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INCOERÊNCIA

INCOERÊNCIA

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 03, 11 de Novembro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.11.10.001

O rádio transmitia o discurso do pastor quando a programação normal foi interrompida. Era hora do pronunciamento do presidente da república.

– Ah! Ninguém merece, viu! – disse o motorista enquanto diminuía o volume do aparelho no início do discurso. – Só me falta ainda ter que terminar o caminho ouvindo esse corrupto!

A reclamação, entretanto, não era ouvida por ninguém. Léo se encontrava dirigindo sozinho e com as janelas fechadas. O trânsito estava congestionado sobre o viaduto que levava à sua casa, e nem mesmo o fato de ter acabado de passar as últimas horas em meio a algumas cervejas com o pessoal do serviço reduzia o seu estresse.

Depois de alguns minutos com o carro parado e o rádio desligado, Léo começava a ficar mais agitado. Juntando o seu tédio à perspectiva de que por um longo período sua situação não mudaria, o homem decidiu que precisava de algo para se animar um pouco. Buscou então o caminho mais fácil para os problemas de humor: comida.

– Moleque, chega mais! – gritou ao garoto que vendia doces no engarrafamento. – Me arruma um chocolate desse aí, quanto é?

– São três reais, moço.

Léo entregou uma nota de dez ao menino e pegou o doce. O pequeno abriu a bolsa e colocou uma nota de cinco e três moedas de um na mão do motorista.

– Valeu, irmãozinho! – falou o motorista ao se despedir do garoto. Ele abriu a mão e contou o troco. Conferiu as moedas, deu de ombros e resolveu guardar o dinheiro. Vociferou novamente em direção ao rádio do veículo:

– Corrupto! Safado!

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A jornada para casa ainda teria uma parada para buscar sua namorada. O programa de sexta-feira sempre era jantar na casa de Léo e esta não seria diferente. Parou o carro e abriu a porta para a moça:

– Nossa, que demora! O trânsito estava ruim demais? – perguntou Fernanda.

– Com certeza! Você não acredita na quantidade de carros! Essa cidade não vai pra frente! Por que esse povo não anda de ônibus?

A jovem não respondeu. Apenas olhou para o namorado e mudou de assunto:

– Vamos aumentar um pouco o rádio! Deixa que eu…

– Não coloque a mão aí! – retrucou Léo. – Não gosto que você mexa no rádio, e ainda por cima aquele corrupto sem vergonha está falando!

– Querido… você não votou nele? Duas vezes?

– Votei! Mas eu não sabia! E tem mais, o outro era bem pior! Esse aí pelo menos defendia umas coisas legais, sabe? Tipo igualdade, igualdade é importante! De raça, de gênero, de tudo!

– Ah… tá… é mesmo, amor. – disse a moça, resignada.

– Pois é! Mas isso a gente discute em casa! Eu vou chegar e tomar banho porque eu estou estressado, enquanto isso você vai preparando o jantar, ok? Tira também as minhas roupas da máquina e coloca no varal, beleza?

– Mas eu preciso estudar um pouco, tenho prova da faculdade amanhã…

– Olha só, você sabe que essas coisas são de mulher, não sabe? Fica com a cozinha, com a louça e com a limpeza. Eu já trabalhei demais hoje!

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A volta para casa já estava quase no fim. Fernanda tentava dormir no banco do passageiro, já que, pelo visto, ainda não tinha terminado a jornada de trabalho do dia. Já seu namorado continuava praguejando contra o congestionamento, o presidente, o trabalho e tudo mais o que passasse pela cabeça no momento.

O engarrafamento parecia ter melhorado um pouco, mas a lentidão aumentou a poucos quarteirões do seu destino. Os carros da faixa à direita da sua começaram todos a se mover para a sua pista e quando o motorista viu os cones, o reboque e os carros da polícia, já entendeu do que se travava:

– Ah! Só podia! – gritou. – Se tem engarrafamento é porque tem polícia no trânsito! Vão prender bandidos ao invés de atrapalhar!

Fernanda abriu os olhos e se virou para o namorado:

– E você bebeu hoje, não foi? Com esse hálito…

– Foi pouca coisa! Não faz diferença! Não me atrapalha em nada no volante!

– Meu Deus… – resmungou a moça, se virando para o lado da janela.

