpas, o estagiário deve ter trocado você pelo Alberto, que está chegando daqui a pouco. Mas já estamos corrigindo tudo, só um segundo…

– Ha-ha-ha! Sabia! Só podia ser piada mesmo! Agora me conta, quando é que eu vou acordar, hein?

– Depende do que você chama de acordar…

Ela foi interrompida pelo estagiário, que depois de pedir desculpas entregou um novo envelope à moça e levou o que ela segurava. Ela olhou rapidamente os documentos enquanto Adalberto tentava ler por cima de seus ombros. Alguns segundos depois, uma campainha tocou três vezes.

– Prontinho! – disse a mulher. – Por aqui, já vou colocá-lo em seu lugar.

Adalberto tirou os olhos dos documentos na mão da moça e viu que estava envolto por fumaça. Apesar dos quase dez metros de altura, o galpão parecia mais apertado por causa das construções que surgiram: casas, pequenos prédios de dois andares e alguns estabelecimentos comerciais formavam um pequeno quarteirão. Sob os seus pés ele viu um asfalto bastante esburacado.

Ele ergueu o olhar e, mirando um pouco mais adiante, pelo menos até onde a fumaça permitia, viu um grupo de veículos enfileirados nas três faixas da estreita rua.  Não podia ver o fim da fila e também não podia ver nenhum espaço do asfalto que não estivesse ocupado por algum automóvel.

– Venha, o seu está logo ali na frente. – falou a moça enquanto começou a caminhar por entre os veículos.

Ele a seguiu pelo espaço apertado. Os dois foram forçados a parar por duas vezes por motos cortando os carros pelo corredor, até que ela apontou para um ônibus parado na faixa do meio. O veículo soltava uma fumaça preta do seu cano de descarga e parecia ter sido fabricado antes da morte de Getúlio. A porta estava aberta e a chave na ignição.

– Pode subir. – disse a mulher.

Adalberto se aproximou da entrada do ônibus e colocou a cabeça para dentro do veículo. Ele estava totalmente vazio e as janelas estavam fechadas e sem possibilidade de abertura. O Roadstar, da mesma idade do ônibus, estava no volume máximo e a fita cassete, obviamente presa ao aparelho, tocava os três primeiros versos de “Maria, Maria” em loop infinito.

– Não, eu não vou entrar, pode esquecer!

– Adalberto, por favor. Não prolongue o processo. Preciso trancar o ônibus antes de ir embora.

– Mas é de jeito nenhum! Não, não, não, não, não! Pelo amor de Deus!

– Ué, vai apelar agora? Mesmo assim, tadinho… Aqui é terra do Diabo, você devia ter feito uma forcinha pra não vir parar aqui…

– Não, mas tem que ter um jeito! Eu sei que isso é mentira, eu sei que é Chroma Key!

– É, isso não tinha me ocorrido antes: você acha melhor saber de toda a verdade ou acreditar no mundo de mentira, hein? Bom, pelo menos você vai ter bastante tempo pra pensar nisso…

– Ah, engraçadinha você, hein?

– Até alguns minutos o engraçadinho era você, não era? Mas chega de palhaçada, rapaz! Eu já estou de saco cheio de você! E não me faz gritar, ok? Isso faz minha cabeça explodir!

– Esse é o seu inferno, não é? Rá! Garota-enxaqueca!

– Dá pra parar?

– Eu paro, eu paro… Garota-enxaqueca! Ha-ha-ha! – gritou, enquanto dava pulos e rodopios em volta da moça.

– Escuta, você acha engraçado isso, é? Acha bonito ver os outros sofrendo?

– Os outros não, ora! Claro que não! Só quem quer me colocar pra dentro do Inferno, aí eu acho lindo!

– Argh! Entra logo, seu nojento! Vou ter que chamar o cachorro?

– Aquele ali, da porta do museu? Rá! Melhor um bicho de três cabeças me mastigar de uma vez do que uma eternidade pilotando ônibus no engarrafamento! Eu não vou entrar! Se vira pra contar pro seu chefe Cramulhão lá, o problema é seu!

