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Vanessa G. Pasqualotto Severino1

¹ Instituto de Química, Universidade Federal de Goiás (UFG)

Edição Vol. 7, N. 6, 12 de Outubro de 2020

Fonte: https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/2020/summary/

Historicamente, a Ciência se revela de forma pouco feminina, ainda que esta tenha sido construída por muitas cientistas mulheres, as quais tiveram papéis importantes, mas pouco conhecidos até hoje pela sociedade.

Na busca pela compreensão dessa dinâmica, poderíamos a priori pensar que as mulheres não puderam, ou mesmo não quiseram, participar do processo de construção da Ciência. Contudo, observando os bastidores desse cenário, constatamos que diversas mulheres brilhantes contribuíram efetivamente para que muitos fatos fossem conhecidos e reconhecidos na História.

Assim, é possível considerar que houve um processo de distanciamento das mulheres no que tange ao seu reconhecimento como cientistas, possivelmente motivado pela crença de uma sociedade machista que pregava (e ouso dizer que ainda prega) a existência de atividades femininas, sendo a Ciência, portanto, classificada em ação para homens.

É fácil perceber essa crença arraigada em nossa população quando, por exemplo, vamos a uma loja de brinquedos e a(o) atendente nos pergunta se desejamos algo para menino ou menina. De modo mais amplo, e ainda mais triste, um estudo publicado pela Science1 revelou que as noções de estereótipos de gênero começam a surgir na faixa etária de 5 a 7 anos, em que se observa que muitas meninas já acreditam que os meninos sejam mais inteligentes que elas. Realidade triste, se imaginarmos que tais meninas já se autobloqueiam para seguirem na carreira científica, e ao longo das suas vidas vão se deparar com outros tipos de obstáculos e situações, como a falta de incentivo da família, a difícil escolha entre a dedicação ao lar, maternidade e carreira, um ambiente de trabalho machista, etc. Portanto, as meninas/mulheres não somente precisam encontrar forças para superar os constrangimentos encontrados ao longo das suas vidas, mas também reinventar constantemente a sua atuação profissional. E isso pode gerar um desgaste físico e psicológico sem dimensões!

Sobre o papel feminino relevante na Ciência, trago aqui alguns exemplos. No século IV, Hipátia de Alexandria foi a primeira mulher documentada como matemática2, ainda que tenha atuado em diversas outras áreas do conhecimento como a astronomia, filosofia, religião, poesia e artes. Foi uma pessoa incrível, que professava com muita ênfase ideias inovadoras acerca da filosofia, o que, ao que tudo indica, teria lhe custado a própria vida com um final trágico.

Tempos depois, nos séculos XVIII e XIX, mulheres brilhantes atuaram ativamente no cenário da Ciência, como:

  • Émilie du Châtelet (Madame du Châtelet), que apesar de não poder frequentar a universidade no seu tempo, já que aquele ambiente era considerado como masculino, e de ser reduzida por muitas referências a um affaire de Voltaire, ansiava ser reconhecida como a primeira do seu tempo a se dedicar às Ciências3;
  • Maria Gaetana Agnesi, uma teóloga, benfeitora, filósofa, matemática e linguista, dominando sete línguas, mas reconhecida naquela ocasião por apenas alguns de seus feitos, como o primeiro livro que tratou, simultaneamente, do cálculo diferencial e integral4;
  • Mary Somerville, autodidata e impedida de receber uma educação científica compatível com sua inteligência, mas que, ainda assim elaborou diversos livros contemplando variados campos da ciência, em que explicava de forma simples e compreensível as partes complexas da física, da química e da astronomia. Por seus trabalhos, recebeu na época o apelido de “rainha da ciência”5, mas nos dias de hoje é pouco lembrada. Foi laureada com a medalha de Patron da Royal Geographical Society, com um busto produzido pelo escultor Francis Chantrey e como membro da Sociedade Real Inglesa de Ciências. Contudo, jamais pôde conhecer o seu busto pelo impedimento de adentrar ao prédio dessa instituição5.
  • Marie Sklodowska Curie, mais conhecida na sociedade, foi a primeira mulher até a atualidade a receber o prêmio Nobel duas vezes, um em Física (1903) ao demonstrar a existência da radioatividade natural, e o outro em Química (1910) pela descoberta de dois novos elementos químicos, sendo um grande exemplo de promoção de descobertas tão ou mais importantes que aquelas advindas de cientistas homens. Contudo, sempre teve de lidar com desafios impostos pela sociedade7.

Em todos os casos apresentados, nota-se barreiras expressivas que tais cientistas tentaram romper, em busca de seus ideais, vivendo em uma sociedade machista e conservadora.

O tempo passou e hoje nos perguntamos: O que mudou ao longo dos anos? Estamos hoje em uma situação melhor, de menos desigualdade de gênero?

Infelizmente, o cenário atual não aponta grandes mudanças, ainda que nós mulheres tenhamos conseguido superar alguns entraves. Mas, a luta é sempre árdua e muitas vezes desgastante! Gastamos muito tempo lutando por paridade de gênero, e esse tempo poderia estar sendo aplicado no desenvolvimento científico.