E o que restava ao homem era apenas apelar para o divino. Léo estava sem o controle da situação, pois não havia uma forma de se desviar dos policiais. Somente poderes milagrosos poderiam intervir na cabeça do agente e fazer com que ele não escolhesse esse carro para ser parado.

O sobrenatural, no entanto, não venceu o farol dianteiro queimado. O motorista foi obrigado a parar o automóvel e conversar com o policial:

– Habilitação e documentos do veículo. – pediu o agente.

Léo retirou os dois da carteira e entregou ao policial. Fernanda apenas observava.

O agente foi até o seu carro e retornou para falar com o motorista:

– Tudo bem com a documentação, mas verifique os faróis do seu veículo. O dianteiro está queimado.

– E você vai me multar por isso? Você só pode estar de brincadeira! – rebateu Léo, virando seu rosto para o policial.

– Só disse para você verificar os faróis. – disse o guarda. Sentindo o cheiro de álcool vindo do motorista, completou:

– Por favor, desça do veículo.

– Por quê? – retrucou o motorista, com o tom de voz mais elevado.

Fernanda desta vez se virou para o namorado:

– Léo, pare com isso… não fale assim com o policial!

Seu namorado apenas gesticulou para que ela se calasse. O agente prosseguiu:

– O senhor aparenta sinais de embriaguez. Por favor, desça do veículo!

Léo, no entanto, continuou a discutir:

– Isso é um absurdo! Você devia era prender ladrão de verdade! Vá prender aqueles políticos corruptos! Eu não sou criminoso! Eu trabalho todo dia! Sou homem honesto, cumpridor da lei!

– Bem, se o senhor está cumprindo a lei, basta que a gente verifique com o etilômetro.

Léo desceu do veículo, assim como sua namorada. Os dois se aproximaram do policial e o homem disse:

– Vamos lá, a gente não precisa disso, seu guarda! Vamos resolver isso de outra…

– Ah não! Chega! Cansei! – interrompeu Fernanda. – Senhor agente, por favor…

Fernanda se afastou de Léo e gesticulou para que o guarda a seguisse. O policial se aproximou para ouvir a moça:

– Pode prender esse sujeito.

– Ora, você não deixou o rapaz completar a frase e nem fazer o teste… Por qual artigo você quer que eu o prenda?

– Incoerência!

– Mas isso não dá cadeia, moça!

– Pois deveria.

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  • 4
  1. Ariana disse:

    O comportamento coerente dependeria das condições que cercam as pessoas?

    11/novembro/2014 ás 19:41
  2. Mércia Sander disse:

    Parabéns, Flávio. Há, na sua forma de escrever, algo que me encanta: a observação do comportamento humano. A narrativa nos faz construir o perfil do personagem, querer saber o que vai acontecer, de forma tal que não se consegue parar de ler. É preciso chegar ao final. Muito bom.
    Para mim, coerência pressupõe equilíbrio. A incoerência do personagem está exatamente no seu jeito nervoso de enxergar a vida e as pessoas, ou seja, tem reclames para tudo e todos. As condições que nos cercam só nos fazem exercitar o que já somos e o desafio é estar bem, oferecer amenidade sob qualquer condição. Sim, não é fácil de jeito nenhum.

    11/novembro/2014 ás 20:23
  3. Lourdinha Medeiros disse:

    Muito bom!

    12/novembro/2014 ás 10:06
  4. Aracy Miranda disse:

    Boa tarde, Flávio. Gostei muito do seu texto. Sabe, sou professora. E, durante os momentos em que encontro-me em reuniões com os responsáveis pelos alunos da escola onde sou gestora, sempre abordo um tema bastante relevante e que, acredito, muito colabora para a o ato de educar. Quero dizer, mais especificamente, que não basta falar, orientar, ou mesmo, condenar ações dos filhos; o principal é o exemplo. Uso sempre uma demonstração bem corriqueira e familiar, como quando alguém bate à porta e o pai/mãe diz: “Filho, diga que não estou em casa.” Pontuo que, sem refletir sobre nossas próprias ações, não as usamos nem mesmo em benefício próprio. Falar do outro, criticar e, infelizmente, repetir erros, acaba sendo algo banal, e acabamos por permanecer todos no mesmo patamar: gerando incoerências que vão das palavras aos atos, enquanto acreditamos que isso nos beneficia. Pena que o espaço é curto para outros comentários… Parabéns pela bela reflexão!

    15/janeiro/2015 ás 15:47

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