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ENTRE MACACOS E BANANAS

ENTRE MACACOS E BANANAS

Fernanda M. P. Tonelli

Edição Vol. 1, N. 17, 07 de Setembro de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocell.2014.09.08.001

Não sou fã de futebol. Não torço por nenhum time e nem tenho o costume de assistir a jogos no estádio ou na TV. No entanto, em especial este ano, pude ler diversas notícias sobre racismo em estádios. As redes sociais se viram por muitas vezes abarrotadas de comentários a respeito.

Dentre os fatos amplamente divulgados, cito três mais marcantes envolvendo brasileiros. O primeiro com o jogador Tinga: que sofreu com a torcida adversária fazendo barulho e imitando macacos a cada vez que ele participava de uma jogada. O segundo envolveu Daniel Alves: que insultado por um torcedor que atirou uma banana no gramado, resolveu comer a fruta. E o terceiro, o caso do goleiro Aranha: chamado de macaco pela torcida adversária.

E as punições pelos atos citados? No caso de Tinga, o clube adversário pagou uma multa de 12 mil dólares. No caso de Daniel Alves, o torcedor perdeu seu emprego, foi detido e solto sob fiança, e esta sendo processado; o clube foi multado em 12 mil euros. Em relação à Aranha, o clube adversário foi excluído da competição, multado em 54 mil reais, os torcedores identificados foram proibidos de frequentar estádios de futebol por 720 dias, e Patrícia Moreira, uma das torcedoras flagradas pelas câmeras de TV ofendendo o atleta, perdeu o emprego, prestou depoimento na delegacia, e aguarda a polícia concluir o inquérito.

Após estas punições serem aplicadas, novas ondas de comentários invadiram as redes sociais: pessoas felizes com as decisões tomadas pela justiça comemoram. Mas, ao analisar o desenrolar dos casos porém, percebi 2 coisas importantes:

  1. a ineficácia das punições aplicadas. Caso repare-se bem, numa sequência cronológica, nota-se que as punições se tornaram mais amplas, numerosas, e severas. No entanto, não foram capazes de impedir que os fatos ofensivos voltassem a ocorrer nos estádios.

  1. como a manipulação por parte da mídia e de algumas ditas celebridades impera, principalmente nos últimos dois casos, tirando-se proveito de situações como estas. A respeito do que ocorreu com Daniel Alves, o movimento “Somos todos macacos” de Neymar chamou mais a atenção que a ofensa em si; famosos e quase famosos postaram fotos com bananas e com o slogan. Houve até quem quisesse ganhar dinheiro com o ocorrido, vendendo camisa com o slogan estampado (e detalhe: modelos caucasianos divulgavam o produto). No caso de Aranha, a torcedora Patrícia foi escolhida para a velha política do castigo exemplar. Foi xingada, perseguida pela imprensa, sofreu ameaças, teve que sair de casa, e deixar redes sociais. E o mais curioso é que ela era apenas um indivíduo dentre os muito torcedores que ofenderam o goleiro (mesmo porque, por análise fria, para se fazer ouvido dentro do amplo espaço de um estádio de futebol, com uma partida em andamento, são necessárias mais do que umas poucas vozes gritando em coro). Porém os outros torcedores que ofenderam o goleiro passaram longe dos holofotes; e curiosamente dentre estes haviam inclusive indivíduos da mesma etnia que o atleta.

O que me pergunto ao avaliar tudo isto é, de fato, quem ganha com toda esta situação? Há melhorias no dia-a-dia dos brasileiros de etnia negra? Estas punições contribuem para o fim das atitudes racistas ou para a sua diminuição? Elas são capazes de induzir uma transformação, mesmo que mínima, na maneira de pensar do ofensor?

Momentos como estes exigem mais do que postagens em massa. Exige reflexão sobre as reais dimensões e causas do problema. O estádio só reflete o que se passa na sociedade como um todo. Logo, necessitamos parar de olhar apenas: para dentro destes e para o que está sob os holofotes. Precisamos raciocinar e perceber que as ações antiracismo devem ser tomadas para além do campo de futebol. Não sejamos macacos, ou bananas. Sejamos todos, antes de tudo, HUMANOS.

O NANOCELL NEWS esclarece que as opiniões e conteúdos dos artigos aqui publicados são de exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.

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