– Que sujeito insuportável! – berrou enquanto apertava as têmporas. – Que serviço infernal! Eu não aguento isso mais!

– Quem mandou você errar? É culpa sua que eu vi o Chroma Key! Não é justo, ué! Alguém que cumpre essas penas doentias já viu que é tudo mentira?

– Não é mentira! Que diferença faz se é estúdio?

– Pra mim agora faz! Alguém já viu isso antes? Anda, responde!

– Não, mas que diferença faz?

– Faz toda a diferença! Eu quero entrar com um recurso! O Pé de Gancho tem que me ouvir!

– Ninguém vai falar com ele! Ele nunca vai ficar sabendo disso aqui!

– Hein? – Ele então fixou o olhar num ponto qualquer por alguns segundos. – Espera! Acho que eu tive uma ideia!

Ela cruzou os braços e esperou a explicação. Depois de alguns segundos andando de um lado para o outro coçando a cabeça, ele começou:

– Você odeia isso aqui, certo? Ficar aqui de recepcionista desse monte de gente inconveniente. Não eu, claro, mas esses outros que devem vir todo dia.

– Você é quase tão inconveniente quanto a enxaqueca e a função, tá? Quase.

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– Eu sei, eu também adorei te conhecer! Mas voltando à ideia… Eu adoro ficar conversando com as pessoas, tanto que meu inferno é um ônibus vazio e fechado… Vamos trocar, ué! Você me dá o seu emprego e entra no meio dos figurantes! Dá pra você ficar bem quietinha o dia todo, só curtindo sua dor excruciante! Enquanto isso eu me divirto com a turma que for chegando aqui! Hein, hein?

Ela colocou a mão no queixo e ficou olhando para o chão por um tempo. Ele ainda disse “hein” umas sessenta vezes até que ela prosseguiu:

– Olha, eu devo reconhecer… Até que ser recebido por você realmente tornaria isso aqui mais infernal para qualquer um.

– Não é? Eu sou um gênio! – disse, piscando um dos olhos. – Vamos experimentar, pelo menos? É bom que o Rabo de Seta nem precisa ficar sabendo de que você e o estagiário avacalharam esse Inferno aqui…

– Ok. – respondeu, depois de um suspiro. – Vamos experimentar uma vez, tá bom? Uma vez! E se der errado você vai direto para o ônibus!

– Eba! – gritou, balançando os braços e correndo em volta da mulher. – Nossa, eu vou mandar bem demais agora! Você vai ver, vai ser sensacional, vou ser o melhor recepcionista da história do Inferno!

– Uma vez!

Ela então pediu novamente que carregassem o doze. Tudo ficou verde mais uma vez e, enquanto esperavam, a moça deu as últimas instruções:

– Depois que a fila voltar, você pega minha prancheta e vai até o sujeito. Ele tem que ir com você, ok? Daí pra frente você caminha um pouco com ele e apresenta o lugar, você tem mais ou menos umas duas horas pra terminar.

– Sim, senhora! – disse ele enquanto sorria e pulava de um pé para o outro. – E como eu devo me portar? É pra infernizar o sujeito?

– Basta ser você mesmo. Já é o suficiente.

– Rá! Vai ser espetacular!

A campainha tocou novamente e o Inferno de Alberto já havia retornado, com o sujeito correto já aguardando na fila. Adalberto estendeu a mão à moça:

– Parceiros, então?

– Não encosta em mim! E vai logo pro Inferno! – disse ela, virando-se de costas e caminhando em direção aos guichês.

– E como vou! – respondeu. – E eu posso me chamar Virgílio? Rá!

Screen Shot 2016-06-29 at 11.25.19 AM

Já alguns passos distantes, ela apenas respondeu com um gesto obsceno. Já ele foi correndo até Alberto cutucou o seu antebraço:

– E aí, amigo! Vai querer o city tour?

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  1. Ariana disse:

    Até no inferno, a culpa é do estagiário!

    01/julho/2016 ás 20:18

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