Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

FALTA DE ENERGIA

FALTA DE ENERGIA

Flávio Carvalho

Edição Vol. 4, N. 5, 30 de Janeiro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.01.30.007

– Vovô, põe “Patrulha Canina” pra gente?

– Agora não dá, Fabinho… – disse o avô, colocando o neto no colo. – A gente não tem energia agora!

– Então liga o computador? A gente pode jogar?

– Também não tem jeito, Alan! Também precisa de energia!

– E quando é que a luz volta, vovô? Liga de novo!

– Não tem como, gente! – respondeu, colocando Alan sobre a sua outra perna. – O que dá pra fazer é esperar voltar… E enquanto essa chuva não diminuir, acho que não vai ter muito jeito…

Os três estavam sentados sob o telhado que cobria parte do quintal da casa do avô, enquanto o pai dos meninos estava na parte de dentro. Antônio continuou segurando os netos até que Júlio saiu da cozinha, foi até os três, entregou os copos de leite aos garotos e sentou-se ao lado de seu pai. Os quatro ficaram alguns segundos em silêncio, cada um deles distraído com um detalhe do quintal sob a chuva.

– Que “chuvada”, hein, pai? – disse Júlio.

– É… Uma “chuvada” danada…

– E cadê a Rosa? Ela não sai do quarto mais não?

– Ih… Acho que a última vez que ela veio até a cozinha foi na quarta-feira… Não, mentira! Foi na terça…

– Só estudo ou só trabalho?

– Só os dois, eu acho… Mas deixa ela, pelo menos tá tentando alguma coisa…

– Deixo nada! Meninos, vão lá dentro chamar a tia Rosa!

Os dois correram atendendo ao comando do pai. Depois de alguns minutos, retornaram para o quintal:

– Ela falou que vem mais tarde! – disse Alan.

– Não quer molhar o cabelo! – completou Fabinho.

Júlio levantou-se e foi até o quarto da irmã. Alguns minutos depois voltou correndo para o quintal, carregando duas pastas e uma mochila. Os três que estavam do lado de fora se assustaram quanto ele atravessou o gramado molhado e colocou os materiais sobre a máquina de lavar.

– Júlio, seu delinquente! – era Rosa, chegando correndo ao quintal. – Traz isso aqui de volta agora!

– Vem buscar, querida!

Antônio e os meninos já estavam rindo da moça, que ficou de braços cruzados ao lado deles. Enquanto isso, Júlio mexia na parte de trás da máquina:

Screen-Shot-2017-02-01-at-1.24.46-PM

– Gente, olha só! – e mostrou uma bola para os meninos. – Vocês sabiam que o avô de vocês tinha isso aqui?

Os dois garotos olharam ao mesmo tempo para o avô, que piscou para os netos antes de responder:

– É mesmo, Júlio! Nem me lembrava disso daí…

– Aham… Sabia não, né? Mas e então… Vamos jogar, gente?

Os meninos se levantaram e foram correndo até onde o pai estava. Rosa interferiu:

– Ah nem, Júlio! Vai molhar os meninos, depois vão ficar doentes…

– Água evapora, Rosileida! Água evapora! E aqui tem chuveiro também!

Ele então chutou a bola contra o muro e escorregou com os joelhos na grama. Os meninos vieram atrás imitando o pai e, depois de acompanhar alguns poucos chutes, o avô não resistiu e se juntou aos três.

Eles se revezaram entre atacantes e goleiros, até que Júlio interrompeu a brincadeira:

– Crianças, vocês sabem que a tia Rosa é a goleira da família, né?

A moça, que observava os quatro moleques se divertindo, fez que não com a cabeça. Júlio continuou se dirigindo aos gêmeos:

– É sim! E eu duvido que algum de vocês faça um gol nela! – e caminhou estendendo a mão para a irmã.

– Eu preciso trabalhar, Júlio…

– Ué, mas seu computador é a Diesel?

– Claro que não, seu animal! Mas eu posso pelo menos ir organizando as coisas dentro…

– Ah, deixa de ser chata! Os gêmeos estão doidos pra brincar, vamos logo!

