web analytics

HIPERSENSIBILIDADE RESPIRATÓRIA CAUSADA POR ASPERGILLUS 

Edição Vol. 5, N. 9, 30 de Março de 2018

Evily Fernandes da Silva, Wanderson Cosme da Silva

Centro Universitário Faculdades Metropolitanas Unidas 

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2018.03.30.004

Com o objetivo de demonstrar a contaminação por Aspergillus spp em ambientes domiciliares e sua relação com a hipersensibilidade respiratória, foram coletadas 30 amostras em ambientes diferentes, sendo 15 amostras de cortina e 15 amostras de tapete, em pares, um tapete e uma cortina para cada ambiente. A escolha desses dois materiais foi baseada no fato de serem locais de grande possibilidade de proliferação fúngica. Os resultados do experimento mostraram que 80% dos ambientes apresentavam presença de Aspergillus spp. Das 15 cortinas, 40% foram positivas, dos 15 tapetes, 66,67% foram positivos para Aspergillus spp. Sugere-se, com este estudo, que indivíduos com hipersensibilidade, indivíduos imunocomprometidos ou com patologias pulmonares pré-existentes, retirem de suas residências, os tapetes, cortinas e demais objetos onde os fungos possam se instalar, com ênfase aos tapetes, que apresentaram maior frequência de contaminação. Ao se absterem desses objetos, possivelmente melhorarão a qualidade respiratória.

INTRODUÇÃO

A população das grandes cidades tem ficado cada vez mais tempo dentro de ambientes fechados. Essa mudança no estilo de vida das pessoas tem trazido efeitos sobre a saúde, visto que, paralelamente, cresce o número de pessoas que se queixam de sintomas como cefaleia, letargia, congestão, prurido nasal, coriza, lacrimejamento, prurido ocular e sensação de opressão torácica. Esses sintomas, em sua grande maioria, estão relacionados à exposição aos micro-organismos dispersos no ar atmosférico, principalmente aos fungos. Essa exposição pode levar a quadros de sensibilização exacerbada após o contato inicial com Cladosporium, Penicillium e Aspergillus, por exemplo (Figura 1) (1).

respiracao-1 

Figura 1: Fungo Aspergillus com suas hifas em crescimento.

Os fungos precisam de água para seu desenvolvimento, contudo, são micro-organismos pouco exigentes em relação à água. Apesar de a umidade do ambiente os favorecer, a atividade de água (Aw) mínima em geral é de 0,80, ou seja, uma baixa umidade ainda é propícia para o seu desenvolvimento (2). 

Estudos realizados por “Norberg NA, et al” no Estado do Rio de Janeiro apontaram contaminação fúngica por Aspergillus em 11 das 12 placas de Petri expostas ao fluxo de aparelhos de ar-condicionado instalados em residências do município de Belford Roxo, equivalendo a 91,7% das amostras, sendo também apresentado como um dos gêneros mais preocupantes(3). A exposição a patógenos diretos podem sensibilizar e induzir os indivíduos a processos alérgicos, entretanto em indivíduos imunocomprometidos, a exposição ao Aspergillus pode ser devastadora, pois esse fungo pode causar pneumopatias graves de difícil tratamento (3,4).    

As crianças são as mais atingidas por problemas respiratórios e alérgicos. Além de passarem muito tempo dentro do domicílio e em contato com substâncias alergizantes, as mudanças climáticas podem favorecer o crescimento de fungos pela umidade excessiva (5). A baixa exposição aos micro-organismos também é um fator desencadeante dessa deficiência na imunidade. Segundo a Hipótese Higiene (HH), a exposição precoce a micro-organismos, com ou sem infecção, parece conferir proteção ao posterior desenvolvimento de doenças alérgicas (6). 

Em um estudo realizado por “Bezerra GFB, et al” em São Luiz, Maranhão, foi quantificado, no soro de 98 crianças com asma e/ou rinite alérgica, os níveis de IgE total e IgE específica para Aspergillus spp e Penicillium spp, onde 73 (74,5%) crianças apresentaram níveis detectáveis de IgE anti-Aspergillus spp, ou seja, a maioria das crianças que possuíam alergias do trato respiratório apresentou hipersensibilidade ao Aspergillus spp (7).

 

respiracao-2

Figura 2: Imagem de pulmão com hipersensibilidade respiratória ao fungo Aspergilluls spp. Setas amarelas indicam o local da infecção pelo fungo.