Uma análise de atuação dos gêneros nas atuais áreas de conhecimento enfatiza a desigualdade. Campos tradicionalmente tidos como masculinos ainda apresentam diferenças no perfil de distribuição, como por exemplo, nas Ciências Agrícolas em que tem-se 74% de homens e 36% de mulheres; nas Ciências Exatas e da Terra (englobando física, química e matemática) cuja participação feminina é de 32%; e, nas engenharias, em que tem-se 39% de mulheres atuantes8.

Portanto, atitudes que ampliem a participação feminina no meio científico devem ser promovidas, pois podem gerar ganhos substantivos para o presente e o futuro.

Nesse sentido, uma ação positiva é o incentivo à cientistas por meio do reconhecimento de seu mérito na forma de premiações e homenagens. E nesse contexto, tenho uma satisfação profunda em mencionar aqui o Prêmio Nobel de Química 2020, concedido à Emmanuelle Charpentier, uma francesa de 51 anos, que atualmente é diretora do Instituto Max Planck de Biologia de Infecções em Berlim, e a Jennifer Doudna, americana de 56 anos, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Ambas, desenvolveram o CRISPR, uma ferramenta de edição de material genético para o estudo de doenças genéticas, com expectativas para a cura de doenças importantes, como o Alzheimer e o câncer. É a primeira vez que duas mulheres, conjuntamente, ganham o Nobel, e isso representa uma alegria e um avanço enormes, pois não foram muitas vezes na História que mulheres puderem representar o gênero em premiações de grande magnitude como essa.

Precedente à Charpentier e Doudna, somente cinco mulheres já ganharam o Nobel em Química, a saber: Marie Curie em 1911, Irène Joliot-Curie, filha de Marie Curie, em 1935, Dorothy Crowfoot Hodgkin em 1964, Ada E. Yonath em 2009, e Frances H. Arnold em 2018.

Talvez não seja de conhecimento coletivo, mas para concorrer ao Prêmio Nobel, que congrega um conjunto de seis prêmios internacionais anuais concedidos em várias categorias por entidades suecas e norueguesas, há o envio de convites, mundialmente, para instituições e pessoas selecionadas, as quais indicam para o prêmio o que lhes vem à mente. E o que se nota, ao longo dos anos, é a indicação de nomes masculinos. Todavia e finalmente, ainda que vagarosamente, nomes de mulheres têm surgido, o que, a meu ver, já deveria estar acontecendo a muito tempo.

Portanto, receber tal reconhecimento representa uma grande conquista pessoal para cada uma dessas mulheres brilhantes, mas também é símbolo de estímulo a muitas outras cientistas que desenvolveram e desenvolvem trabalhos excepcionais ao redor do mundo.

Felizmente, estamos em tempos diferentes daqueles passados, em que existe uma geração de mulheres que pode e faz pesquisa nas mesmas condições que os homens. Eu, enquanto pesquisadora, acredito que nós temos conseguido mostrar nossa capacidade e nosso desejo de promover estudos revolucionários que tragam benefícios à sociedade. Estamos vencendo dia a dia a batalha de revelar ao mundo ao que viemos!

Para finalizar, deixo um pensamento9 de Bertha Lutz, a bióloga, feminista e líder do movimento pelo direito das mulheres ao voto no Brasil:

“O feminismo não procura, é claro, negar as diferenças psicológicas e fisiológicas entre o homem e a mulher e reconhece a influência sobre as que, sendo verdadeiramente irredutíveis, devam ter as relações individuais e mesmo sociais. Não acredita, porém, que elas indiquem superioridade, de um lado, inferioridade, de outro, e assim entende que apenas devem ser consideradas nos casos em que de fato tenham importância, podendo ser deixadas de lado em outros casos nos quais seu papel é insignificante, ou mesmo nulo”.

REFERÊNCIAS:

1Bian, L.; Leslie, S.-J.; Cimpian, A. Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests. Science, v. 355, n. 6323, 389-391, 2017.

2Escolástico, S. Ecclesiastical History. [S. l.: s.n.]. Consultado em 16 de junho de 2013. Arquivado do original em 18 de abril de 2009.

3Badinter, E. Émilie, Émilie: a ambição feminina no século XVIII. São Paulo: Paz e Terra; Duna Dueto, 2003.

4Disponível em: https://www.thoughtco.com/maria-agnesi-biography-3530357. Acesso em 09.10.2020.

5Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Mary-Somerville. Acesso em 09.10.2020.

6Casagrande, L. S.; Schwartz, J.; Carvalho, M. G.; Leszczynski, S. A. Mulher e ciência: uma relação possível? Cadernos de Gênero e Tecnologia, v. 1, n. 4, 31-45, 2005.

7Dias, D. L. Marie Curie. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/quimica/maria-curie-descoberta-radioatividade.htm. Acesso em 09.10.2020.

8Bolzani, V. S. Mulheres na ciência: por que ainda somos tão poucas? Ciência e Cultura, vol. 69, n. 4, 56-59, 2017.

9Lôbo, Y. Bertha Lutz. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.

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