– Não, Júlio… Eu não quero… Vai molhar meu cabelo…

– Ah, o cabelo, Rosilaine? – e se virou para os outros. – Gente! Ela não pode molhar o cabelo!

– Minha filha, aproveita! – disse Antônio, se aproximando da moça. – Deixa chover, deixa molhar… – colocando o braço ao redor da filha.

– Mas depois eu não vou poder arrumar, vai saber que horas vai ter luz de novo… E eu também tenho que terminar de cotar o…

Júlio, aproveitando a distração de Rosa com o pai, puxou a moça pelo braço e a colocou no meio do quintal. Segundos depois os meninos vieram correndo e cada um abraçou uma de suas pernas:

– Vai, tia! Papai é ruim demais no gol!

– Anda, anda!

– Ele é ruim demais porque só queria saber de chutar e de fazer gol! Ele que me fazia ficar de goleira!

– Fazia nada, Rosicléia! Você que sempre gostou de ficar rolando na grama molhada! E agora vem ficar de frescura por causa de cabelo? Vê se pode, pai!

– Ah, Júlio… Isso aí desde os quinze gosta mesmo é de computador… Acho que não dá conta de jogar mais não…

– Gente, vocês são chatos demais! – gritou a agora ensopada Rosa. – Então tá! Eu duvido que algum de vocês quatro faça gol aqui em mim!

Ela então foi para a posição de goleira. Os meninos foram chutando alternadamente contra a moça, que defendia chute após chute. Alan tentou tomar mais distância, Fabinho arriscou chutar mais de perto, mas nada que pudesse vencer a tia Rosa.

– Muda nada, né? – disse Júlio ao ouvido do pai. – Não alivia nem pros sobrinhos…

– Muda nada… – respondeu Antônio, piscando para o filho. – Muda nada…

E os dois saíram correndo para próximo dos outros três. Júlio pediu a bola a um dos garotos e passou-a para seu pai, que foi carregando até bem próximo da filha. Ele fingiu que ia chutar e rolou para Alan, que chutou para o gol vazio. Longe de estar vencida, a moça ainda conseguiu deslizar na grama molhada e puxar a bola antes que ela tocasse o muro.

– Alan, Fabinho! Cheguem aqui! – gritou Júlio. Ele se assentou na grama e puxou os meninos para perto de si. Cochicharam por alguns segundos e se levantaram para a jogada secreta.

Júlio partiu com a bola e tocou na direita para o seu pai, enquanto os meninos correram para o lado esquerdo. Antônio se aproximou de Rosa novamente e, quando parecia pronto para chutar, ouviu o comando de Júlio:

– Agora, gente!

Os meninos então correram até a goleira e agarraram suas pernas até derrubá-la, deixando o caminho livre para o gol do avô. Ele saiu comemorando com a mão fechada no alto, enquanto Júlio deslizou até os meninos que já se viam vítimas de um feroz ataque de cócegas por parte da tia.

As luzes do quintal se acenderam. Todos olharam juntos para a luminária:

– Patrulha Canina! – gritaram juntos os gêmeos, enquanto se desvencilhavam da tia.

– Calma, gente! – gritou Júlio, que terminava de se levantar. – Todo mundo pro banho primeiro! – e correu atrás dos meninos.

– Ah, minhas cotações! – disse Rosa ao pai, enquanto tirava água dos cabelos. – Tava louca para poder terminar, só vou tomar um banho bem rápido! – e também entrou em casa.

Antônio aproveitou que ainda estava de pé e foi guardar a bola.

Print Friendly
  • FALTA DE ENERGIA
  • 2
  1. Ariana disse:

    Que delícia de conto, Flávio! Família êh, Família ah, Família…

    14/fevereiro/2017 ás 09:23
  2. Waldemar Brandão disse:

    Flávio!
    Parabéns pela bela história! Relatos assim, puros e singelos, só fazem vivificar o nosso cotidano.
    Grande abraço!
    Brandao

    20/fevereiro/2017 ás 11:01

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>