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HERÓI SOB ENCOMENDA

HERÓI SOB ENCOMENDA

Flávio Carvalho

Edição Vol. 3, N. 7, 26 de Fevereiro 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.02.26.007

Fred atravessa a rua com a mochila nas costas. Olha para a esquerda, onde um grupo pouco amigável de rapazes se diverte com cigarros suspeitos e uma bola de basquete. Nunca estiveram por aqui, mas fazer o quê? Ele segue pela calçada, com um olho no bando e o outro em sua porta, a menos de um quarteirão dali. E o que aquele policial faz lá na esquina, retirando rosquinhas da caixa rosa? Será que abriram uma loja nova de doces por aqui?

Ele agora sobe as escadas enquanto busca retirar as chaves do bolso da mochila. Cumprimenta a senhora do andar de baixo. Será que ela precisa de alguma coisa? Normalmente ela não fica na janela, mas hoje deve estar preocupada com os marginais na rua. Fred passa pela porta do seu apartamento, joga sua mochila sobre o único móvel da sala e abre a geladeira, iluminando todo o recinto.

Do eletrodoméstico ele retira restos de pizza da noite anterior. Ué, havia pedido pizza? Bem, talvez tenha bebido um pouco a mais, vai saber, mas aproveita para cortar uma fatia com a tesoura e comer caminhando. Ele vai até o rádio e gira o botão. Essa casa tem rádio? Talvez nunca tenha sido ligado, mas o que importa é que o locutor narra a escapada de um serial killer da prisão da cidade.

Quem quer ouvir sobre fugas de assassinos, não é mesmo? Ele então muda de estação, onde um novo locutor está iniciando uma reportagem sobre a mesma fuga. Que lixo, melhor mudar de novo. Girando o sintonizador, outro repórter transmite direto da cadeia a chegada dos policiais. Na televisão, ligada em seguida, helicópteros lançam luz sobre o entorno da penitenciária, enquanto uma jovem narra do estúdio a busca pelo homicida.

É, a solução é lavar o rosto e acompanhar a caçada pela TV. Ao acender a luz do banheiro, notou que ela piscou por três vezes antes que o escuro retornasse. Ele retira o celular do bolso e acende a lanterna para poder lavar o rosto. Policial comendo rosquinhas… Infratores em potencial jogando bola de basquete um para o outro…

Um trovão interrompe seus devaneios. Quando se vira para a janela, ainda consegue ver o raio cortando o céu nebuloso. Mas raios não vêm antes dos trovões? E de onde veio essa chuva, se o céu estava limpo?

Ele vai até a janela e, após se debruçar para checar se os futuros presidiários já foram embora, observa as gotas caindo do ar condicionado do andar de cima sobre o seu próprio aparelho. Estranho, mas não tão curioso quanto o gato preto correndo pela calha do vizinho e o uivo não tão distante de algum canídeo. Esquisito até demais, será que alguém do bairro comprou um lobo de estimação ontem? Melhor voltar à pia.

Ele abaixa a cabeça e deixa que a água passe pelo seu rosto. Após um breve enxágue, ele se detém em frente ao espelho e, olhando dentro de seus olhos, finalmente tem a sua epifania: isso aqui não pode ser verdade! Não, de jeito nenhum, essa cena está exagerada demais, só pode ser um filme… Caramba! Deve ser de terror! Será que é de suspense? Tomara que seja uma comédia!

O ar condicionado ainda goteja, o canídeo qualquer ainda uiva e mais um trovão completa os efeitos sonoros, seguido do seu respectivo raio com delay. Deve ser o HD ou a TV digital. Em seguida vem um curto silêncio, quebrado pelo toque do seu celular. Se isso é mesmo um filme de terror, só pode ser a namorada.

Um toque. Ele olha para o telefone, sabendo que não tem namorada. Segundo toque. Ele olha para o aparelho, já antecipando quem seria vítima na sua história, a donzela em perigo iminente! No terceiro toque ele pega o celular e vê o nome no visor. É nesse momento que ele toma consciência de que ele é de fato o herói dessa história. Afinal, quem mais além de um clássico mocinho de filmes de ação se sentiria compelido a atender uma chamada da sua ex-mulher num cenário desses?