O Aspergillus

O fungo do gênero Aspergillus é um fungo filamentoso de maior relevância quanto à contaminação do ar em recintos fechados (Figura 1) (8,9). Este gênero na forma anamorfa (assexuada) pertence à divisão Eucomycota, subdivisão Deuteromicotina, classe Hyphomycetes, ordem Moniliales, família Moniliaceae (10).Há aproximadamente 900 espécies de Aspergillus. O Aspergillus fumigatus é a espécie oportunista de maior destaque do gênero, responsável pelo maior número de casos clínicos nos hospedeiros, causando doenças pulmonares e alergias do trato respiratório (8,11).

Este gênero caracteriza-se por colônias filamentosas de diferentes características, com hifas hialinas de aproximadamente 4mm de diâmetro, septadas e ramificadas em ângulo agudo, com conidióforo, que em suas extremidades dá origem aos conídios. Sua estrutura é formada por célula-pé, conidióforo, vesícula, métula e/ou fiálide responsáveis pela reprodução assexuada do fungo (10).

PATOGENIA

O Aspergillus é um dos principais causadores de doenças respiratórias na espécie de entrada. Os seios paranasais e vias aéreas inferiores são locais de colonização para o Aspergillus spp (12,13). É responsável por reações alérgicas, como rinoconjuntivite, sinusite fúngica, asma, pneumonite de hipersensibilidade e quadros infecciosos mais invasivos, tais como aspergilose broncopulmonar alérgica (ABPA) e o aspergiloma (12,14) (Figura 2). A gravidade da infecção depende mais dos fatores do hospedeiro do que da virulência do Aspergillus (13).

RESULTADOS 

Dos 15 ambientes onde foram coletadas as amostras, 12 (80%) foram positivos para Aspergillus spp. Nas culturas das cortinas, apenas 6 (40%) foram positivas para esse fungo.  Em relação às culturas de tapetes, 10 (66,7%) amostras foram positivas para Aspergillus spp. 

O QUE ISSO REPRESENTA?

Pode-se observar que os tapetes apresentaram contaminação mais frequente às cortinas, o que gera um questionamento. Possivelmente, os fungos encontram nos tapetes locais com boas condições de sobrevivência e proliferação, podendo ser devido ao material ser mais espesso e aderente, onde os fungos instalam seus micélios com maior facilidade. A presença de detritos orgânicos aderidos a ele também pode ser fonte de nutrição para os fungos, tornando o ambiente favorável para a multiplicação.

Nos estudos de “Norberg NA, et al, 91,7% das amostras apresentaram Aspergillus(6). Já neste presente estudo, foram obtidos resultados positivos para Aspergillus spp em 80% ambientes residenciais coletados, sendo eles representados por tapete, cortina ou tapete e cortina. A diferença percentual ocorre devido ao fato de que o ar-condicionado filtra todo o ar do ambiente, sendo maior a probabilidade de encontrar o fungo pesquisado. No entanto, ambos os objetos foram eficazes ao representar o fungo no ambiente.

Os estudos realizados por “Bezerra, GFB et al” em São Luiz, Maranhão apontaram hipersensibilidade respiratória à Aspergillus spp em 74,5% das crianças pesquisadas (9). Apesar de o atual estudo ter demonstrado grande frequência na contaminação fúngica por Aspergillus spp nos ambientes pesquisados, não foi realizado pesquisa de IgE total, nem IgE específica para Aspergillus spp nos indivíduos residentes destes ambientes.

Ao ter o conhecimento desta poluição intrínseca, pode-se pensar que a limpeza desses locais e objetos poderia repercutir na ausência ou diminuição da quantidade do fungo. Entretanto, foi reportado pelos donos dos objetos de resultados positivos que alguns deles haviam sido recentemente lavados. 

CONCLUSÃO

De acordo com os estudos, há algumas classes de pessoas que devem evitar a exposição aos fungos dentro de suas casas. Os imunocomprometidos, os indivíduos que já possuem alguma patologia do sistema respiratório, indivíduos atópicos, ou seja, que apresentam tendências genéticas hereditárias à hipersensibilidade, ou pessoas que apresentem manifestações alérgicas com alguma frequência, devem evitar a exposição a esses micro-organismos. A recomendação é que essas pessoas se abstenham desses objetos, principalmente tapetes. Os ares-condicionados e os climatizadores devem passar por manutenção e limpeza periódicas. Também é indicado que os pais permitam que as crianças, desde cedo, tenham equilíbrio entre proteção e exposição, para que através da exposição, dentro do bom senso, a imunidade seja adquirida e fortalecida. 

