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ENTRE O DESEJO E AS ESCOLHAS

ENTRE O DESEJO E AS ESCOLHAS

Jorge Antônio Monteiro de Lima

Analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo e músicoMSC em antropologia social pela UFG

Vol. 1, N. 12, 3 de Junho de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.06.03.001

Um dos temas quando estudava psicanálise que mais me incomodavam era a da teoria do desejo, que foi hipervalorizada na fundamentação da psicanálise de Freud. Em seu tempo histórico, durante toda era industrial, mobilizado pelo positivismo em toda ciência, Freud deu excessivo valor à ideia de que o desejo é o centro do pensamento humano, concentrando na libido toda sua teoria.

Atualmente há um intenso processo que destitui as ideias de Freud. Primeiro, por que vivemos em um mercado de consumo que terceirizou o desejo. A moda, o mercado e a alienação evidenciam que o desejo do indivíduo é o que menos existe. Nosso entretenimento, o status social e o jogo de poder, o marketing, a publicidade, dizem mais a um indivíduo pós-moderno que sua própria vontade.

Ter o carro que é o último lançamento ou a novidade tecnológica pra mostrar aos conhecidos é apenas um pequeno exemplo de um movimento que destitui a vontade própria, foi o problema apontado por Adler na psicanálise. 

Houve, historicamente, a construção de um mito que alastrou-se na sociedade: o da liberdade. Fundado no período da era industrial, foi essa ideia que forjou o sentimento de identidade, de possibilidade de escolha, de direito de ir e vir, o que questiono. Não existe liberdade. Se existe cidadania, não há espaço para a liberdade. Pagamos impostos e mal temos o direito de protestar.

Temos obrigações com a comunidade, com a religião, com a família, com os vizinhos; vivemos em um mundo cheio de regras, deveres e poucos direitos. Vida em sociedade é limitadora. Ao mesmo tempo é encenado, no jogo social, o mito de liberdade, independência, ao estilo neoliberal norte-americano, contradição programada pelo mercado e seus discursos, ampliando a insatisfação coletiva, fazendo crescer a capacidade de comprar, gastar.

Como disse Pablo Neruda: “Você é livre pra fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”. Não é à toa que hoje em dia os relacionamentos interpessoais estão em crise. Há muita ilusão de liberdade e pouca tolerância a frustração, muita cobrança e pouca paciência. E isto tem minado os relacionamentos de amizade, profissionais, afetivos. Há muito egoísmo e narcisismo e pouca vontade de servir e de querer agradar. Venha a nós, mas ao vosso reino… nada!

Em consultório diariamente é possível observar o distanciamento das pessoas de sua própria essência. Para falar de desejo é imperioso o autoconhecimento, que se saiba o que realmente pertence ao indivíduo, e o que é imposto pelo jogo social. Existem milhares de pessoas que abafam seu próprio sonho, sua vontade, adequando-se às regras sociais, à vontade de amigos e familiares, negando, por vezes, aspectos positivos de sua identidade. Como exemplo, cito o caso de uma mulher que abandonou uma exímia carreira de pianista para se tornar uma concurseira, por pressão de sua família. Uma pessoa amargurada e frustrada, mas adequada a um meio social doentio. Liberdade?

Quantas escolhas e imposições não ocorrem em nosso cotidiano? Atualmente, há muita falácia, sobretudo quando ocorre o julgamento: se deu certo foi desejo, se deu errado, foi escolha. Quantas vezes não ouvi comentários infelizes do tipo: ficou doente por escolha própria, se foi abandonado foi por que quis… Sim, há muito amadorismo e perversão quando o tema do desejo e das escolhas aparece, refletindo superficialidade no uso de teorias que não se sustentam em nosso mercado de consumo.

Por sua vez, a individuação proposta por Jung também foi afetada, especialmente quando se coloca como centro do processo o próprio indivíduo. O mergulho na fé e a dinâmica existente no universo sempre foi independente da vontade, do querer. Ao contrário, é sincronicamente aleatória, obedecendo a princípios acausais. Porém, falta humildade ao ser humano pós-moderno para compreender e aceitar que seu destino está muito além de suas escolhas.

O NANOCELL NEWS esclarece que as opiniões e conteúdos dos artigos aqui publicados são de exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.

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