Ela já está chorando. Não há tempo para “Como você está?” ou “o Zeus está sentindo a sua falta.”. Sim, pode parar de chorar. Não, já estou indo pra aí! Se acalma, já entendi tudo! E assim ele sai correndo do banheiro em direção às escadas, equilibrando o celular nos ombros enquanto pega sua jaqueta de couro da única cadeira da sala e a veste sobre sua camiseta branca.

Ela vai ligar para a polícia, com certeza. Nem vale a pena tentar avisar que a ligação vai ser cortada no exato momento em que ela estiver terminando de dar o endereço. Não vai adiantar, ela vai avançar a trama. Se ela não lhe dava ouvidos quando estavam juntos, imagine agora…

Chegando à porta do prédio, um táxi amarelo vira a esquina e ele faz um sinal com a mão livre. Siga aquele car… Ou melhor, cruzamento da Albert Einstein com a Setenta e Dois! O motorista, vindo de qualquer outro país que não este, apenas assente com a cabeça e começa a se deslocar para a casa da moça indefesa e provavelmente seminua.

Após alguns quarteirões em ritmo de preguiça, o taxista vira à direita para a avenida principal, apenas para se deparar com um engarrafamento. Ah, lá está o problema: a dois quarteirões houve um choque entre um caminhão de bebidas e dois carros. Enquanto os três motoristas discutem, o caminhão fica atravessado pelas quatro pistas da avenida. Pelo menos nada explodiu.

Talvez o estrangeiro possa forçar a barra para sair daqui, quem sabe com algum incentivo… Isso sempre funciona, e não vai ser agora que vai ser diferente. O taxista, agora que Fred fala seu idioma balançando as notas de dinheiro em frente ao seu rosto e agitando os braços em direção ao destino, sorri e vira vigorosamente o volante para a esquerda, subindo na calçada. Figurantes, ou melhor, cidadãos comuns que saíam de uma sessão de cinema naquele momento, tentam se desviar como podem do carro que avança sobre eles. Felizmente o pipoqueiro, apesar da idade avançada, consegue se desviar do veículo. Seu carrinho, no entanto, não teve a mesma sorte e foi arremessado para o alto.

A agressividade do taxista acaba chamando a atenção de um carro da polícia, que passa a persegui-los. O motorista continua sua direção alucinante, fazendo diversas vítimas entre bancos de praça, telefones públicos e pobres cones de trânsito. Ele segue bem rápido, mas seu passageiro continua sentado com os pés esticados sobre o banco e as mãos entrelaçadas atrás da cabeça. Vai dar tempo, com certeza. O serial killer ainda vai falar sobre seus motivos ou seus métodos de assassinato durante o período que for preciso.

Chegando à casa da ex-mulher, o taxista estaciona precisamente na porta. Melhor vaga impossível. O homem da lei estaciona segundos depois, o tempo necessário para que Fred, enquanto abre a porta do carro, retire da carteira o dinheiro exato da corrida e chegue à janela do carro do policial antes que este desça da viatura. Não, não tem ninguém louco aqui, seu guarda. Basta ligar o rádio.

O oficial aperta o botão e os dois ouvem a chamada da central indicando a rua em que estão. A operadora fala sobre possível assassino, violação de domicílio e mais alguns códigos. Copiou, seu guarda? Então é hora de agir!

Primeiro chute na porta: nada. No segundo, a porta começa a balançar e Fred já sabe o que vai acontecer no terceiro. Mesmo com a flagrante falta de aptidão física do homem da lei, os dois conseguem forçar a entrada e olham para dentro da sala. Apesar das luzes apagadas, um brilho azul ilumina o recinto, permitindo que eles enxerguem o telefone preso apenas pelo fio, pendulando num movimento que possivelmente será eterno. Rastros indicam o caminho do banheiro e o herói aponta a direção em que devem seguir.

Enquanto se esgueiram pelo corredor, Fred pede para seu companheiro parar um pouco. Já sorrindo, ele pede para ver a carteira do policial. Sim, o pedido é estranho mesmo, mas é preciso avaliar o perigo que eles correm. Depois de ver as fotos da esposa e das duas filhas na carteira e ouvir que o oficial está na sua última semana antes da aposentadoria, nosso herói decide seguir desacompanhado e expulsa o outro da cena: o guarda já preenche requisitos suficientes para acabar a história em um caixão.