Referências 

  1. Graudenz GS, Dantas E. Poluição dos ambientes interiores: doenças e sintomas relacionados às edificações. Rev Brasileira de Medicina. 2007; 2(1):23-31.
  2. Gombertz OF, Gambale W, Corrêa B, Paula CR. Fisiologia dos Fungos. In: Trabulsi LR, Alterthum F. Microbiologia. 6° ed. Atheneu; 2015, p. 557-558.
  3. Norberg AN, Santa Helena AA, Oliveira JTM, Dutra VG, Ribeiro PC, Costa TSBS. Microbiota fúngica de condicionadores de ar no município de Belford Roxo, Rio de Janeiro, Brasil. Anais do Seminário Científico da FACIG. 2016; 1(2).  
  4. Van Strien RT, Gehring U, Belanger K, Triche E, Gent J, Bracken MB, et al. The influence of air conditioning, humidity, temperature and other household characteristics on mite allergen concentrations in the northeastern United States. Allergy. 2004; 59(6):645-52.
  5. Saldanha CT, Silva AMC, Botelho C. Variações climáticas e uso de serviços de saúde em crianças asmáticas menores de cinco anos de idade: um estudo ecológico. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2005; 31(6):492-498.
  6. Vasconcelos ACLF, Rosa GMA, Massa PO, Pinto JHP. Prevalência de fatores associados a doenças alérgicas em crianças e adolescentes com relação à Hipótese da Higiene. Rev. Bras. De Alergia e Imunopatologia. 2011; 34(2):49-54.
  7. Bezerra GFB, Zaror LC, Viana GMC. Avaliação da resposta Ig E para o entendimento do papel de fungos do ar na alergia respiratória em crianças. Brazilian Journal of Allergy and Immunology. 2014; 2(3):119-124.
  8. Oliveira LDC, Paluch LRB. Alergias Respiratórias: Uma revisão dos principais fungos anemófilos e fatores desencadeantes. Revista Baiana de Saúde Publica. 2015; 39(2):426-441.
  9. Amorim DS, Moreira LM, Amorim CDR, Santos SS, Oliveira JM, Nunes CP, et al.   Infecções por Aspergillus spp: aspectos gerais. Pulmão RJ. 2004; 13(2):111-118.
  10. Xavier MO, Madrid IM, Cleff MB, Cabana AL, Silva Filho RP, Meireles MCA. Contaminação do ar por Aspergillus em ambiente de reabilitação de animais marinhos. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science. 2008; 45(3):174-179.
  11. Poester VR, Klafke GB, Cabana AL, Adornes AC, Silva Filho RP, Xavier MO. Isolamento e identificação de fungos do gênero Aspergillus spp de água utilizada na reabilitação de Pinguins-de- Magalhães. Ciência Animal Brasileira. 2015; 16(4):567-573.
  12. Valle SOR, França AT. Aspergilose Broncopulmonar Alérgica: Panorama Atual. Rev. Hospital Universitário Pedro Ernesto. 2008; 7(2):69-71.
  13. Murray PR, Rosenthal KS, Michael AP. Micoses Sistêmicas devido a fungos Dimórficos. Microbiologia Médica. 6a ed. Mosby Elsevier; 2010. p.199-219.

14. Mims C, Playfair J, Roitt, Wakelin D, Williams R. Infecções do Trato Respiratório Inferior. Microbiologia Médica. 2a ed. Manole; 1999. p.199-219.

admin_cms

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*

Anuncie
Seja um parceiro do Nanocell News. Saiba como aqui.

Inscrição Newsletter

Deseja receber notícias de divulgação científica em seu e-mail?

Aqui você irá encontrar as últimas novidades da ciência com linguagem para o público leigo. É a divulgação científica para os brasileiros! O cadastro é gratuito!

Alô, Escolas!

Alô, Escolas! é um espaço destinado ao diálogo com as escolas, públicas e privadas, seus professores e alunos de todas as áreas (humanas, exatas ou ciências) do ensino médio e superior. A seção Desperte o cientista em você traz notícias, dicas de atividades e experimentos para uso em sala. Aqui você encontra também informações sobre a coleção de livros publicados pelo NANOCELL NEWS sobre ciências e saúde, e sobre o Programa Instituto Nanocell de Apoio à Educação.

Edições Anteriores

Curta a nossa página

css.php