O herói então continua sozinho em direção ao banheiro, mas o vilão e sua vítima não estão lá. Ele segue em passos lentos os rastros de água e de papel higiênico até a cozinha, apoiando-se na parede. A esta altura o assassino deve estar quase terminando a sua explicação sobre como a iminente morte da moça é culpa do cruel mundo em que vivem. Claro, o algoz não tem culpa de nada.

Fred chega até a cozinha e fica parado antes da porta. De lá ele pode ouvir o palestrante serial concluir seu seminário sobre as dores da sociedade moderna e ver que ele está com uma marreta nas mãos. Sua ex-mulher faz contato visual com ele, o que lhe causa sensações de diversas naturezas. Valeu a pena a viagem até aqui? Ninguém sabe, mas quem se preocupa com as reflexões sobre a natureza das atitudes humanas? Vamos começar a luta logo!

Depois de algum tempo sem entender o que a mocinha apontava, ele finalmente vê uma faca sobre a mesa da cozinha. Nesse momento, todavia, o assassino percebe a presença do que deve ser um cavaleiro de armadura e se vira em direção à porta. O mocinho já se encontra com a faca na mão, e os dois passam longos segundos trocando olhares por trás de suas armas.

Ela não vai fazer nada, é claro. Nem precisa esperar ajuda. E Fred, colocado no cargo por indicação e não por aprovação em concurso, não é capaz de conter o assassino treinado. Após algumas tentativas de esfaquear o vilão, ele sucumbe a uma cabeçada que corta o seu supercílio. Ufa, ainda bem que o serial killer não usou a marreta que estava em suas mãos. O mocinho então começa a gargalhar, o que provoca olhares curiosos dos outros ocupantes da cozinha.

Jogado ao chão sob o pé do assassino e observando sua faca caída a meros centímetros do seu alcance, Fred continua rindo. A história não está completa, não há motivo para que ele se preocupe. O matador pergunta qual é a graça, mas ele continua com suas risadas. Alguns segundos depois, ele aponta para algo atrás do bandido. Ele não vai olhar, é claro, pelo menos até que a hora seja a adequada.

Como um bom mocinho, Fred sabe como terminam as lutas em histórias como a dele. Enquanto o serial killer pisa em seu peito e se recusa a olhar para trás, Zeus “ex-machina” invade a casa pela janela e voa sobre o vilão, que bate com a cabeça exatamente na quina do balcão da cozinha e cai desacordado.

Nesse momento, os eficazes policiais adentram a casa e efetuam a prisão do assassino. Ainda bem que eles chegaram justo agora. Zeus ainda se diverte lambendo suas próprias… pernas e Fred passa pela porta com sua mocinha presa ao seu braço. O recinto já está tomado por legistas, peritos, chefes da polícia de dois estados e pelo prefeito da cidade, que corre para apertar a mão do salvador do dia.

Screen Shot 2016-02-27 at 10.33.48 AM

Imagem: http://www.girlschase.com/content/save-girl-creepy-guy-and-really-win-her-heart

Alguns minutos depois, Fred está sentado na entrada da ambulância enquanto uma enfermeira termina de enfaixar sua cabeça. Sua donzela se aproxima, olhando para seus próprios pés enquanto caminha lentamente até seu herói. Agora sim há tempo para “obrigados”, “de nadas”, “é bom vê-lo tão bem assim” e “você ainda dá pro Zeus aquela marca de ração que patrocinou essa produção?”. Ela então inclina seu rosto para o beijo, já vislumbrando os dois voltando de mãos dadas para casa ao amanhecer, enquanto Zeus faz alguma gracinha na frente deles e eles dão gargalhadas felizes para sempre.

Fred, no entanto, coloca o dedo indicador entre os lábios dos dois, desce da ambulância e recoloca sua jaqueta sobre a camiseta, agora manchada de sangue. Ele segue caminhando sozinho em direção à noite enquanto os policiais desarmam o circo e seu par romântico o segue com o olhar. É, ser herói parece ser bem mais divertido do que essa oferta de ser feliz para sempre. Melhor garantir a sequência.

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  1. Ariana disse:

    Boa escolha, Fred!

    03/março/2016 ás 22:31

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